UOL Notícias Internacional
 

28/10/2006

Descontentamento cresce em outro canto do Sudão

The New York Times
Jeffrey Gettleman

em Togley, Sudão
Ali Hamid Ahmed era o ancião de uma aldeia cheia de campos verdes e milhares de cabras. Entretanto, uma guerra pouco conhecida entre o governo e uma força rebelde crescente tirou seu povo de suas casas e levou-o para o limite leste do Sudão, onde o horizonte é plano como um papel e a terra é quase tão fértil quanto uma caixa de areia.

O povo aqui é maltratado pelo sol, pelo vento e pela areia; as cicatrizes tribais cortadas no rosto de Ahmed quando era menino ficam constantemente enrugadas com a poeira. O povo de Ahmed ainda o chama de "conselheiro", mas Ahmed diz que aqui não dirige nada.

Jeffrey Gettleman/The New York Times 
Nas aldeias mais remotas, a maior parte das mulheres não sabe nem escrever o próprio nome

"Não temos nenhum animal", disse ele. "Só o que temos é pó."

É uma cena de desolamento e desespero, em um país que tem muito dos dois. Mas o que é diferente sobre a crise no Leste do Sudão é que poucas organizações internacionais estão prestando atenção. Estima-se que 25.000 assistentes sociais estejam trabalhando em Darfur, região destruída pela guerra no outro lado do país que se tornou foco de uma onda de atividades diplomáticas incessantes. Enquanto isso, aqui em Togley não há nem lonas para as barracas.

O Leste do Sudão é o Sudão esquecido, um canto intrigante, isolado, castigado pelo sol em um país onde uma cultura conservadora e uma guerra que cozinha em fogo lento conspiraram para manter o povo negligenciado, apesar das riquezas de petróleo e do porto da região.

A guerra pode finalmente terminar. Os rebeldes do Leste que vinham lutando por uma fatia maior dos recursos do país fecharam um acordo com o governo no dia 14 de outubro: eles deixarão as armas em troca de representação política e uma parte do dinheiro de petróleo da nação.

Mas o esquecimento levará anos para ser revertido. O Leste do Sudão, que engloba cerca de 470.000 km quadrados e quase 4 milhões de pessoas, é a parte mais pobre do país em vários quesitos, com a mais alta taxa de mortalidade infantil e uma renda per capita em algumas áreas de US$ 0,25 (aproximadamente R$ 0,55) por dia, uma fração da média nacional.

Em aldeias remotas, a maior parte das mulheres não sabe nem escrever seu próprio nome, parcialmente por causa de uma cultura muçulmana estrita que proíbe a educação de meninas e as confina as suas casas.

"Essas mulheres não têm nada para fazer além de sentar, beber café e se mutilarem. As meninas não vão para a escola; os meninos largam os estudos, e ninguém liga", disse Niyal Mohammed Al-Haj, professor em Kasala, uma das maiores cidades no Leste.

Uma das razões que o conflito no Leste em grande parte ficou despercebido é que a escala dos combates nunca poderia competir a de Darfur ou do Sul do Sudão. A luta aqui deve ter tomado entre 2.000 a 5.000 vidas nos últimos 10 anos, e foram centenas de milhares em Darfur e no Sul.

O Leste, entretanto, é cada vez mais vital para a nação; abriga minas de ouro, o maior oleoduto do país e o porto. Com os distúrbios em Darfur, os líderes do Sudão na capital Cartum dificilmente podiam se dar ao luxo de combater outra rebelião crescente.

"Cartum estava enfrentando tanta pressão em outras frentes que teve que apagar esse incêndio. Não é que os rebeldes do Leste fossem tamanha ameaça. Mas até mesmo um mosquito impede você de dormir", disse Ahmed el-Amin Terik, conselheiro do governador em Togley.

Os rebeldes do Leste não gostam de ser comprados a mosquitos. A maior parte são pastores beja, um grupo orgulhoso e tradicional que usa vestes brancas e coletes empoeirados com sabres de 1 metro enfiados no cinto. Eles fizeram ataques surpresa contra soldados do governo, fugindo de camelo. Alguns já estão reclamando do acordo no esforço de paz.

Os líderes beja queriam autonomia regional, mas em vez disso receberam posições nominais no governo central.

Os beja também queriam uma fatia maior da riqueza crescente do Sudão, movida por exportações de petróleo, e pediram US$ 1 por cada barril enviado do Porto Sudão, o que daria uma quantia em torno de US$ 150 milhões por ano. Em vez disso, o governo sudanês estabeleceu um fundo de desenvolvimento do Leste, de US$ 600 milhões (em torno de R$ 1,3 bilhão), um compromisso substancial, sem dúvida, mas que só é garantido por alguns anos.

Essas questões são similares às que geraram o derramamento de sangue em Darfur e no Sul, onde grupos étnicos regionais há muito marginalizados pegaram em armas contra o grupo governante árabe em Cartum. Os críticos do governo central dizem que foram fechados três acordos de paz distintos -no Sul em 2005, em Darfur nesta primavera e agora no Leste -e que não apenas são instáveis, mas de fato podem estimular mais distúrbios.

"A mensagem parece ser que, se você quiser mais desenvolvimento, precisa pegar em armas", disse Abda Yahia el-Mahdi, ex-ministro das finanças e agora consultor privado.

Quando chegou a hora de assinar o acordo do Leste, em uma cerimônia em Asmara, capital da Eritrea, no leste do Sudão, Omar Hassan Al-Bashir, o presidente sudanês, apareceu com roupas beja.

"Foi ridículo", disse Hashim Hangag, porta-voz do partido político Congresso Beja. "Lá estava um sujeito que nunca esteve com os beja, pretendendo ser um de nós."

As lutas desalojaram milhares de pessoas, incluindo 3.000 que hoje estão em Togley. Elas vagaram de aldeia em aldeia, até que todos seus animais morreram, e depois se estabeleceram em um pedaço de terra tão seco e infértil que ninguém queria.

Um ponto de virada aconteceu em 29 de janeiro de 2005, quando tropas do governo no Porto Sudão mataram 25 bejas desarmados que estavam protestando contra o legado da exclusão. Isso levou milhares de outros para as fileiras da Frente Oriental, e o governo central começou a temer outra Darfur.

Sérias negociações de paz começaram no início deste ano, culminando no acordo de outubro.

Ahmed, o conselheiro ancião de Togley, espera levar seu povo de volta a sua aldeia, mas há literalmente um campo minado entre um ponto e outro.

"Sei que Darfur tem problemas", disse Ahmed. "Mas e nós?" Deborah Weinberg

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