UOL Notícias Internacional
 

30/10/2006

Presidente do Brasil é reeleito com vitória esmagadora

The New York Times
Larry Rohter

no Rio de Janeiro
Superando uma série de escândalos de corrupção e políticos que mancharam a sua imagem e minaram a sua credibilidade, o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, obteve a reeleição em uma esmagadora vitória de segundo turno no domingo (29/10).

Com 99% dos votos apurados, Lula da Silva, um ex-operário de fábrica e ex-líder sindical que concorreu à presidência como candidato do esquerdista Partido dos Trabalhadores (PT), obteve 60,8% dos votos. A percentagem de votos do seu oponente, Geraldo Alckmin, do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), caiu quando comparada aos 41,6% que ele obteve no primeiro turno da eleição, em 1º de outubro, ocasião em que Lula por muito pouco não obteve a maioria necessária para uma vitória já naquela fase da disputa.

"Este é um resultado extraordinário, que lhe confere uma legitimidade que todas as acusações talvez tivessem destruído", afirmou Jairo Nicolau, comentarista de televisão e professor de ciência política da Universidade Cândido Mendes, referindo-se a Lula. "Uma coisa é obter uma vitória apertada, e outra totalmente diferente é registrar esse nível de apoio depois de tudo o que aconteceu".

Usando uma camiseta que proclamava "A vitória é do Brasil", Lula falou a correligionários em um hotel de São Paulo no domingo à noite, afirmando que "o Brasil está vivendo um momento mágico", e expressando a sua gratidão aos eleitores pela fé que tiveram nele. "O povo sabe distinguir entre o que é verdadeiro e o que não é", disse ele. Lula acrescentou que "aprendeu bastante" no poder, e prometeu fazer um grande esforço para combater a corrupção.

Lula assumiu a presidência em janeiro de 2003, prometendo uma nova era de justiça social e um governo limpo nesta nação de 185 milhões de habitantes que é a quarta maior democracia do mundo. Mas o seu brilho começou a se apagar um ano depois, quando um assessor foi filmado por uma câmera solicitando doações de campanha a um bicheiro local.

Depois, em maio do ano passado, um escândalo bem maior irrompeu. Embora a princípio o fato tivesse se limitado à corrupção em contratos do governo, investigações realizadas por comissões parlamentares de inquérito e pela mídia logo revelaram a existência de um caixa dois ilegal multimilionário, usado para financiar a campanha de Lula em 2002 e para comprar o apoio de parlamentares de pequenos partidos políticos.

A disseminação dos escândalos causou a renúncia de chefe de gabinete e do ministro da Fazenda de Lula, bem como do presidente, do tesoureiro e do secretário-geral do partido que Lula fundou em 1980 e que desde então liderou. Como resultado, as pesquisas de opinião realizadas no final do ano passado indicaram consistentemente que o presidente seria derrotado caso disputasse a reeleição.

Para piorar as coisas, no mês passado a polícia prendeu agentes do partido de Lula quando estes se preparavam para pagar US$ 792 mil em dinheiro vivo por um dossiê que eles aparentemente acreditavam que prejudicaria as chances eleitorais de Alckmin. Embora esse episódio tenha enfraquecido Lula no primeiro turno das eleições, ele foi beneficiado por uma economia em melhor estado e por um programa social que fornece um auxílio mensal de cerca de US$ 65 a quase 12 milhões de famílias pobres.

"A virada de Lula se baseia principalmente na economia", afirmou Alberto Carlos Almeida, cientista político e autor de "Por que Lula? O Contexto e as Estratégias que Explicam a Eleição e a Crise", um livro que analisa a eleição de 2002. "Esse fato, aliado aos programas sociais, dá ao eleitorado a impressão de que Lula está realmente tomando conta dos pobres. Há a aparência de estabilidade, de forma que o povo deseja uma continuidade política".

Após ter sido punido no primeiro turno da eleição, em 1º de outubro, Lula adotou um novo slogan de campanha: "Não troque o certo pelo duvidoso". O slogan foi nitidamente bem recebido pelos eleitores da classe trabalhadora, que sempre forneceram a sua base eleitoral.

"Lula se preocupa com os pobres, e é isso o que importa para mim, mais do que toda essa conversa sobre corrupção, que é algo que sempre tivemos", disse Jane Cunha, uma empregada doméstica de 56 anos, em uma seção eleitoral na manhã de domingo. "Eu ganho o salário mínimo e, graças a ele, o meu rendimento mensal aumentou US$ 20, e o preço da comida abaixou, de forma que estou comendo mais carne do que no passado".

Lula fez um governo de direita, pelo menos no que se refere à sua política econômica conservadora. Por exemplo, ele obteve aquele tipo de superávit orçamentário que faz com que Wall Street e o Fundo Monetário Internacional (FMI) se deliciem, e os lucros dos bancos nunca foram tão elevados.

Mas, nas últimas semanas, ele fez uma "campanha de esquerda", segundo as palavras de Marco Aurélio Garcia, o assessor de segurança nacional do governo, que foi forçado a assumir também o cargo de gerente da campanha de Lula, depois que o seu predecessor foi obrigado a renunciar no mês passado devido ao escândalo do dossiê. Um pagamento da dívida contraída junto ao FMI, por exemplo, foi apresentado nas suas declarações públicas como uma "notificação de demissão" entregue por Lula à organização, e um aviso para que esta não metesse mais o nariz nas questões brasileiras.

Além disso, o presidente acusou repetidamente Alckmin de pretender desmantelar os programas sociais do governo e privatizar as companhias e bancos estatais. Por mais que Alckmin, exasperado, negasse tais acusações e reclamasse de que Lula estava espalhando "uma grande mentira", o candidato do PSDB não foi capaz de desmenti-las.

"Alckmin foi empurrado para a direita e colocado na defensiva, e jamais foi capaz de sair dessa postura", disse Nicolau. "Ele não foi capaz de se defender e nem de apresentar o seu próprio programa. Ainda que ele tivesse dito 300 vezes que as acusações eram inverídicas, as pessoas continuariam retrucando: 'Por que arriscar?'".

Como ocorre com freqüência, as personalidades dos candidatos também parecem ter desempenhado um papel nos cálculos dos eleitores. Lula jamais deixou passar uma oportunidade de fazer referências às suas origens humildes, que são similares às da maioria do eleitorado, enquanto Alckmin, um médico cuja especialidade é a anestesiologia, se mostrou incapaz de modificar a sua imagem de um filho da classe média afável e às vezes pedante.

"Creio que Alckmin possui a melhor plataforma, mas ele não tem carisma", afirmou Renato Bruzzi, um engenheiro de 57 anos que assim mesmo votou no candidato do PSDB. "Lula é um lutador, e o povo se identifica com ele. Alckmin está bem qualificado para ser um bom presidente. Mas ele tem aquele ar professoral que irrita um pouco as pessoas".

Alckmin procurou tirar vantagem dos escândalos de corrupção, fazendo deles a peça central da sua campanha. Mas ele foi tido como muito agressivo em relação à questão, e a falta de progresso nas investigações oficiais sobre o escândalo do dossiê enfraqueceram a sua alegação de que Lula era o principal responsável.

"Devido a todas essas denúncias de corrupção, votei em Alckmin no primeiro turno, baseado na emoção", conta Valmir Moura, 38, funcionário de escritório. "Mas desta vez eu parei para pensar sobre a situação, e percebi que toda a sua campanha se baseou apenas em acusações, e que ele não apresentou um programa para governar. Por isso, eu resolvi votar novamente em Lula". Danilo Fonseca

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