UOL Notícias Internacional
 

06/11/2006

Os germes não dormem nunca

The New York Times
Allen Salkin
Simon Sassoon via o futuro em um sonho. Sassoon, um ex-projetista de relógios, sonhava que estava em um banheiro público feminino, do qual a sua namorada muito preocupada com a questão da higiene acabara de sair. Colada na porta, sobre a maçaneta, havia uma caixa branca de plástico.

Enquanto, no sonho, Sassoon observava, a caixa emitia um som. Da sua parte inferior saía um jato de uma névoa fina e seca, que banhava a maçaneta de metal e matava todos os germes que estavam sobre ela.

"Senti que tinha encontrado a minha missão", disse Sassoon na semana passada, muito acordado enquanto exibia um protótipo, que segundo ele é muito parecido com a caixa visualizada no sonho.

A namorada é atualmente uma "ex", mas dois anos e US$ 250 mil de investimentos depois, a HYSO, uma acrônimo de palavras em cantonês que significam "mãos felizes", está começando a sair da linha de produção. Sassoon, 44, sobrinho do cabeleireiro Vidal Sassoon, está apostando que existe um mercado vasto e em rápida expansão para um dispositivo de US$ 60 que borrifa um desinfetante de eficácia hospitalar sobre maçanetas a cada 15 minutos.

Seja em sonho ou em pesadelo, ele pode estar certo. Germes de todos os tipos estão nas mentes dos norte-americanos, a julgar pela enxurrada de produtos de combate a micróbios que chegam ao mercado, em dezenas de categorias de consumo. Eles incluem uma tira portátil para uso no metrô, que promete acabar com o "toque em barras de metal pegajosas"; "canetas" ultra-violeta que podem ser imersas em um copo d'água para matar tudo o que seja a base de DNA e um purificador de ar para ser usado no pescoço. Com esses produtos as companhias estão criando a impressão de que ninguém precisará jamais encostar em superfícies estranhas, beber uma gota de água ou respirar um átomo de oxigênio contaminados por um outro ser humano.

Os membros da brigada da higiene podem relatar uma série de motivos pelos quais todos os estranhos são inimigos potenciais: temporadas de gripes virulentas, aeronaves lotadas e cheias de ar estagnado, ônibus nos quais os passageiros não cobrem as bocas ao espirrar. Mas os críticos detectam um elemento de histeria na "germefobia" dos norte-americanos, e sugerem que na raiz desse fenômeno existe um medo de um mundo perigoso e fora de controle.

"Os propagandistas de uma série de produtos gostam muito de se aproveitar da sensação que os norte-americanos têm de estarem vivendo em uma época e um local muito perigosos, e de vender a esses indivíduos, por um preço relativamente baixo, uma sensação de proteção", afirma Barry Glassner, autor de "The Culture of Fear: Why Americans Are Afraid of the Wrong Things" ("A Cultura do Medo: Por que os Americanos estão com Medo das Coisas Erradas").

É apenas uma coincidência o fato de que os mesmos locais nos quais os norte-americanos mais temem a ocorrência de atentados terroristas - aeronaves, escolas, veículos de transporte de massa, reservatórios de água e computadores - serem os mesmos nos quais têm pavor das infecções por germes?

Novos relatórios trouxeram informações preocupantes sobre ameaças microbianas como a síndrome respiratória aguda severa e a bactéria E. Coli. E, com a existência de 300 milhões de norte-americanos, há mais do que nunca um potencial maior para narizes escorrendo e mãos não lavadas, que se constituiriam em veículos para se contrair mais resfriados. Em um estudo de 2005 encomendado pela Sociedade Americana de Microbiólogos, um dos muitos relatórios citados pelos indivíduos preocupados com os germes, 91% dos adultos afirmaram que lavam as mãos após usarem um banheiro público, mas observadores daquilo que ocorre no mundo real descobriam que apenas 83% procedem dessa forma.

São símbolos favoritos do movimento (e dos seus detratores) o detetive obsessivo-compulsivo de televisão, Monk; o notório apresentador do programa de TV avesso a germes Howie Mandel, que colocou no seu website uma placa de "é proibido dar apertos de mão"; e o misófobo (o termo apropriado para aquilo que as pessoas chamam de germófobo) Howard Hughes.

Mas nem todos os que são dotados de uma hiper-consciência higiênica podem ser desprezados como doentes que sofrem da desordem de ansiedade de Monk. Embora alguns dos dezenas de milhares de microorganismos, bactérias, fungos e vírus conhecidos coletivamente como "germes" sejam benéficos aos humanos, como a bactéria que ajuda na digestão, cerca de 600 são perigosos, como a salmonella, a E.coli e o vírus da gripe, afirma Philip M. Tierno Jr., autor do livro "The Secret Life of Germs" ("A Vida Secreta dos Germes").

A Georgia-Pacific, a empresa de produtos de papel, começou a receber relatórios de campo sobre misteriosas coletas de toalhas de papel usadas nas proximidades das saídas de banheiros. Uma investigação mais aprofundada revelou que os usuários levavam as toalhas até a porta para cobrir a maçaneta, e depois as jogavam no chão (porque as latas de lixo ficavam muito longe).

No verão a companhia introduziu o Safe-T-Guard, uma mistura de caixa de toalhas de papel do tamanho das maçanetas e lata de lixo. Os dispositivos foram instalados nas paredes ao lado das portas dos banheiros.

O medo que o consumidor tem dos ambientes sujos aumentou significativamente nos últimos cinco anos, afirma Bill Sleeper, o diretor-geral do departamento de toalhas e lenços de papel da Georgia-Pacific. "Existem todas essas questões relativas a infecções nosocomiais em ambientes hospitalares, o risco da gripe aviária, os surtos em navios de cruzeiro. O fato é que há uma consciência cada vez maior com relação aos assuntos relativos à saúde", explica Sleeper.

Mas, segundo ele, alguns dos comportamentos resultantes não fazem sentido. Os estudos feitos pela companhia demonstraram que há usuários de banheiros cobrindo os dedos com toalhas de papel antes de darem descarga e usando mais toalhas para abrir a tampa da privada, ainda que não haja motivo para isso, já que a próxima parada é na pia, para lavarem as mãos com água e sabão.

Uma outra companhia, a Fulkerson, em Cumming, Georgia, está atacando o problema das maçanetas de forma diferente. O seu SanitGrasp, apresentado em maio na convenção da Associação Nacional de Restaurantes, substitui as tradicionais alças para puxar as portas por um dispositivo em forma de U, que permite que a porta seja aberta com um antebraço.

E no mundo não corporativo as inovações anti-germes prosseguem em ritmo furioso:

Sandra Barbor, 60, de Sandwich, Illinois, sempre se incomodou com o fato de segurar as alças dos carrinhos de supermercados, e quando descobriu que o marido sofria de síndrome mielodisplástica, doença que compromete o sistema imunológico, ela foi compelida e inventar o Sani-Shopping Cover, uma tira protetora de vinil, no valor de US$ 3,49, que adere às alças dos carrinhos. Barbor, uma comerciante aposentada, vendeu cerca de 1.000 unidades do produto online.

Hóspedes de hotel, preocupados com a possibilidade de as colchas não estarem sendo lavadas com a mesma freqüência que os lençóis, adotaram a mania de retirá-los da cama assim que chegam e jogá-los em um canto , com a parte inferior voltada para cima. Os hotéis Marriott responderam a esse fenômeno no ano passado com um conceito de roupa de cama chamado Revive. Os edredons são envolvidos por coberturas de algodão, que são lavadas juntamente com os lençóis.

Na Internet, os viajantes freqüentes fazem alertas quanto à sujeira dos controles remotos dos aparelhos de televisão dos hotéis (as sugestões incluem levar uma sacola plástica para cobrir esses atraidores de germes cobertos de botões) e as canecas de café disponíveis nos quartos (segundo o que se diz nos grupos de discussão, as arrumadeiras não as substituem por outras canecas lavadas apropriadamente. Em vez disso, para limpar as canecas sujas, elas recorreriam a toalhas usadas na esfregação das privadas).

Os indivíduos que freqüentam esses grupos de discussão afirmam que os seus temores são justificáveis.

Uma dessas pessoas, Julie Zagars, 34, consultora da indústria de alimentos e bebidas, disse por telefone: "Viajo com freqüência, e simplesmente não tenho tempo para ficar doente".

Quando Zagars embarca em aviões, ela primeiro coloca no pescoço o Purificador de Ar Pessoal Iônico Air Supply, que segundo o fabricante repele substâncias alérgenas e vírus. A seguir ela limpa os encostos para os braços e as bandejas de refeições com lenços desinfetantes Clorox, e finalmente usa o seu próprio lençol de algodão para viagens.

Parte desse sentimento anti-germes pode derivar da crescente pressão para não perder dias de trabalho, afirma Allison Janse, autor do livro "The Germ Freak's Guide to Outwitting Colds and Flu: Guerrilla Tactics to Keep Yourself Healthy at Home, at Work and in the World" (algo como "O Guia do Misófobo para Passar a Perna nos Resfriados e Gripes: Táticas de Guerrilha para Você se Manter Saudável em Casa, no Trabalho e no Mundo").

A tarefa de transformar o medo em ânimo é deixada a cargo dos publicitários. Provavelmente a primeira onda de consciência moderna em relação aos germes teve início em 1997, com o lançamento para o público comum do Purell, o gel para a desinfecção das mãos (que já era usado pelos médicos desde 1988). A Pfizer, que fabrica o Purell, atualizou o produto à medida que crescia a nova onda de instrumentos de combate aos germes. A companhia lançou uma linha multicolorida de desinfetante, o Purell-2-Go, que vem em pequenas caixas dotadas de anéis de borracha para que sejam afixadas a mochilas, merendeiras e chaveiros. "Tentamos fazer um produto divertido", explica Erica Johnson, uma das porta-vozes da Pfizer.

Um livro infantil de Elizabeth Verdick, publicado neste ano pela editora Free Spirit, e intitulado "Germs Are Not for Sharing" (algo como "Os Germes Não são Feitos para Serem Compartilhados"), traz ilustrações de crianças brincando juntas sem se tocarem. "Quando os germes chegam às suas mãos, eles são capazes de se disseminar para as outras pessoas. Isso ocorre quando você dá a mão a outra pessoa, participa de jogos ou dá high fives (bater com a palma da mão na palma de outra pessoa para comemorar alguma coisa)", adverte o texto.

"Eu duvido de que as crianças deixarão de dar os seus high fives", afirma o médico Michael Bell, diretor de controle de infecções do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos. Embora Bell recomende que se ensine às crianças a respeito de higiene, que se lave as mãos após usar o banheiro e que se limpe a cozinha cuidadosamente, ele diz que isso é o máximo que as pessoas podem fazer.

Não existe prova científica de que quaisquer dos filtros de ar, sprays nasais ou suportes esterilizadores de cabeça para viajantes ajudem a prevenir infecções.

Mas as evidências não estão atrapalhando o mercado de produtos anti-germes, no qual o estilo está se tornando cada vez mais importante. Em 2001, a Hydro-Photon, de Blue Hill, no Estado de Maine, lançou o SteriPEN, um dispositivo de raios ultra-violeta, portátil mas algo desengonçado, para a desinfecção da água potável consumida por viajantes aventureiros. O artefato tem sido usado não só por indivíduos que acampam em locais remotos, mas também por norte-americanos urbanos que desejam cercar-se de precauções extras.

Segundo Ed Volkwein, presidente da companhia, essas pessoas desejam levar a caneta ultravioleta nos bolsos. Ele espera que as SteriPens, nas cores prateada e preta, estejam disponíveis nas lojas para o período de Natal.

A vida nas cidades grandes se constitui em uma fonte inesgotável de idéias para os que se preocupam com a ameaça dos germes. Emily Beck, a inventora das City Mitts, luvas não derrapantes anti-bacterianas usadas pelos passageiros que precisam se apoiar nas alças e barras dos vagões do metrô, desenvolveu um protótipo de um produto para manter pessoas estranhas e potencialmente infecciosas à distância.

O Excuse Me consiste em uma pequena bandeira amarela montada em uma vareta leve, que é afixada ao quadril do usuário, de forma que ela balance para frente e para trás enquanto a pessoa caminha. Qualquer outro pedestre que se aproxime muito será atingido na face pela vareta ou pela bandeirinha amarela, que trás a inscrição "Excuse Me" ("Me Desculpe").

"O dispositivo cria um espaço de um metro cúbico entre você e uma pessoa que espirra", explicou Beck - que já morou em Nova York - em uma entrevista telefônica da sua casa no Estado de Delaware. "A idéia é fazer com que você não tenha que encostar em ninguém nem falar com nenhuma pessoa em Nova York". Danilo Fonseca

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