UOL Notícias Internacional
 

29/10/2006

Cidade na Venezuela enfrenta proibição do garimpo por Chávez

The New York Times
Simon Romero

em La Paragua, Venezuela
Este remoto e empoeirado porto fluvial no sudeste da Venezuela parece um pouco como uma moderna Deadwood. Sonhos de enriquecer encontrando ouro ou diamantes atraíram cerca de 5 mil pessoas a La Paragua e cerca de 40 mil para as áreas próximas, vindas não só do país mas também do Brasil, Colômbia e Guiana.

Lojistas do Oriente Médio atendem uma clientela que se comunica em uma mistura local de espanhol, português e inglês com sotaque guianense. Nos intervalos das incursões na mata, os garimpeiros sustentam um caldeirão de bares, prostitutas e lojas que lidam com metais preciosos.

Mas a cidade se tornou foco dos esforços do presidente Hugo Chávez para suspender grande parte do garimpo, citando preocupações ambientais. Em setembro, soldados do exército, enviados para cá para assegurar o cumprimento da proibição, mataram seis garimpeiros, provocando protestos violentos. Os garimpeiros bloquearam o acesso à cidade, queimaram veículos do exército e destruíram a residência do prefeito na cidade próxima de Maripa.

Atualmente há um clima pesado aqui. Os moradores falam com medo sobre as barreiras do exército e a presença dos soldados que ameaçam seu ganha-pão. Pichações nas paredes de dezenas de prédios atacam Chávez, lamentam os garimpeiros mortos e até mesmo criticam as recentes compras militares do governo na Rússia.

Os moradores disseram que permanecerão e que o garimpo prosseguirá. Longino Guerra, um imigrante das Ilhas Canárias que opera um depósito e um serviço de guia na mata em La Paragua, disse: "Enquanto houver diamantes e ouro no solo, haverá garimpeiros aqui".

Mas o custo ambiental pode ser alto demais. Escavações marcam a frágil paisagem do Estado de Bolivar, lar das altas mesas de arenito conhecidas como tepuis, e de Salto Angel, a mais alta cachoeira do mundo. O mercúrio usado para separar o ouro nos leitos dos rios polui as águas e as operações de mineração e dragagem erodem os leitos e assoreiam o rio. Isto ameaça o complexo hidrelétrico de Guri, que fornece até três quartos da eletricidade consumida na Venezuela.

"É uma situação complicada sem solução fácil", disse Argenis Palacio, gerente do Instituto Nacional de Estatísticas que está realizando um censo da área. "Nós encontramos garimpeiros até mesmo de lugares distantes como Portugal e República Tcheca, atraídos para cá pela idéia de que não há supervisão de suas atividades."

O governo prometeu criar emprego para os garimpeiros no turismo ou agricultura e ensiná-los a plantar milho ou mandioca. Mas os garimpeiros dizem que as promessas não foram cumpridas e, no ano passado, centenas de pessoas próximas da cidade de Las Claritas bloquearam uma estrada para o Brasil e lançaram coquetéis Molotov contra as tropas.

No início de outubro, as tensões na fronteira aumentaram devido à fúria com as mortes de setembro, quando soldados venezuelanos mataram um cidadão guianense, alegando que ele estava contrabandeando gasolina pela fronteira para uso em geradores usados nas áreas de garimpo. Mapas da Venezuela ainda reivindicam grandes áreas da Guiana, descrevendo a região como "zona em disputa".

Quando a guarda nacional assumiu a responsabilidade pela área, ela foi acusada de violações de direitos humanos e de aceitar suborno. No ano passado, Chávez a substituiu por uma força do exército chamada TO-5, Teatro de Operações Nº 5. Agora, o general Raúl Baduel, o ministro da Defesa, disse que os promotores planejam investigar 18 oficiais militares da nova força.

O general descreveu o ataque de setembro como uma operação de manutenção da lei que saiu errado. As tropas foram enviadas para um campo detectado em uma área onde o garimpo é proibido com ordens para destruir maquinários e ferramentas, ele disse aos repórteres.

Mas os soldados dispararam à queima roupa contra pelo menos sete garimpeiros com armas de alto calibre, matando todos exceto um.

O único sobrevivente, um venezuelano que sofreu múltiplos ferimentos à bala, sobreviveu ao se fingir de morto, disse sua irmã. O homem, Manuel Felipe Lizardi, 36 anos, está se recuperando em um hospital a três horas de distância, em Ciudad Bolivar.

"Ele tinha anjos ao seu lado", disse a irmã, Berenice Lizardi, 28 anos.
"Agora eu tenho medo que o exército virá atrás dele e de nós."

O ministro da Justiça, Jesse Chacón, disse que os estudos de balística nos cadáveres "nos faz supor que houve no mínimo um uso excessivo de força".

"O controle da segurança na área saiu das mãos do governo", disse Alexander Luzardo, um professor de antropologia e direitos ambientais da Universidade Central da Venezuela e ex-diretor de campanha de Chávez.

Ele disse que o incidente foi um golpe tanto à política ambiental do governo quanto sua abordagem aos grupos indígenas, já que o garimpo em pequena escala foi permitido durante grande parte do governo Chávez, que teve início em 1998. "Nada justifica as mortes", ele disse.

Manuel Rosales, o principal candidato de oposição nas eleições presidenciais marcadas para dezembro, veio até aqui recentemente para criticar a incapacidade do governo de apresentar normas para garimpo viáveis. Maiores conseqüências políticas dependerão da capacidade do governo de rebater as acusações de que os soldados exigem dinheiro dos garimpeiros para permitir que trabalhem.

Ainda assim, enquanto a cidade se torna um local de frustração com o
exército e o governo Cháves, o garimpo prossegue. Os moradores se reuniram em uma tarde recente em um bar às margens do rio para assistir os garimpeiros aparecerem sujos de lama e exaustos após dias na mata.

"Se Chávez deseja esvaziar os garimpos, nós estamos perdidos", disse Ana Victoria Mendoza Palma, uma cozinheira de 23 anos. "O governo diz que deseja que os garimpeiros trabalhem no turismo, mas por que alguém viria para cá?"

Jens Erik Gould, em Caracas, contribuiu com reportagem para este artigo George El Khouri Andolfato

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