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27/10/2006

Líderes africanos recebem oferta de US$ 5 milhões em prêmio por desempenho

The New York Times
Alan Cowell

em Londres
Depois do Nobel, do Pulitzer e do Oscar, por que não dar um prêmio aos presidentes africanos?

Não para qualquer um, é claro.

Em uma conferência com a imprensa em Londres, na quinta-feira (26/10), Mo Ibrahim, um sudanês de 60 anos, bilionário, que fez sua fortuna no ramo de telefonia celular, anunciou que está oferecendo um prêmio em dinheiro de US$ 5 milhões (cerca de R$ 11 milhões) em 10 anos. O prêmio será dado ao presidente subsaariano que tiver demonstrado, ao deixar o cargo, o maior compromisso com a democracia e com o bom governo.

"Devemos enfrentar a realidade", disse Ibrahim, referindo-se ao histórico dos líderes africanos. "Tudo começa quando se admite a verdade: fracassamos. Não tenho orgulho, de forma alguma. Tenho vergonha. Realmente precisamos resolver o problema, e o problema, na nossa opinião, é a má liderança e o mau governo."

O primeiro prêmio Mo Ibrahim para Realização em Liderança Africana, pode ser dado já no ano que vem pela Fundação Mo Ibrahim. Se forem encontrados candidatos merecedores, prêmios adicionais poderão ser oferecidos nos anos subseqüentes.

Segundo os membros do conselho, é possível que haja falta de concorrentes para aquele momento de suspense, quando o mestre de cerimônias diz: "E o vencedor é..."

"Os candidatos" ao prêmio "devem ter tomado posse em eleições corretas e exercido o cargo no tempo estipulado constitucionalmente na época da posse", dizem as regras. Mary Robinson, ex-presidente da Irlanda e atual membro do conselho da fundação, disse que o prêmio "não precisa ser dado todo ano".

De certa forma, o anúncio não foi incomum -uma pessoa rica prometendo resgatar a África, seja Bill Clinton ou Bill Gates doando bilhões de dólares, Bono cantando canções ou Madonna adotando um bebê malauiano.

Mas as diferenças também são impressionantes. "Esta é uma iniciativa africana, celebrando os sucessos de novos líderes africanos", disse Nelson Mandela, ex-presidente da África do Sul em uma de várias mensagens de apoio gravadas em vídeo.

Diferentemente de muitos projetos que objetivam ajudar aldeias atingidas pela fome ou clínicas de Aids, este se concentra em líderes políticos - e na cultura pós-independência de autocratas e cleptocratas que gerou figuras como Mobutu Sese Seko do Zaire e Idi Amin da Uganda.

John Githongo, ex-diretor do combate à corrupção do Quênia, está em exílio auto-imposto no Reino Unido e não tem envolvimento pessoal com o prêmio. Ele disse em entrevista telefônica que, enquanto filantropos abordam questões como Aids e saúde na África, Ibrahim "está entrando em território desafiador, o mais importante território", confrontando maus líderes.

"Fará alguma diferença? Acho que já fez. Já vai fazer essas questões serem debatidas", disse ele.

A cultura africana do Todo-Poderoso se agarrando ao poder foi construída em parte por causa da noção entre muitos políticos que, se deixassem o poder voluntariamente, enfrentariam a penúria e deixariam de ser a fonte de apoio e de ocupar o "palácio no topo da montanha", indicou Ibrahim.

"Seus líderes aqui se tornam ricos depois que deixam o cargo", disse ele, referindo-se à renda de políticos ocidentais que se tornam diretores, escrevem livros e fazem turnês de palestras. "Qual é a vida que aguarda os nossos políticos depois do mandato? Alguns não podem sequer alugar um apartamento" nas capitais, disse ele.

Por comparação, "veja o presidente Clinton", disse Ibrahim. "Seu legado está sendo criado agora", em sua filantropia, "diante de nossos olhos, não em seus oito anos no cargo".

O prêmio deve ser concedido com base em um índice complexo criado por Robert I. Rotberg, professor americano da Faculdade Kennedy de Governo, da Universidade de Harvard. O índice vai avaliar oito áreas principais de cada um dos 48 países, inclusive o sucesso do governo em oferecer segurança, Estado de direito, oportunidade econômica e liberdade política, disse Rotberg.

Uma autoridade africana, porém, que falou sob condição de anonimato porque não estava autorizada a falar em nome de seu governo, disse que não ficou impressionada. Para ela, os africanos podem muito bem se perguntar porque seus líderes devem ser recompensados por "fazer algo que já estão sendo pagos para fazer".

Os competidores e vencedores serão selecionados por um conselho cuja composição ainda não foi anunciada. Os nomes dos concorrentes que são considerados mas não premiados não serão divulgados, disseram os sócios de Ibrahim.

Cada vencedor receberá US$ 500.000 (cerca de R$ 1,1 bilhão) por ano por 10 anos, e depois US$ 200.000 (aproximadamente R$ 440.000) por ano. Outros US$ 200.000 por ano serão dados aos vencedores que fizerem trabalhos filantrópicos.

O prêmio, segundo Ibrahim, será financiado com seus recursos próprios, após a venda de US$ 3,4 bilhões (em torno de R$ 7,5 bilhões) de sua empresa, Celtel, em 2005. Dependendo de quantos ex-presidentes forem selecionados, o prêmio pode custar até US$ 18 milhões (aproximadamente R$ 40 milhões) por ano à fundação, disse em breve entrevista.

Na conferência com a imprensa, ele insistiu que o dinheiro para a Fundação Mo Ibrahim, patrocinadora do prêmio, era separado de interesses comerciais. "Este prêmio é sobre honra", disse Ibrahim. "Como o Nobel: se você vence o Nobel, você diz: 'Ganhei US$ 1 milhão?' ou diz: 'Nossa, estou honrado.'" Deborah Weinberg

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