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07/11/2006
"Gilmore Girls": série muda de condutor e a direção fica turbulenta

Virginia Heffernan

Algo está errado com "Gilmore Girls". As primeiras notícias eram de que esta querida série tragicômica estava se saindo bem na nova rede "CW" sem sua criadora despótica, Amy Sherman-Palladino, e seu marido e co-capitão, Daniel Palladino. Tais notícias eram falsas. O casal deixou sua própria série no começo do ano, após disputas com a Warner Brothers em torno de contratos, dinheiro, horário, alguma coisa. E sem eles, a série não está indo bem. Ela está estranha.

Será que "Gilmore Girls" perdeu seu coração? Quem dera. Esta série hábil e inteligente agora é só coração - com Lorelai (Lauren Graham) namorando o pai de Rory, Christopher (David Sutcliffe), e Rory (Alexis Bledel) ansiando por Logan (Matt Czuchry), que mora em Londres. Na nova temporada, estas deixas emocionais que costumavam vir da trilha sonora de Sam Phillips, com suas letras lá-lá-lá, agora emanam de tomadas de reação convencionais, grandes cenas de amor de porta da frente, grandes lacunas nos roteiros para os sentimentos e abundância de sinceridade. Como resultado, a série cuja virtude era a fragilidade se tornou quase boba.

Há até mesmo "eu te amo" - uma sentença que Sherman-Palladino, que aprendeu timing com seu pai, um humorista de navio de cruzeiro, e que amadureceu escrevendo para "Roseanne", nunca aceitaria.

A série metralhadora de Sherman-Palladino costumava abominar tomadas de reação e o silêncio de televisão - aqueles espaços sem palavras, preenchidos por closes pensativos, que significam emoção em telenovelas e dramas. Em vez disso, sua "Gilmore Girls" tinha um ritmo nervoso, competitivo: cada conversa era um jogo a ser vencido, não uma dança com condutor determinado.

Os espectadores casuais geralmente se queixavam do diálogo estilizado da série, da dicção afetada e das referências aparentemente inspiradas pelo léxico "Bartlett's and Roget's". Bem, para eles as coisas agora devem estar mais fáceis de digerir. A nova série é dirigida por David Rosenthal, um roteirista de televisão que ficou famoso principalmente por uma peça morbidamente obsessiva de 2001 sobre Heidi Klum, que Bruce Weber, no "The New York Times", chamou de "não apenas ofensiva, mas também incompetente".

Em sua "Gilmour Girls", as pessoas conduzem e seguem: uma pessoa fala e a outra suspira, faz cara feia ou ri. A edição de áudio é especialmente espessa com risadas que sinalizam o que é engraçado. Eu fico imaginando que se Rory e Lorelai, aquelas pessoas extremamente inteligentes e não sentimentais, pudessem assistir a esta série, elas a odiariam.

Ah, mas elas podem assisti-la. Elas estão lá: ou pelo menos algumas Cylons que se parecem com Rory e Lorelai estão lá, na Stars Hollow, exibindo suas qualidades. Bledel ainda parece alternadamente bela e pomposa como Rory, e Graham ainda é a força motriz da série, jogando o mais duro que pode, dando tudo de si para provar que a sensibilidade de uma mulher pode abranger as revistas "The New Yorker" e "Us Weekly". Uma meta modesta - mas não tóxica.

E talvez mesmo Graham esteja aliviada com a desaceleração da série. Há certamente menos palavras para memorizar e executar. A dicção é menos excêntrica. Com a direção mais solta e mais emocionalmente direta, assim como roteiros menos digressivos, Graham pode até mesmo descobrir mais espaço para atuar. Na série de Sherman-Palladino, os roteiros eram tão repletos de diálogos que os atores, mesmo a empreendedora Graham (cujo fato de não ter ganho o Emmy agora é ridículo), às vezes exibiam uma ansiedade ao estilo Mamet, como se apenas o que pudessem fazer é recitar seus diálogos. Bledel, como a Gilmore mais jovem, quase sempre passava tal imagem.

De fato, este era o charme da antiga série: mulheres, basicamente mulheres sem homens, eram compelidas a falar o mais rápido que podiam para manter sua solidão acuada. A virtude do estilo shtick (rotina humorística para chamar atenção) de Sherman-Palladino foi criar personagens que eram novos na televisão. Em suas encarnações mais puras, Lorelai e Rory compartilhavam o desafio da mulher espirituosa: arquitetar uma muralha de palavras tão alta e espessa que nenhum silêncio, nenhum olhar, nenhuma intimação de mortalidade ou mesmo amor seria capaz de penetrar.

E quanto mais elas - especialmente Lorelai - faziam isto temporada após temporada, e quanto mais cediam apenas quando sobrepujadas pelo desespero real (como quando ela e Rory brigaram), mais Sherman-Palladino e Palladino pareciam ter encontrado uma forma de levar à tela a dor da inteligência.

A falta de contato de Lorelai com sua própria vida emocional - sua convicção de que desfalecer, mesmo uma vez, seria perder o direito de seu poder verbal e conseqüentemente de sua razão de ser - apenas se tornou mais extrema à medida que a série avançava. Tal processo era incrivelmente comovente e até mesmo cheio de suspense, como quando uma amiga solteira se torna mais engraçada e mais ciente de si à medida que reprime sua necessidade de amor romântico.

A vida interna de Lorelai - sua solidão desesperada (qualé, será que nenhum destes sujeitos esquecíveis chegará perto de se equiparar a ela?) somada com sua dependência insustentável de sua filha como a única coisa verdadeira em sua existência- fica clara para antigos espectadores. Mas nenhum de seus fãs realmente deseja que ela enfrente tal sofrimento e amoleça. Forçá-la a algum tipo de ajuste de contas psicológico seria sadismo.

Seu humor, seu estilo, suas neuroses, mesmo sua fisicalidade mercurial eram artimanhas que serviam para ignorar verdades existenciais. Se ela estivesse em terapia, ou fosse uma personagem em uma série com um público mais obtuso, talvez ela seria obrigada a abraçar sua fraqueza. Mas como Elizabeth no filme "A Rainha" de Stephen Frears, Lorelai tem uma humanidade que é perfeitamente aparente precisamente devido à sua não disposição de trair seu estoicismo em prol de uma catarse terapêutica.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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