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02/11/2006

Conseqüências do Katrina afetam escolas de Nova Orleans

The New York Times
Adam Nossiter

em Nova Orleans
O Colégio John McDonogh tem pelo menos 25 seguranças, na entrada, no alto das escadas e do lado de fora das classes. A escola tem detector de metal, quatro policiais e quatro viaturas policiais na calçada.

Nas últimas seis semanas, o estudantes da McDonogh, o maior colégio em funcionamento aqui, atacaram os guardas, um professor e um policial. Um guarda e um professor foram espancados tão severamente que foram hospitalizados.

Cheryl Gerber/The New York Times 
O diretor do Colégio John McDonogh, Donald Jackson, supervisiona uma sala de aula

A onda indica um fenômeno abrangente pós-furacão Katrina, disseram educadores daqui. Os adolescentes na cidade estão vivendo sozinhos ou com irmãos mais velhos ou parentes, separados por centenas de quilômetros de seus pais deslocados. Dezenas de estudantes do McDonogh se viram praticamente sozinhos, disseram autoridades escolares. "Eles estão aqui por conta própria", disse Wanda Daliet, uma professora de ciências. "Eles estão criando a si mesmos. E estão furiosos."

O diretor, Donald Jackson, estimou que até um quinto dos 775 estudantes
vivem sem os pais. "Basicamente, eles estão criando a si mesmos, porque não há figura de autoridade em casa", disse Jackson. "Se eu telefonar para um pai porque tenho um problema, eu posso ser atendido por uma tia, que pode ter no máximo 20, 21 anos. Que tipo de governo, que tipo de estrutura há na casa, se estas são as condições de vida?"

Em uma aula de cosmetologia no segundo andar, duas entre seis garotas
disseram que seus pais estavam em outro lugar. "Eu não converso com ela tanto quanto gostaria", disse uma garota de 16 anos, Tiffany Mansion, enquanto olhava para baixo. Sua mãe está em Little Rock, Arkansas.

No refeitório, foi perguntado a um tímido rapaz de 18 anos quem encontrava em casa à noite: "Ninguém. Apenas eu". Seus pais estão em Baton Rouge.

Jackson disse que muitos pais com quem falou estavam em Baton Rouge, Houston ou em outros lugares. "Esta é a pergunta que está mexendo com a cabeça de todo mundo", disse a coordenadora de currículo do McDonogh, Toyia Washington Kendrick. "Como alguém pode deixar seus filhos aqui, crianças em idade escolar, abandonados?"

A resposta é tão fragmentada quanto a estrutura social, que o furacão do ano passado tornou ainda mais complicada. Alguns alunos descrevem famílias que mal são funcionais mesmo antes da tempestade. Outros disseram que necessidades econômicas urgentes mantiveram seus pais distantes.

Diante de uma conta de eletricidade atrasada de US$ 1.300 em Nova Orleans, Rachelle Harrell cedeu a seu filho Justin e seu primo, Kiante, ambos de 16 anos, e os enviou de volta a Nova Orleans de ônibus enquanto permanecia em Houston e continuava trabalhando como enfermeira. A decisão angustiou Harrell, 36 anos, mas Justin estava sendo azucrinado em Houston e desejava voltar a McDonogh. Justin, sua irmã, Ebony Gay, 18 anos, e Kiante se instalaram na velha casa de Harrell no bairro de Algiers. Um cheque mensal de sua mãe e um emprego em um restaurante fast food ajudam a pagar as contas.

Harrell já esperava pela pergunta inevitável. "Por que seus filhos estão em casa e você está no Texas" ela perguntou. "Bem, estou tentando voltar para casa. É uma loucura. Mas meus filhos sabem da minha situação. Quando o ano letivo começou, eu tive que trabalhar mais algumas semanas por causa daquela conta de luz."

"Eu perguntava, 'Oh meu Deus, está tudo bem?' Eu mal conseguia dormir a
noite. Senhor, se algo acontecer, vou ser vista como uma péssima mãe e estou a centenas de quilômetros de casa."

Na semana passada ela deixou o emprego em Houston e voltou para Nova
Orleans, definitivamente.

Se as causas são complicadas, as conseqüências parecem evidentes para as autoridades escolares: um grande número de estudantes beligerantes, hostis à autoridade e sem medo de punição dos pais em casa.

Desde que McDonogh reabriu há quase dois meses com matriculados de cinco dos 15 colégios da cidade, os estudantes cometeram seis ataques "muito graves", disse Jackson.

Um jovem repentinamente se inclinou em meio ao aglomerado que esperava pelo ônibus após a escola. A polícia o estava algemando por fumar maconha, disse uma autoridade escolar.

Nos corredores, os estudantes empurram uns aos outros e riem a caminho da sala de aula. Em algumas aulas, os estudantes se esforçam para manter a atenção no quadro negro.

Mas há tensão. A tempestade virou o mundo deles de cabeça para baixo,
disseram professores e administradores, destruindo casas e dispersando
famílias. "Eles estão se rebelando contra a autoridade", disse Daliet, a professora de ciências. "Você pede a eles que façam algo e eles reagem."

No refeitório e nos corredores, os estudantes são ordenados a colocarem a camisa para dentro da calça. Muitos apenas sorriem em resposta. "Quando você tem diretrizes em casa que refletem as diretrizes na escola, é uma transição fácil", disse Jackson. "Mas quando isto não existe, você lida com um estudante cuja postura é: 'Eu não ligo, vou fazer o que eu quiser'." George El Khouri Andolfato

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