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09/11/2006

Grupos venezuelanos recebem ajuda dos EUA em meio a acusações de intromissão

The New York Times
Simon Romero*

em Caracas, Venezuela
Desde que o presidente Hugo Chávez voltou ao poder depois do breve golpe em 2002, os EUA enviaram milhões de dólares para organizações venezuelanas, muitas delas críticas do governo venezuelano. Essa ajuda se tornou uma importante questão nas eleições presidenciais do próximo mês, em meio a acusações de interferência americana no sistema político interno.

"Washington acha que pode comprar a mudança de regime na Venezuela", disse Carlos Escarra, advogado constitucional e importante congressista na Assembléia Nacional que defende regulamentos mais rígidos ao financiamento americano de grupos venezuelanos. "Essa é uma afronta à nossa soberania como nação que não é dócil aos interesses de Washington."

Escarra refletia comentários recentes de outras autoridades e de Chávez, que na maior parte das pesquisas tem uma liderança de dois dígitos sobre seu principal adversário, Manuel Rosales, governador do Estado de Zulia. Chávez raramente refere-se a Rosales pelo nome, e descreve sua campanha como uma escolha entre seu governo e o governo Bush.

Diplomatas americanos aqui em geral evitaram comentar as eleições, que estão marcadas para o dia 3 de dezembro, um contraste ao papel ativo que as autoridades americanas tiveram na Nicarágua antes da eleição de Daniel Ortega como presidente nesta semana. A atitude contida se explica pela exploração das autoridades locais de qualquer exemplo dos esforços americanos para combater a influência de Chávez como evidência do que eles vêem como um confronto crescente com Washington.

Por exemplo, o vice-presidente Jose Vicente Rangel organizou um evento nesta semana para divulgar "Bush Vs. Chávez: Washington's War Against Venezuela" (Bush contra Chávez: a guerra de Washington contra a Venezuela), um livro de Eva Golinger, advogada americana que se tornou famosa na Venezuela por detalhar o financiamento americano dos grupos no país.

A Agência de Desenvolvimento Internacional dos EUA distribuiu cerca de US$ 25 milhões (em torno de R$ 55 milhões) para várias organizações venezuelanas nos últimos cinco dias, de acordo com autoridades envolvidas nos projetos. Os fundos foram canalizados para grupos venezuelanos por entidades privadas e públicas dos EUA que abriram escritórios em Caracas.

Entre essas, a Development Alternatives Inc., uma firma de Bethesda que trabalha junto com o Departamento de Estado para distribuir fundos em torno do mundo, além do Instituto Republicano Internacional e do Instituto Democrata Internacional, dois grupos de Washington que forneceram treinamento a líderes políticos emergentes na Venezuela.

Documentos obtidos do governo americano sob o Ato de Liberdade de Informação citam numerosas bolsas concedidas pelos EUA nos últimos dois anos a grupos com atividades críticas ao governo de Chávez. A Agência de Desenvolvimento Internacional não quis divulgar os nomes de muitos dos beneficiados, dizendo que a revelação de suas identidades poderia colocá-los em risco de retaliação política.

Todos os fundos foram canalizados pela Development Alternatives, que trabalhou em nome do Escritório de Iniciativas de Transição, um braço pouco conhecido da Agência de Desenvolvimento Internacional que começou a operar na Venezuela depois do golpe de abril de 2002.

O escritório, que foi criado nos anos 90 para promover a mudança democrática na ex-União Soviética, normalmente financia atividades em países afligidos por guerras como Libéria, Nepal e Sri Lanka. Suas únicas operações na América Latina são na Venezuela e na Bolívia, dois países que desenvolveram uma aliança baseada em parte na desconfiança mútua dos EUA.

Chávez repetidamente critica as atividades do governo americano, misturando seus ataques com alegações não substanciadas de que o governo Bush está financiando operações de inteligência secretas para fortalecer a campanha de seu adversário. Essas críticas ressoaram com a base política do presidente, cujo sentimento anti-americano prosperou desde que Chávez foi brevemente removido do poder, em um golpe em 2002 com a aprovação tácita do governo Bush.

Autoridades da Agência de Desenvolvimento Internacional não mantiveram em segredo a identidade de todos que receberam verbas na Venezuela, para salientar que parte da ajuda foi para grupos de caridade na forma de equipamentos de beisebol e material para telhados. Uma verba de US$ 15.728 (aproximadamente R$ 34.600) foi doada para um programa de nutrição do governo municipal de Baruta, uma área de Caracas cujo prefeito, Henrique Capriles Radonski, é crítico aberto de Chávez.

Autoridades americanas aqui e em Washington dizem que o objetivo da assistência é unir tanto adversários quanto defensores de Chávez para discutirem formas de impedir a erosão das liberdades democráticas.

"As atividades dos EUA, como publicamente discutido em inúmeras ocasiões, se concentram em fortalecer a sociedade civil na Venezuela, que é um elemento crítico para qualquer democracia saudável", declarou David Snider, porta-voz da agência de desenvolvimento internacional em Washington. "Essas atividades não partidárias não são diferentes das atividades de assistência americana em muitos outros países no mundo", acrescentou.

Mas algumas doações foram direcionadas para organizações cujos objetivos declarados pareciam ser procurar fraquezas no governo Chávez. Uma bolsa de US$ 33.304 (aproximadamente R$ 73.270) em março de 2005, chamada "Certo e Errado na Distribuição de Terra", exigia que o beneficiado não citado investigasse as políticas agrícolas em áreas onde o governo federal vinha fazendo desapropriações.

Outras bolsas pareciam ter o objetivo de apoiar para rivais potenciais de Chávez. Uma verba de US$ 47.459 (em torno de R$ 104.400), por exemplo, foi doada em julho de 2005 a uma organização cujo objetivo era se reunir com outras para construir uma "campanha de liderança democrática".

As bolsas da agência na Venezuela geraram preocupações entre alguns analistas políticos que vêem paralelos nos esforços de Washington para desestabilizar o governo socialista de Salvador Allende no Chile, no início dos anos 70, ou tentativas de influenciar o sistema político da Nicarágua nos anos 80.

"Eu não me sentiria confortável se o governo chinês fizesse alguma coisa assim nos EUA", disse Jeremy Bigwood, analista de política internacional do Centro de Política Econômica e Pesquisa em Washington. Bigwood está processando a Agência de Desenvolvimento Internacional para que revele os nomes de seus beneficiados. Ele disse que, ao não fazê-lo, suas atividades deixavam de ser "um serviço civil e passavam a ser um serviço clandestino".

Enquanto isso, a reação ao financiamento americano vem crescendo. Promotores entraram com ações de conspiração contra o Sumate, um grupo de educação do eleitor, depois que este recebeu US$ 31.000 (cerca de R$ 68.000) do Fundo Nacional para a Democracia, outra entidade patrocinada pelo governo americano que distribui verbas para grupos na Venezuela.

Um projeto de lei também está chegando à Assembléia Nacional que propõe o regulamento do financiamento internacional de organizações não governamentais. A análise do projeto, que foi criticado por grupos anticorrupção como Transparência Internacional, foi adiada para depois das eleições.

Alguns analistas estão chamando a reação do governo local ao financiamento americano de hipócrita, enquanto a Venezuela aumenta sua assistência externa em uma tentativa de influenciar a direção política de países como Bolívia e Nicarágua.

"Eles pensam que, se é pela revolução, então por definição é correto", disse Aníbal Romero, professor de ciências políticas na Universidade Simon Bolívar. "Mas se o dinheiro vem de Washington, então é definitivamente errado."

*Colaborou Jens Erik Gould Deborah Weinberg

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