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08/11/2006

Com o desgaste dos laços entre Turquia e UE, o Ocidente é visto como perdedor potencial

The New York Times
Dan Bilefsky

em Istambul, Turquia
A parceria relutante entre a Turquia e a União Européia parece cada vez mais próxima de um rompimento confuso, levando muitos na Europa e EUA a levantarem uma pergunta inconfortável: será que o grande país muçulmano secular voltar-se-á então para o Oriente, em vez do Ocidente? É uma pergunta de conseqüências potencialmente grandes

Reuters 
Analistas políticos na Turquia dizem que rejeição intensificaria a reação anti-européia

"Se a UE der as costas à Turquia, o grande perdedor será o Ocidente", adverte Mehmet Dulger, presidente do comitê de relações exteriores do parlamento do Partido de Justiça e Desenvolvimento. "O Ocidente arriscaria perder uma ponte vital com o mundo islâmico, quando ter essa ponte é mais importante do que nunca."

A suspeita mútua está atingindo um ponto de crise. Na quarta-feira (08/11), a Comissão Européia deve divulgar um relatório reprovando o progresso da Turquia para se conformar aos padrões europeus e assim se qualificar à associação.

Outro prazo mais importante expira no próximo mês, em uma reunião de cúpula européia em que líderes podem decidir suspender as negociações com a Turquia em uma série de problemas, enquanto continuam em outras áreas. Isso é algo que o grupo nunca fez enquanto expandia para seus atuais 25 membros.

Analistas políticos na Turquia dizem que tal rejeição intensificaria a reação anti-européia e promoveria os nacionalistas e islâmicos, alguns dos quais já estão perguntando se o país não deveria rejeitar a Europa antes de ser rejeitado por ela.

"Até recentemente, a Turquia foi capaz de promover políticas pró-Ocidente porque a opinião pública acreditava que era do interesse nacional. Mas com a UE constantemente aumentando as exigências para a Turquia, os turcos estão questionando essa noção", disse Soner Cagaptay, diretor do programa de pesquisa sobre a Turquia no Instituto Washington de Política do Oriente Próximo.

Da parte da Europa, a exasperação é a mesma.

"A paciência com a Turquia está se esgotando", diz Joos Lagendijk, membro do Partido Verde da Holanda e co-diretor de um comitê que lida com questões turcas no Parlamento Europeu. Não é apenas a questão das reformas na Turquia para satisfazer os padrões europeus, mas um temor em admitir um país pobre, de maioria muçulmana, com 70 milhões de habitantes e apenas 3% de seu território geográfico na Europa.

Essas posições podem se endurecer com a divulgação do relatório da Comissão Européia na quarta-feira, que deve repreender a Turquia por seu ritmo lento nas reformas políticas. Uma versão provisória do documento citava a recusa da Turquia em cumprir o prazo neste ano de abrir seus portos para o Chipre. Ele também reclama do tratamento das minorias e de uma lei que limita a liberdade de expressão e torna crime "insultar o espírito turco".

O comissário de expansão da União Européia, Olli Rehn da Finlândia, saudou sinais nesta semana do primeiro-ministro Recep Tayyipe Erdogan de que ia considerar reformar a lei de liberdade de expressão. Mas autoridades européias dizem que a intransigência turca com o Chipre, membro da União, deixa poucas alternativas a não ser considerar uma suspensão parcial das negociações.

Entretanto, mesmo um colapso parcial das negociações teria conseqüências amplas. Cercada pelo Irã, Iraque e Síria, a Turquia secular é um símbolo poderoso de como a democracia, o capitalismo e o islamismo podem co-existir. Em uma época em que a Europa está lutando para integrar seus 12 milhões de muçulmanos, rejeitar a Turquia daria mais combustível para os muçulmanos que argumentam que o Ocidente nunca os aceitará.

Diante da enxurrada de críticas, alguns analistas dizem que a Turquia rejeitada se voltaria para o Oriente Médio, Ásia Central e África do Norte como alternativas à Europa e EUA.

Uma pesquisa de junho, do Centro de Pesquisa Pew, revelou que o apoio turco aos EUA neste ano mergulhou para 12%, de 23% no ano passado. O apoio à União Européia caiu pela metade do que era há dois anos, para 35%.

Cagaptay argumenta que o Partido de Justiça e Desenvolvimento, que tem raízes religiosas, já está reorientando o país na direção do Oriente Médio e criticando os EUA. Como exemplo, ele cita o ataque americano contra insurgentes iraquianos em Fallujah, que foi rotulado de genocídio pelas autoridades turcas.

Ao mesmo tempo, a esnobação contínua da Turquia pela União Européia serviu aos conservadores muçulmanos, e o tempo todo Erdogan "está pregando solidariedade e consciência muçulmana", disse Cagaptay.

No início do conflito israelense no Líbano neste verão, Erdogan criticou Israel por tentar "aniquilar os palestinos" no Líbano. Na primavera, ele convidou autoridades palestinas à capital. Uma recente manifestação em Istambul contra Israel, que tem fortes relações com a Turquia, atraiu cerca de 100.000 pessoas; antes da era Erdogan, poucas centenas teriam comparecido, disse Cagaptay.

A atração do Oriente ficou clara em um dia recente, em uma casa de banho turco monumental do século 16, Cemberlitas Hamam, onde uma dúzia de homens deitados em placas de mármore gigantes eram socados por massagistas barrigudos, em uma tradição otomana com raízes no Oriente.

Kadir Uzun, 21, engenheiro turco que mora na Alemanha, disse que a postura dura da União Européia levou os turcos a questionarem se o mundo árabe não seria mais receptivo. "Muitos turcos acham que estamos apenas perdendo tempo com a UE, que nunca aceitará um país muçulmano", disse ele. "Somos ocidentais demais para nos voltar para o Irã, mas também somos orientais demais para a UE."

Muitos analistas, autoridades e executivos turcos argumentam que olhar para o Oriente não é uma opção. Por um motivo: o Oriente vê a Turquia com muita suspeita.

"Não queremos nos tornar grandes no Oriente Médio", diz Sinan Ulgen, ex-diplomata turco em Trípoli. "Ao mesmo tempo, os países que foram dominados pelo Império Otomano -Egito, Jordânia, Síria- relutam em ver a Turquia assumir um papel de liderança na região."

Além disso, o secularismo está estabelecido em sua constituição, e a Turquia é inextricavelmente ligada ao Ocidente, econômica e estrategicamente, incluindo um acordo comercial com a União Européia e participação na Otan. Para esses analistas e executivos, é menos imperativo entrar para a Europa do que é ancorar a Turquia em um processo de adesão que assegure sua reforma política e econômica.

Mas há sinais evidentes de que o islã está aumentando seu domínio na vida diária. Membros do partido de Erdogan estabeleceram zonas onde o álcool é proibido, de acordo com a crença islâmica, apesar de beber ser aceito há muito na sociedade turca. Secularistas viram com alarme propostas de parques só para mulheres em Istambul e a introdução de livros-texto recomendados pelo governo com temas islâmicos, inclusive uma personagem na história de Hans Christian Andersen que usa lenço na cabeça.

Em vez de escolher entre o Oriente Médio ou o Ocidente, a Turquia ferida pode se voltar para gigantes emergentes como a Rússia, Índia e China, em busca de aliados. A Rússia expressou interesse em usar a Turquia como ponto de distribuição de energia para o Oriente Médio e o Sul do Mediterrâneo.

Mas Egemen Bagis, alto assessor de Erdogan, rebate que a Turquia continuará atrelada à Europa, com ou sem a União Européia.

"Se as negociações com a UE fracassarem", disse ele, "podemos ser uma democracia próspera voltada para o Ocidente fora da UE. A Noruega fez isso, então por que não podemos? Não estamos fazendo reformas para a UE, mas para o povo turco." Deborah Weinberg

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