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06/11/2006

Tradição fotográfica de Paris se mantém desde o século 19

The New York Times
Richard B. Woodward
Quando se planeja um festival de fotografia, não é uma má idéia realizá-lo em uma localidade fotográfica que possua uma tradição de misturar arte e prazer. O sucesso do Rencontres Internationales de la Photographie in Arles, que teve início em 1970, tem muito a ver com o desejo dos turistas de visitar a Provença no verão, e dirigir por paisagens que ficaram implantadas nos cérebros devido às pinturas de Van Gogh e aos livros de Peter Mayle.

O Paris Photo, que comemora o seu décimo aniversário neste mês, é uma criança quando comparado ao Arles, e um peso pena na era de mega-exposições como a Art Basel e a Basel/Miami. Trazendo principalmente trabalhos de galerias européias, com um grupo seleto de Nova York, mas, somente neste ano, também um outro de Los Angeles, ele dificilmente apresenta tanto material de primeira qualidade como oferece anualmente pela Associação Internacional de Comerciantes de Arte Fotográfica, em Nova York. E as suas cerca de 120 mostras tampouco são páreo para o espaço concedido a trabalhos contemporâneos e antigos pela Fotofest, em Houston.

Mas o Paris Photo possui um fator positivo para as vendas com o qual nenhum dos mais de 20 outros festivais internacionais de fotografia conta. Ele tem Paris.

Nenhuma cidade foi adorada durante tantos anos através de lentes, ou está tão impregnada de história fotográfica. Foi em Paris que Daguerre anunciou o seu processo em 1839 e, no final daquele ano, a Câmara dos Deputados declarou que os segredos do seu negócio deveriam ser divulgados para todos. As idéias do Google Earth a respeito do mapeamento por câmeras que operam nas alturas foram inicialmente sonhadas por cientistas e estrategistas militares franceses na década de 1840. Nadar foi um pioneiro da fotografia com luz artificial, tendo descido às catacumbas ao longo do Sena em 1861 e 1862 para conduzir experiência com flashes à base de pólvora.

O Paris Photo também ocorre abaixo do nível do solo, no mais glamouroso porão do mundo. A noite de abertura no Carrousel du Louvre, sob a pirâmide de vidro I.M. Pei, atrai centenas de jovens parisienses bem vestidos, que falam nos seus telefones celulares enquanto saboreiam champanhe e água mineral. O cenário pode ser um deleite para curiosos ilustres como o designer Karl Lagerfeld, com o seu rabo-de-cavalo e as suas botas de salto alto, que vai de mostra a mostra para examinar as fotos, assim como para milhares de outros visitantes. No ano passado, mais de 40 mil pessoas participaram do evento de quatro dias de duração.

Os milhares de metros quadrados repletos de antiguidades clássicas e de arte européia oficial nos andares superiores do Louvre podem intimidar os partidários de uma arte tão nova como a fotografia. Os anfitriões do Paris Photo, talvez em uma tentativa de fomentar a separação, encorajam os trabalhos contemporâneos. A cada ano, pede-se a um país ou região que promova os seus artistas nativos. A escolhida no ano passado foi a Espanha; neste ano é a vez da Escandinávia.

A BMW dá um prêmio de 12 mil euros ao vencedor escolhido por um júri, entre 35 finalistas, todos eles dedicados a um tema (um dos motivos pelos quais o Paris Photo nunca recebe uma altíssima classificação como evento da arte mundial é a sua queda por determinados temas - neste ano é "Prazer, Destilado" - que poderiam ser confundidos com slogans publicitários).

Os quatro dias dedicados a compras, vendas e premiações no Paris Photo são apenas um elemento das semanas de exibições durante o Mois de la Photo. Entre as atrações deste ano está a brilhante série de interiores de bibliotecas, no Louvre, de Candida Hoefer; retrospectivas por Lee Friedlander, na Galerie Nationale du Jeu de Paume, e por Joel Meyerowitz, no Hotel de Sully; fotografias do pintor nabi Maurice Denis no Musee d'Orsay; e uma história da bastante imitada revista de fotojornalismo "Vu" (1928-1940) na Maison Europeenne de la Photographie. E o evento mais badalado (é necessário aguardar uma hora na fila) é uma homenagem a Robert Doisneau, no Hotel de Ville, até 17 de fevereiro de 2007.

As visões retrospectivas de tantas mostras, no entanto, e a necessidade atual do Estado francês de enfatizar - e subsidiar - as exibições como o Paris Photo apenas ressaltam preocupações, manifestadas por ninguém menos do que o presidente Jacques Chirac, quanto à possibilidade de que a cidade tenha se ossificado, transformando-se em um mausoléu para a arte. O amor cultural mais vasto pela fotografia que tomou conta da
França nas décadas de 1970 e 1980 foi motivado por teóricos literários como Roland Barthes e Jean Baudrillard, e não por uma geração rejuvenescedora de artistas. Praticamente todas as fotos famosas de Paris no século 20 - feitas por Eugene Atget, Brassai, Andre Kertesz, Henri Cartier-Bresson, Robert Capa, Doisneau, Willy Ronis - foram tiradas antes de 1960.

Vagar pelas avenidas e ruelas da cidade significa topar com essas imagens amareladas, embora vários desses locais tenham mudado tanto a ponto de ficarem irreconhecíveis. A casa de Mondrian, fotografada por Kertesz em 1926, foi demolida muito tempo atrás, e ainda que muitos dos locais que ele registrou em fotografias na década de 1920 ainda estejam lá - a escadaria no Montmartre e a Fonte dos Medicis no Jardim de Luxemburgo -, existem detalhes significantes que ficaram diferentes.

As cadeiras bambas de madeira nas Tulherias, por exemplo, foram substituídas por modelos mais fortes de plástico e metal. As localidades pobres e dilapidadas de Paris, registradas por Brassai nas décadas de 1930 e de 1940, foram em grande parte reformadas. Desapareceram também as másculas prostitutas que ele fotografou na Place d'Italie na 13ª arrondissement, que tinham os maxilares largos e os torsos quadrados, e pareciam estar tão dispostas a aplicar uma gravata nos seus fregueses quanto a fornecer-lhes sexo. Tendo deixado de ser um ponto de comércio do pecado, a Place d'Italie está agora pontilhada de restaurantes do tipo fast-food, e conta com um memorial de guerra dedicado a um oficial do exército francês. Até mesmo os cafés, durante uma recente visita noturna, estavam moribundos às 23h.

Poucos dos bairros fotografados por Charles Marville nas décadas de 1850 e 1860, quando o barão Haussmann demoliu os cortiços da velha e suja Paris a fim de abrir espaço para caras avenidas e prédios de apartamentos de luxo, estão como no passado. Marville emoldurou uma série de fotos com postes de lampiões de gás, que eram um objeto novo na paisagem urbana. Os seus vários formatos idiossincráticos moldados em ferro funcionam ao mesmo tempo como notas de uma graça lírica e como âncoras formais para as cenas diurnas do fotógrafo, tão vazias de pedestres quanto uma piazza De Chirico.

O cenário tecnológico também mudou. As pessoas que passam pelas portas do Paris Photo nas noites de abertura não portam mais Leicas dependuradas nos ônibus como atestado de seriedade. As câmeras digitais portáteis e de telefones celulares são os seus meios preferidos para registrar as imagens do mundo.

Não obstante, os curadores de fotografia dos museus norte-americanos parecem inventar razões legítimas para participarem todos os anos do Paris Photo. Os países homenageados geralmente organizam festas elaboradas nas suas embaixadas - a extravagância alemã de 2001 alcançou um status mítico entres os negociantes de artes que lá estavam -, e as livrarias e galerias de fotografias ficam abertas até tarde da noite.

No ano passado, todos foram bem-vindos em uma festa animada por uma banda peruana e dotada de mesas de Beaujolais, na Galerie Vivienne, um prédio de telhado envidraçado, do século 19, que fica atrás do Palais Royal. As fotos à venda muitas vezes dão a impressão de serem objetos secundários no Paris Photo.

Conforme muita gente percebeu, Paris é o trabalho supremo da arte francesa, o melhor exemplo de ideais harmônicos na arquitetura em uma escala que o mundo nunca viu. No decorrer do século 19 e durante a primeira metade do século 20, a cidade proporcionou a experiência urbana por excelência. Foi lá que Baudelaire inventou a modernidade, e Walter Benjamin a pós-modernidade.

Ainda que ela não pareça ser mais aquele lugar no qual uma arte importante emerja regularmente, ou onde ocorrem eventos de impacto avassalador - os seus intelectuais, em vez disso, fingem ser especialistas em coisas que acontecem em outras plagas, especialmente se o que está em jogo envolve l'Amerique hegemonique -, o ritmo lento e deliberado de mudança no núcleo físico da cidade proporciona um consolo. "Após uma ausência de 20 ou 30 anos, ainda dá para reconhecer a cidade", escreveu certa vez Marguerite Duras.

O fato de Paris não parecer precisar de nós para preservar a sua fresca sedução é uma razão para que muitos retornem várias vezes, na esperança de desfrutarem de uma parcela do respeito artístico inspirado pela cidade.

A paisagem de Paris jamais envelhece. Danilo Fonseca

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