UOL Notícias Internacional
 

11/11/2006

Carreira de xeque dos Emirados alimenta os sonhos das jovens

The New York Times
Hassan M. Fattah

em Dubai, Emirados Árabes
Para a xeque Lubna Al-Qassimi, os momentos mais memoráveis em geral acontecem nos shoppings e nas reuniões públicas desta nação em rápido crescimento, não nos salões de poder que atravessa todos os dias. Eles acontecem quando as jovens pedem para tirar uma foto com ela, contam seus sonhos ou, melhor ainda, pedem conselhos de carreira.

Durante esses momentos, ela diz que entende o quanto as coisas mudaram para as mulheres desde que começou a trabalhar, mas também vê o quanto ainda têm que avançar.

"Eu tive que provar que resistência e desempenho não têm nada a ver com o sexo", disse ela a um grupo de jovens empresárias recentemente. "Somos nós que em geral nos desencorajamos, mesmo antes de outra pessoa nos desestimular."

Depois de décadas vencendo barreiras em uma região onde as mulheres tradicionalmente foram mantidas fora da esfera pública, a xeque Lubna agora é uma das mulheres mais influentes do país. Ela é a primeira mulher a ser ministra, e mais, ela é ministra da economia e planejamento, uma posição particularmente importante em uma nação que é grande produtora de petróleo, depende tão fortemente de investimentos estrangeiros e cuja economia continua crescendo.

Sua rotina envolve viajar entre as capitais do mundo para assinar acordos comerciais, ou entre cidades dos Emirados para angariar apoio para sua política ou dar apoio a alguma causa. Ela fomentou a desregulamentação do comércio internacional enquanto atendia a pedidos de maior supervisão sobre o setor de investimento do país e promovia o investimento estrangeiro nos Emirados Árabes Unidos.

Mas nesse tempo todo, manteve a consciência de seu papel podando as restrições que as mulheres enfrentam nesta região. "Todos os dias e todas as noites, eu penso como as meninas precisam mudar", disse enfaticamente a xeque Lubna. "No final, estou nisso por elas."

Os Emirados Árabes Unidos têm uma das economias que crescem mais rápido no Oriente Médio e são também uma das sociedades mais abertas do Golfo Persa. As mulheres aqui têm várias liberdades, são estimuladas a trabalhar e a tomar parte da vida pública. Mas esta ainda é uma sociedade tradicional, onde o casamento e a família ainda são centrais na vida de uma mulher, onde a lei favorece os homens em questões de família e onde muitas mulheres optam por empregos seguros no setor público ou simplesmente escolhem ficar em casa.

Mas com o mundo exterior invadindo os lares árabes e o índice de divórcios subindo, as mulheres devem estar mais bem preparadas para cuidar de si mesmas do que a geração de suas mães, argumentam Lubna e outras mulheres.

Como mulher que desafiou todas as regras da sociedade nos anos 70, progredindo na carreira de engenharia de computação, assumindo um cargo de diretora executiva e agora de ministra do governo, ela procurou provar às mulheres aqui que elas também devem começar a ter maior papel na vida pública.

Sua família governa o emirado de Sharjah, ao lado de Dubai; seu tio é o governador. Como parte da realeza, ela enfrentou pressões ainda maiores. Além disso, ela nunca de fato precisou trabalhar e poderia ter optado por um emprego discreto em um papel cerimonial ou burocrático.

Ela escolheu a dura estrada, entretanto. Quando outras mulheres ficaram em casa, no final dos anos 70, a xeque Lubna partiu para a Califórnia para estudar engenharia de computação, tornando-se uma das primeiras mulheres dos Emirados a viajar ao exterior para estudar.

"Ela sempre foi uma mulher no mundo dos homens, e talvez algumas dessas coisas não parecessem corretas na época", disse Farouk El-Baz, diretor do Centro de Medição Remota da Universidade de Boston que é confidente da xeque e amigo da família. "Ela não aceita um 'não' como resposta. Ela pensa em cada desafio a fundo e começa a atacá-lo."

Quando voltou, em 1981, ela assumiu o cargo de programadora na firma de software indiana Datamation. Era a única mulher em uma equipe de programadores indianos -algo virtualmente impensável na época. Ela trocou essa experiência por um emprego na Autoridade Portuária de Dubai, onde ela subiu para gerente de tecnologia de informação, desenvolvendo um sistema de documentação que ajudou a reduzir a burocracia dos navios de uma hora para 10 minutos. Isso levou à criação de um serviço on-line para dar apoio às ordens de compra para companhias nas zonas de comércio livre de Dubai, e de um site de leilões empresa-à-empresa, Tejari, às vésperas do colapso das ponto.com. Essa companhia sobreviveu e hoje faz negócios por todo o Oriente Médio.

Mas quando Lubna recebeu um telefonema, no final de 2004, perguntando se gostaria de ser nomeada ministra, sua reação foi surpreendentemente ambivalente, disse. Ela vinha planejando se inscrever em um programa de PhD. no Instituto de Tecnologia de Massachusetts e o cargo de alto estresse ia adiar seus estudos, disse ela.

"Quando recebi o telefonema, pensei: 'Não quero fazer isso. Quero ir para o MIT'", disse ela. "Mas um pedido da pátria nunca vai embora. Seria a primeira vez que uma mulher assumiria uma posição de poder no gabinete. Eu era um agente de mudança, mas dessa forma seria um exemplo."

Nesta primavera, quando congressistas americanos brigaram contra a venda de concessões de importantes portos americanos para a DP World, firma na qual a xeque trabalhara, ela foi a Washington sem comitiva e se tornou um dos rostos mais públicos dos Emirados Árabes Unidos.

Quando saiu para defender os Emirados, as pessoas em casa, especialmente as jovens que buscam quebrar o molde tradicional, viram uma mensagem diferente: é hora de enfrentar o desafio.

"Não fomos compreendidos porque ninguém sabia nada sobre nós", disse Lubna sobre a guerra política que emergiu do acordo portuário. "Mas temos a responsabilidade de explicar quem somos e quem queremos ser".

Ela conquistou muitos americanos com seu charme simples, sua forma coloquial ao procurar corrigir estereótipos e enganos sobre o mundo árabe e levar os Emirados para o palco mundial.

Quando uma empresária americana perguntou se as mulheres podem trabalhar nos Emirados, respondeu diretamente: "Eu era diretora de uma empresa" e continuou a conversa.

Quando outra perguntou se as mulheres podem dirigir em seu país, ela contou que passou anos viajando entre sua casa em Sharjah e Dubai, mas admitiu irônicamente que estava feliz de hoje ter um motorista.

"As mulheres sempre me disseram: 'Você é uma xeque, por que está fazendo tudo isso?'" diz ela com um grau de espanto. "Mas quando você sai do molde, pode romper todos os tabus. Eu não tinha nenhuma referência, mas tinha uma crença cega de que este era o caminho certo." Deborah Weinberg

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