UOL Notícias Internacional
 

28/10/2006

No primeiro mês como premiê do Japão, Abe se inclina para o centro

The New York Times
Norimitsu Onishi

em Tóquio
Shinzo Abe ascendeu para se tornar o primeiro-ministro mais jovem do Japão pós-guerra sendo fiel a uma agenda conservadora, nacionalista. Ele se posicionou duramente contra a China e a Coréia do Norte e defendeu as principais causas da direita em relação à história do país.

Mas no mês desde que assumiu o cargo, Abe, 52 anos, tem se inclinado para o centro, procurando a China e a Coréia do Sul no momento em que região enfrentava o recente teste nuclear da Coréia do Norte. Ele fez reconhecimentos surpreendentes, mesmo que de má vontade, sobre o passado militarista do Japão, diminuindo as tensões regionais que surgiram sob seu antecessor, Junichiro Koizumi.

É cedo demais para dizer se o mês de Abe no poder serve como evidência de um pragmatismo nato, ou se ele está consolidando seu poder antes de promover uma agenda mais conservadora. Mas ele tranqüilizou eleitores no Japão e autoridades em Washington, obteve elogios hesitantes de céticos na China e Coréia do Sul e incomodou a direita japonesa.

Abe já fez visitas à China e Coréia do Sul. Ambos os países se recusavam a realizar reuniões de cúpula com o Japão devido às peregrinações anuais de Koizumi ao Templo Yasukuni, o memorial xintoísta aos mortos da guerra e criminosos de guerra do Japão, assim como um símbolo potente do militarismo japonês na Ásia.

A deterioração das relações do Japão com a China causava preocupação entre autoridades de governo e autores de políticas na Ásia e nos Estados Unidos. Ambos os lados tinham chegado a um impasse, com Pequim dizendo que não se encontraria com Koizumi a menos que deixasse de visitar o templo e Koizumi insistindo que não deixaria.

Abe, há muito um defensor ferrenho das visitas, agora adotou uma política mais branda e ambígua. Abe diz que nem confirmará nem negará que já orou no Yasukuni -apesar de permitir que seus assessores informem à imprensa que ele já visitou o templo.

"Sua posição em relação ao Yasukuni é um símbolo de concessão às exigências da China e Coréia do Sul", disse Kim Ho-sup, um especialista nas relações entre japoneses e sul-coreanos da Universidade Chung-Ang, em Seul. "Ele parecia linha-dura, mas após se tornar primeiro-ministro, ele lidou com as relações com os vizinhos asiáticos e questões como o Yasukuni mais diplomaticamente do que Koizumi."

"Suas visitas à China e Coréia do Sul foram bem-sucedidas", disse Kim.

Michael J. Green, que tratou de assuntos asiáticos no Conselho de Segurança Nacional até dezembro passado e atualmente está na Universidade de Georgetown, disse que Abe foi "capaz de remodelar" as relações do Japão com seus vizinhos longe do Yasukuni.

"Foi esperto domesticamente, porque tranqüilizou o centro de que ele era capaz de lidar com os países vizinhos", disse Green. "Foi esperto internacionalmente, porque deu ao Japão influência para lidar com a Coréia do Norte. Foi esperto com os Estados Unidos porque, apesar do governo americano não interferir na questão da história, o governo japonês pôde sentir que havia um crescente desconforto em Washington sobre o estado das relações entre China e Japão."

Abe formou uma base conservadora liderando esforços no Parlamento para revisar livros escolares, que a direita argumenta que lidam masoquistamente com o passado militarista do Japão, lançando dúvidas sobre a validade dos julgamentos pós-guerra em Tóquio que culparam os líderes do Japão do tempo da guerra. A partir de 2002, ele ascendeu ao estrelato nacional sendo duro em relação à China e Coréia do Norte.

Mas no mês passado, Abe reconheceu que os líderes do tempo da guerra, incluindo seu avô, Nobusuke Kishi, tiveram "grande responsabilidade" pela guerra e seus estragos na Ásia. Abe disse que aceita duas importantes declarações feitas pelos governos japoneses nos anos 90, que pedia desculpas à Ásia pelo passado imperialista do Japão e reconhecia o papel do exército japonês no uso de mulheres asiáticas como escravas sexuais durante a guerra.

Hisahiko Okazaki, um ex-alto diplomata e importante comentarista conservador próximo de Abe, disse que o primeiro-ministro não esqueceu suas raízes conservadoras, mas apenas está aguardando o momento certo.

"Sobre as políticas visando a questão do conforto da mulher e outras como esta, ele disse que elas foram estabelecidas pelos governos anteriores, não é?" disse Okazaki. "Como governos anteriores estabeleceram estas políticas, este governo pode naturalmente estabelecer sua própria política. O atual governo ainda não o fez. Mas acho que ele o fará de acordo com suas convicções assim que consolidar seu poder."

O abrandamento de Abe parece de acordo com um movimento para conter o nacionalismo nos últimos anos. Em abril passado, ex-funcionários do governo Bush, incluindo Green e James A. Kelley, um ex-secretário assistente de Estado para assuntos do Leste Asiático, disseram em uma coletiva de imprensa em Tóquio que o Yasukuni estava deixando um olho roxo no Japão. Então J. Thomas Schieffer, o embaixador dos Estados Unidos no Japão, descreveu como "muito perturbadora" a visão da história apresentada no museu do Yasukuni -a de que o Japão foi induzido a entrar na guerra pelos Estados Unidos e que ocupou a Ásia para libertá-la.

Agora, os responsáveis pelo Yasukuni disseram que planejam mudar uma peça que declara que o presidente Franklin D. Roosevelt forçou a Japão a entrar na guerra para que os Estados Unidos pudessem se recuperar da Grande Depressão. Taro Nagae, um conselheiro do Yasukuni e um pesquisador sênior aposentado do Instituto Nacional de Estudos de Defesa da Agência de Defesa, disse que o museu planejava revisar todas suas peças neste ano, mas reconheceu os efeitos do desconforto americano sobre o museu.

"Eu já sentia isto há algum tempo, e quando os comentários de Armitage e Schieffer começaram a aparecer na televisão e nos jornais, eu aconselhei em julho que precisávamos nos apressar", disse Nagae, se referindo a Richard L. Armitage, um ex-vice-secretário de Estado.

Ao ser perguntado sobre se a mudança na exposição estava ligada ao governo Abe, Nagae disse: "Se dissesse que não há relação, eu estaria mentindo. Havia opiniões de que deveríamos iniciar o trabalho após o início do governo Abe". George El Khouri Andolfato

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