UOL Notícias Internacional
 

30/10/2006

Quando todas as peças de vestuário são íntimas

The New York Times
Guy Trebay
Sem perder jamais a oportunidade para um gracejo, Truman Capote sussurrou para Joanne Carson que não se preocupasse. O escritor morria na casa de Carson nas colinas de Bel Air, em Los Angeles. Capote lhe disse que aquilo que estava tomando conta dele era só a impressão de um fim.

"Pense em mim como se eu tivesse ido para a China", disse Capote a Carson - ex-mulher de Johnny Carson e uma devota das idéias de Capote -, enquanto o escritor repelia a insistência dela em chamar uma ambulância. "Na China simplesmente não existem telefones ou serviço postal".

Marilynn K. Yee/The New York Times 
O chapéu de Capote faz parte dos seus objetos que estavam intocados e agora irão a leilão

Raramente a presença do talentoso escritor e figura tragicômica foi mais vívida quanto hoje no cenário cultural, desde que ele fez aquela viagem final para a China 22 anos atrás. Dois aclamados filmes biográficos saíram recentemente; novas edições dos seus contos e relatos não ficcionais acabam de ser lançados, e surgiu um fascínio em relação à sua vida e às suas peregrinações pelos extratos alto e baixo da sociedade.

É claro que sempre que surge um culto a uma personalidade, existe uma fome por relíquias, e assim Carson decidiu recentemente esvaziar os armários dos quartos da sua casa, nos quais Capote passava seis meses por ano.

"Tudo está lá do jeito que ele deixou", disse Carson, enquanto se preparava para viajar de Los Angeles para Nova York, e para se separar dos objetos pessoais de Capote em um leilão na Bonhams, em 9 de novembro.

"Tudo está intocado, esperando pela volta dele", disse Carson.

Há os seus escabelos, manuscritos, garrafas de decantação Baccarat, estojos feitos à mão e uma colcha de crochê tecida para o seu querido primo Sook Faulk. E ainda o sofá de madeira nobre no qual ele com freqüência posava teatralmente para fotografias.

A coletânea traz também caixas de fósforos do La Cote Basque, o restaurante cujo nome ele utilizou como título de um capítulo de "Answered Prayers", o romance inacabado que, de acordo com os biógrafos de Capote, marcou a guinada definitiva no seu destino social, e o início do seu declínio.

Há ainda aquele lixo caseiro e peças kitsch de natal que todos nós já guardamos dentro de caixas em algum canto. Porém, o mais comovente são as suas roupas.

Qual é o valor de mercado de um terno de tamanho infantil da Dunhill, um roupão de banho velho, um terno listrado com manchas nas calças e nas lapelas? Como meros objetos, as velhas camisas pólo de Truman Capote não têm valor algum, afirma Margaret Barrett, a responsável por organizar as vendas de lembranças para a Bonhams & Butterfields.

"Essas coisas só valem aquilo que alguém está disposto a pagar por elas", explica Barrett. Mas, segundo ela, para as pessoas que desembolsam grandes quantias para comprar, digamos, vestidos de Marilyn Monroe ou os sapatos de rubi de Judy Garland, ou o uniforme de Babe Ruth, o que está em jogo é um outro tipo de operação psíquica.

"Quando uma pessoa veste uma roupa, ela está mantendo o tipo de contato mais íntimo possível", afirma Barrett. "E, por mais perturbador que seja imaginar tal coisa, uma pessoa fica intimamente conectada com uma celebridade, mesmo que o seu corpo tenha há muito deixado de existir. Este é, aparentemente, um impulso profundamente humano".

Os objetos liberam memórias, e poucos objetos fazem tal coisa de forma tão intensa quanto as roupas.

"Em uma sociedade cada vez mais materialista, altamente móvel e socialmente desconectada, existe com freqüência um significado profundamente simpático a ser encontrado em peças de vestuário, sendo que, às vezes, isso se aplica especialmente às roupas que não nos pertencem", afirma Winifred Gallagher, autor do livro "It's In the Bag: What Purses Reveal - and Conceal" (algo como, "Está na Sacola: O Que as Bolsas Revelam - e Ocultam").

"Ter a bolsa da mãe ou da tia é algo de importante para as mulheres", explica Gallagher. "Tais objetos são amplificadores de memória. Muitas mulheres declaram o quanto adoram o fato de possuírem a peça de cetim negro da tia Mary".

Esse fenômeno transcende as fronteiras do sexo. Ao que parece, todos são susceptíveis a ele. "Participei de quatro eventos de lançamento do meu livro, e as lágrimas sempre me vieram aos olhos", conta Ilene Beckerman, autora de "Love, Loss and What I Wore" (algo como, "Amor, Perda e O Que Eu Vestia"), uma delicada e leve memória que inspirou a cineasta Nora Ephron.

"As pessoas costumam zombar de quem cultua os vestuários, mas a verdade é que essas coisas são de fato importantes", acrescenta Beckerman. "As roupas não dizem respeito apenas a moda ou estilo. Há também a textura, o cheiro, e toda a sensibilidade do ser envolvido".

Como no caso da jaqueta de náilon Courreges, de Capote, em cujo bolso foi encontrado um cupom para o recebimento de drinques gratuitos no Studio 54, as roupas funcionam como retratos de uma outra era. "Elas nos dizem o que costumávamos ser".

É por isso que muitas mulheres costumam a se apegar àquilo que Beckerman chama de vestido Big D, aquele que elas usaram no dia do divórcio. E é por isso que o marido de uma mulher que Beckerman conheceu se apegava teimosamente a uma caixa de camisetas manchadas de suor que ele usou quando trabalhava em um kibbutz israelense na juventude. E foi por isso também que, quando a mulher de um indivíduo morreu, ele não foi capaz de esvaziar o guarda-roupas porque, ao segurar as roupas, era capaz de sentir o perfume da esposa. E é esse também o motivo pelo qual, ao perceber que a costura de um roupão feito pela mãe quando ele foi para a faculdade se rompeu, um homem tentou consertá-la, e caiu em prantos ao olhar de perto para a costura e constatar o cuidado com que ela fora feita.

É claro que os cientistas e acadêmicos estudaram esse fenômeno, às vezes à serviço das empresas que procuram manipular as nossas associações emocionais com os objetos do cotidiano. Donald A. Norman, professor da Universidade Northwestern e autor de "Emotional Design" ("Desenho Emocional"), freqüentemente faz discursos sobre a importância dos laços afetivos dos consumidores com objetos.

O psiquiatra francês Clotaire Rapaille, mencionado por Gallagher no seu livro, aconselha grandes companhias como a Chrysler e a Procter & Gamble no que diz respeito a como melhor fazer o marketing dos seus produtos, de maneira a gerar uma resposta emocional. "Queremos viver em um arquétipo. Desejamos um carro e uma jaqueta que também sejam arquétipos", afirma Gallagher.

E é claro que os antropólogos há muito estudam as dimensões espirituais do vestuário humano, embora na maior parte das vezes no contexto dos chamados povos primitivos. Mas será que as bolsas Lariat de Balenciaga não passariam apenas de versões pós-industriais da trouxa de um xamã? E será que o fato de alguém usar uma camisa que traz, costurado em si, o escalpo de um inimigo, é tão estranho quanto os calções de banho de algodão usados por Capote? (O catálogo da Bonham adverte os compradores: "os próximos 31 lotes de peças do armário de Truman Capote estão em estados diversos de conservação, sendo que muitas peças apresentam manchas, buracos feitos por traças, rasgados, entre outras coisas").

"Creio que essa febre pelas coisas dos outros, por roupas de qualidade, é parte de uma fome geral pela narrativa que atualmente pode ser testemunhada no universo das artes", opina Andrew Bolton, curador do Instituto de Vestuários do Museu Metropolitano de Artes. "Vejam como a biografia se tornou cada vez mais importante", acrescenta Bolton, em uma alusão não só à literatura ou à onda de pintura representativa, mas também às historias de fundo que animam todas as peças de segunda mão que atualmente têm sido apresentadas no mercado como vintage couture. "Nos museus, a nossa ênfase está especialmente nas qualidades inerentes do design de uma roupa", afirma Bolton. Mas às vezes é difícil ignorar as associações vinculadas a peças rasgadas, desbotadas e culturalmente históricas que vieram do armário do escritor.

Por exemplo, o lote 1121 é um paletó Dunhill com botões, dois bolsos laterais e gorgorões. Foi esse paletó que Capote usou no seu lendário Baile Preto e Branco em 1966.

"As pessoas fazem muitas projeções imaginárias sobre os vestuários", afirma Bolton. "Sob o nosso ponto de vista, é claro, manchas, rasgados ou marcas de batom em um colarinho são coisas horríveis. Mas tudo isso faz parte da história do objeto e do seu páthos". Danilo Fonseca

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