UOL Notícias Internacional
 

11/11/2006

A volta de Ortega: caminhando cuidadosamente no rescaldo da Guerra Fria

The New York Times
James C. McKinley Jr.

em Manágua, Nicarágua
Para grande parte do mundo, a Guerra Fria acabou quando o Muro de Berlim caiu. Mas não na Bacia do Caribe.

Aqui, a teimosia de antigos combatentes em Washington e governos esquerdistas de igual tenacidade em Cuba e na Venezuela mantiveram uma Guerra Fria em miniatura em prosseguimento. Assim como há 20 anos atrás, a Nicarágua agora se vê no meio do conflito com a eleição nesta semana de Daniel Ortega, o ex-líder rebelde marxista, como seu novo presidente.

Ortega enfrenta um ato de equilibrismo que nenhum político invejaria, tanto dentro do país quando no cenário mundial. Por um lado, para agradar seus simpatizantes, ele deve cumprir as promessas de "erradicar a pobreza", coibir o "capitalismo selvagem" e permanecer amistoso com seus aliados esquerdistas, Fidel Castro de Cuba e Hugo Chávez da Venezuela. A Venezuela, em particular, poderia ser uma fonte de petróleo barato e dinheiro para programas sociais.

Por outro lado, ele não pode correr o risco de perder mais de US$ 50 milhões por ano em ajuda americana ou crédito do Fundo Monetário Internacional. A Nicarágua, um dos países mais pobres do continente, também não pode descartar o recém-aprovado acordo de livre comércio entre os países centro-americanos e os Estados Unidos. Para sobreviver economicamente, este país de cerca de 5,6 milhões de pessoas precisa continuar exportando têxteis e frutas para os Estados Unidos e recebendo o dinheiro enviado pelos nicaraguenses no norte.

"A Nicarágua é basicamente um 'walfare State' (Estado de bem-estar social) que depende de recursos externos para sobreviver, remessas de dinheiro e ajuda estrangeira", disse um diplomata americano, falando sob a condição de anonimato.

Além disso, Ortega venceu com apenas 38% dos votos e a Assembléia Nacional está dividida entre quatro partidos. Cada passo que der envolverá negociação e compromisso com legisladores conservadores, que estão desesperados para não enfurecer o governo Bush.

"O problema diante dele torna quase impossível realizar uma presidência bem-sucedida", disse Larry Birns, o diretor do Conselho para Assuntos Hemisféricos, em Washington. "Ele não tem flechas em sua aljava."

A posição precária de Ortega pode explicar os nuances cuidadosos em seus recentes discursos. Ele concorreu com a promessa vaga e cor-de-rosa de "empregos, paz e reconciliação", mal atacou os Estados Unidos, evitou a retórica marxista e manteve na manga sua recém-encontrada crença religiosa. Atualmente ele fala mais sobre Deus no palanque do que sobre o proletariado.

Por ora, Ortega está caminhando com cuidado e falando em tons doces. "Hoje, mas do que nunca, os sandinistas precisam ser pacientes", ele disse para seus simpatizantes extáticos do Partido Sandinista após sua vitória nesta semana. "Nós não vamos cair em provocações nem insultar ninguém."

Ainda assim, de vez em quando a velha chama revolucionária se acende nele. Ele chamou o presidente Bush de "o Reagan desta época" e afirmou que o "ianque Reagan impossibilitava a paz" e "queria trazer morte e destruição para a região". Às vezes ele critica o caos que o acordo de livre comércio trouxe às pequenas fazendas.

Desde a eleição, ele não tem medido esforços para acalmar empresários, assegurando a investidores estrangeiros na quarta-feira que ele protegerá direitos de propriedade em troca de ajuda no combate à pobreza. "Ninguém permitirá a tomada de propriedades grandes ou pequenas", ele disse. Ele também buscou diálogo com seus oponentes políticos, dizendo que não tocará nas reformas que limitam o poder do presidente.

Mas em seu discurso de vitória mais tarde no mesmo dia, Ortega deixou claro que não será lacaio de Washington. Ele agradeceu a seus "irmãos" esquerdistas, Castro e Chávez, então atacou Washington, dizendo que não foram os sandinistas que romperam relações após a revolução de 1979. "Foi o contrário", ele disse.

Ele também disse que se esforçará para levar o país, que atualmente vende mais de 60% de suas exportações para os Estados Unidos, a se juntar à associação comercial antiamericana que Chávez deseja organizar. E disse que buscará acordos comerciais com a Europa e a América do Sul. "Nós temos que saber como fazer nossa economia crescer sem depender de apenas um mercado", ele disse.

Até o momento, o governo Bush tem adotado uma postura de aguardar para ver diante do que parece ser dois Ortegas diferentes. Um porta-voz do Departamento de Estado, Gonzalo Gallegos, disse que a cooperação americana com Ortega seria "baseada em sua ação em apoio ao futuro democrático da Nicarágua".

Enquanto isso, Castro e Chávez estão usando a vitória de Ortega para alimentar suas próprias máquinas de propaganda. Eles agem como se já estivesse decidido que Ortega formará uma aliança com eles.

Em Havana, Castro emitiu uma declaração dizendo que "enche nosso povo de orgulho, ao mesmo tempo enche o governo terrorista e genocida dos Estados Unidos de opróbrio". Em Caracas, Chávez alegou que ele e Ortega estariam "unidos como nunca" na construção de um futuro socialista.

O resultado deste cabo-de-guerra dependerá de que passos Washington dará, disseram vários especialistas na região. O governo Bush conta com muitos altos funcionários que estiveram envolvidos em um grau ou outro na guerra secreta contra os sandinistas e Ortega nos anos 80, entre eles Robert Gates, que Bush acabou de indicar como novo secretário de Defesa. A família Bush, notadamente o governador da Flórida, Jeb Bush, também apoiou fortemente os "contras", os guerrilheiros apoiados pelos Estados Unidos que tentaram derrubar o governo sandinista.

Assim, apesar da Nicarágua estar longe de ser uma ameaça à segurança nacional, as lembranças dos anos 80 podem influenciar as políticas do governo Bush, dizem alguns especialistas. "Uma das grandes perguntas é, independente do que Ortega faça, que abordagem adotará os Estados Unidos?" disse Geoff Thale, do Escritório em Washington para América Latina, um grupo independente de pesquisa. "Há uma grande sensação de que as pessoas no governo são incapazes de superar a Nicarágua dos anos 80."

As pessoas que conhecem Ortega temem que seu temperamento atrapalhará caso Washington tente pressioná-lo. Ele é teimoso e pode ser temerário, eles disseram.

"A pior coisa que poderia acontecer é Daniel Ortega estender sua mão para Bush e Bush recusá-la", disse Sergio Ramirez, que foi vice-presidente de Ortega no final dos anos 80. "O que aconteceria é que ele diria: 'Tudo bem, eu vou com Chávez'." George El Khouri Andolfato

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