UOL Notícias Internacional
 

02/11/2006

Uma visão esperançosa, em vez de sensacionalista, de um político

The New York Times
Sharon Waxman

em Los Angeles
Já faz algum tempo desde que o nome Kennedy deixou de ser uma palavra código simples para esperança, coragem, justiça social e coisas do gênero. Na obsessão pop dos Estados Unidos pela família ilustre, nos últimos anos o nome chega mais freqüentemente às manchetes por escândalos e tragédia, acidente ou vício.

Mas uma espécie de reabilitação está próxima caso Emilio Estevez, um admirador assumido de Kennedy que escreveu e dirigiu "Bobby", imponha sua vontade. O drama de Estevez, sobre a noite do assassinato de Robert F. Kennedy enquanto buscava a candidatura presidencial em 1968, tem lançamento previsto para 17 de novembro.

No filme, um caleidoscópio de atores renomados - Martin Sheen (o pai de Estevez), Harry Belafonte, Sharon Stone, Laurence Fishburne, Demi Moore - interpretam pessoas comuns fictícias cujas vidas se cruzam no momento dos disparos contra Kennedy no Ambassador Hotel, no centro de Los Angeles.

Quanto ao candidato, Estevez optou por retratá-lo apenas em imagens arquivo da época, e apenas sob a luz mais lisonjeira: andando pelos Apalaches com famílias atingidas pela pobreza, defendendo direitos civis, atravessando com dificuldade multidões de simpatizantes empolgados, defendendo ideais elevados como fez em seu último discurso: "Não tema o caminho da verdade pela falta de pessoas caminhando nele".

Estevez, 44 anos, disse que desejava representar um lado particular de Kennedy, mesmo que não seja tudo que a história registra sobre o homem que foi um soldado vigoroso para a agenda de seu irmão, um ex-aliado do senador Joseph R. McCarthy e um feroz perseguidor do líder do sindicato dos caminhoneiros, Jimmy Hoffa. O Bobby Kennedy de Estevez é nobre, mesmo santo, imbuído da missão de tornar o mundo um lugar melhor e é intencionalmente retratado de tal forma, mesmo correndo o risco de colocar o filme em desacordo com a tendência contemporânea de quebrar os pés de barro dos ídolos políticos.

"É o espírito de quem ele era na época de sua morte", disse Estevez em uma entrevista por telefone nesta semana. "É porque é o ponto em que o filme começa e o que aprendemos sobre ele naquele momento."

"Após o assassinato de Jack ele se tornou mais brando, muito mais compassivo", ele continuou. "Eu acho que ele entrou em contato com sua humanidade de uma forma totalmente diferente. Isto ficou certamente refletido naquela candidatura muito breve. Você vê no rosto dele. Ele é um sujeito diferente."

David Halberstam, que escreveu muitos livros sobre o período e cobriu a candidatura de Kennedy ao Senado em 1964 para o "New York Times", concordou que Kennedy estava evoluindo em 1968 e disse que tal evolução era a parte mais interessante do homem.

"Havia muita conversa naquela época sobre o Bobby bom e o Bobby ruim, o sujeito que perseguiu Hoffa, que era o sujeito durão para seu irmão", e o contraste com o candidato, disse Halberstam.

Um advogado, Kennedy começou sua carreira política trabalhando para o Departamento de Justiça, depois se tornou consultor jurídico assistente do subcomitê de investigações de McCarthy antes de se tornar advogado chefe do comitê do Senado que investigava Hoffa. Após dirigir a campanha presidencial bem-sucedida de John F. Kennedy, Robert Kennedy foi nomeado secretário de Justiça, usando sua posição para defender direitos civis para os negros americanos em meio às divisões sociais históricas, mas também autorizando grampos telefônicos contra o reverendo Martin Luther King Jr. em uma busca de uma ligação da equipe de King com o Partido Comunista. Após o assassinato do presidente, Robert Kennedy deixou o Gabinete e conquistou uma cadeira no Senado.

Em 1968, ele decidiu disputar a indicação democrata à presidência -não "apenas para se opor a qualquer homem mas para propor novas políticas", como ele diz em uma imagem de arquivo mostrada no filme. "Eu concorro porque estou convencido de que este país está em um caminho perigoso e porque tenho um forte sentimento sobre o que deve ser feito, e sinto que estou obrigado a fazer tudo o que puder."

Halberstam disse que tudo isso era verdadeiro, mas que Kennedy também estava trabalhando suas questões internas. "Agora ele estava fora do governo, por conta própria, despedaçado pelo assassinato", ele lembrou. "Ele estava sob constante dor emocional. Ele tinha sua própria dor e compartilhava a dor dos outros. Isto é o que o tornava muito interessante. As pessoas que o cobriram naquele ano achavam que estavam assistindo um político especial, não apenas em ação, mas alguém que estava crescendo."

A visão idealizada de Robert Kennedy por Estevez contrasta dos filmes, minisséries e livros cheios de escândalos que sensacionalizaram a família, em vez de elevá-la, por décadas. Parte disto até mesmo foi criado pela própria progênie.

Christopher Lawford, o filho de Patricia Kennedy, a irmã do presidente, e do ator Peter Lawford, escreveu recentemente um livro sobre seus anos de vício em drogas, "Symptoms of Withdrawal: A Memoir of Snapshots and Redemption". Outro livro popular narrou recentemente os dramas femininos do clã, "The Kennedy Women: The Saga of an American Family", uma obra não autorizada de autoria de Laurence Leamer, que não deve ser confundida como "Jackie, Ethel, Joan: The Women of Camelot", um dramalhão feito para a TV em 2001 baseado no livro de J. Randy Taraborrelli. E neste ano, Patrick Kennedy, filho de Edward e um membro do Congresso, ganhou as manchetes quando bateu seu carro no Capitólio, se declarou culpado de direção sob efeito de medicamentos e entrou em uma reabilitação ordenada pela Justiça.

Assim, não surpreende que a família Kennedy tenha abraçado os esforços de Estevez, independente do fato dos Sheens, que são ativistas tanto quanto atores, terem crescido amigos e simpatizantes dos Kennedys, especialmente Robert. (Estevez disse que lhe contaram a vida toda sobre ter apertado a mão de Robert Kennedy montado nos ombros de seu pai, quando Sheen estava fazendo campanha em prol de Kennedy.)

A viúva de Kennedy, Ethel, os filhos e outros membros próximos da família disseram que não sentem vontade de assistir ao filme, que recria a tragédia no hotel em que ela ocorreu, pouco antes do prédio ter sido demolido. Mas eles emitiram declarações de apoio.

E Estevez, que era jovem demais para lembrar pessoalmente de algo sobre o candidato carismático, é agradecido por seus sonhos transparentes. "Eu sou assumidamente idealista", ele disse. "Eu sou assumidamente otimista. Sou assumidamente fervoroso. Não sou Poliana, mas não gosto da alternativa. Eu acho que Bobby Kennedy representava tudo isto em 1968. O filme é um reflexo disto." George El Khouri Andolfato

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