UOL Notícias Internacional
 

11/11/2006

Hamas pode renunciar para que ajuda humanitária chegue a palestinos

The New York Times
Ian Fisher*

na Cidade de Gaza
O Hamas se comprometeu na sexta-feira (10/11) a encerrar o seu governo que já dura oito meses caso isso implique na retomada da assistência internacional que foi cancelada depois que a facção venceu as eleições nacionais no início deste ano.

Em um discurso sagaz e dramático, o primeiro-ministro do Hamas, Ismail Haniyah, disse que provavelmente renunciará nas próximas "duas ou três semanas" a fim de abrir espaço para um governo de união nacional que seja mais aceitável para os doadores internacionais do que o Hamas, a organização responsável pelos ataques mortíferos contra Israel.

"Quando vejo, de um lado, que estamos sitiados, e que, de outro, eu sou o primeiro-ministro, a minha tendência é optar pelo fim do sítio e possibilitar que acabemos com o sofrimento do povo palestino", disse Haniyah, 43, ex-professor e ex-sindicalista, dirigindo-se aos fiéis que participavam de uma cerimônia religiosa realizada aqui na sexta-feira.

Essa foi uma admissão pública de que o Hamas se mostrou incapaz de administrar a Autoridade Palestina do jeito que bem desejava, face aos cortes de verbas americanas e israelenses, e de que Haniyah e o seu governo serão em breve substituídos por uma governo de "união", composto de tecnocratas, governo este que está atualmente sendo negociado com o presidente palestino Mahmoud Abbas.

Hamas se recusou a atender às três exigências feitas pela comunidade
internacional: o reconhecimento do direito de Israel à existência, a renúncia à violência e a aceitação dos acordos prévios palestino-israelenses que implicam em uma solução baseada em dois Estados. Por sua vez, Israel reteve mais de US$ 50 milhões por mês em impostos e tarifas alfandegárias recolhidos para os palestinos, e os Estados Unidos e a Europa cancelaram os auxílios diretos à Autoridade Palestina.

As tentativas do Hamas de obter dinheiro suficiente dos patrocinadores árabes, especialmente tendo-se em vista a relutância dos bancos em desafiar os norte-americanos, não foram suficientes para garantir o pagamento dos salários de milhares de funcionários que dependem da Autoridade Palestina.

A confirmação pública de Haniyah não foi uma surpresa completa para a sua platéia, mas marcou um momento público simbólico aqui: um reconhecimento das dificuldades enfrentadas pelo Hamas, internamente e junto ao mundo externo, enquanto o grupo tenta se deslocar do campo da luta para o do governo.

Por mais que o discurso tenha gerado aclamações na mesquita, além de elogios pelo seu aparente sacrifício, não se sabe se as intenções declaradas por Haniyah poderão fazer com que o fluxo de ajuda aos palestinos seja retomado.

Por um lado, Haniyah sugeriu que qualquer novo governo de unidade nacional seria capaz de satisfazer às demandas de Israel e de outros doadores, o que inclui o reconhecimento do direito de Israel à existência.

Ao mesmo tempo, Haniyah afirmou que o Hamas continuaria sendo um protagonista fundamental que jamais abrirá mão dos seus princípios. Isso faz com que se questione se um novo governo seria mais palatável do que o atual para os doadores. "Não abriremos mão dos nossos princípios", disse ele aos fiéis. "Seguiremos em frente com um governo que não fará concessões políticas".

O Hamas, por exemplo, se recusou a reconhecer o direito de Israel à existência, mas não se sabe se qualquer novo governo, do qual vários funcionários seriam nomeados pelo Hamas, também agiria da mesma forma, pelo menos de uma forma explícita".

No mínimo, o discurso pareceu fortalecer a imagem populista do Hamas, em um momento no qual o apoio ao grupo vem diminuindo em meio a dificuldades financeiras e a um banho de sangue ainda intenso, ilustrado pelas mortes de 19 pessoas aqui na última quarta-feira, vítimas de disparos da artilharia israelense (18 pessoas foram mortas no incidente inicial, e uma outra, Basim Kafarna, 39, morreu na sexta-feira, devido aos sofrimentos que sofreu).

"Isso é algo de novo", afirmou Mohammad Abu Sweeileh, 30, um confeiteiro, com uma expressão alegre no meio da multidão, na mesquita na qual Haniyah discursou. "No mundo árabe, os líderes não abrem mão de suas posições".

Durante meses o Hamas tem negociado com a Fatah, o partido liderado por Abbas, a fim de formarem um governo de união nacional composto de profissionais e tecnocratas que não estejam imediatamente vinculados a nenhum partido. Nos últimos dias, tais conversações pareceram ganhar impulso, e o anúncio de Haniyah deu a impressão de ser um sinal concreto de esperança de que o grupo possa ter sucesso.

Haniyah declarou que espera mais conversações na próxima semana e afirmou: "Dentro de duas ou três semanas, anunciaremos notícias auspiciosas".

Em tese, tal governo seria capaz de recuperar o auxílio internacional que garantia à Autoridade Palestina cerca de metade dos US$ 165 milhões dos quais ela necessita mensalmente para o pagamento de salários e de despesas operacionais. O dinheiro coletado pelos israelenses em nome dos palestinos representa parte do restante. Mesmo assim, o governo palestino já vinha funcionando em meio a um déficit.

Mas, teoria à parte, as três exigências implicam em problemas distintos para o Hamas, e os especialistas não estão certos de que o grupo seja capaz de se manter fiel ao seu objetivo declarado de criar um Estado que incluísse toda a Palestina histórica (incluindo Israel), e, ao mesmo tempo, satisfazer aos doadores.

O Hamas ofereceu uma trégua de longo prazo com Israel na região delineada pelas fronteiras anteriores a 1967, mas não repudiou os seus objetivos de longo prazo.

As autoridades israelenses têm afirmado que não entregarão o dinheiro que recolhem a um governo palestino que não atenda às exigências.

"Qualquer governo palestino precisa atender a essas três condições, não importando quem ocupe esse governo ou quais sejam os nomes dos seus integrantes", afirmou Tzipi Livni, o ministro israelense das Relações Exteriores, em uma entrevista ao "Jerusalem Post" publicada na sexta-feira.

Mesmo com um novo governo, parece claro que o Hamas pretende continuar sendo a principal força política: ele controla a maioria no parlamento, e todos os candidatos à sucessão de Haniyah possuem profundas conexões com o grupo.

Mustafah Sawwaf, jornalista palestino e analista profundamente familiarizado com o Hamas, disse que a intenção de continuar sendo o principal protagonista significa que o Hamas jamais aceitará as três exigências para a retomada do auxílio internacional. "Enquanto o Hamas estiver no controle, ele não aceitará tais exigências", garantiu Sawwaf.

Mas um outro especialista em política, Khaled Abdel Shafi, disse que, tendo em vista os problemas econômicos e os temores quanto a mais derramamentos de sangue, o Hamas provavelmente não teria escolha, a não ser encontrar uma maneira de aceitar essas exigências. O povo está cansado da situação atual", disse ele. "A população está bastante preocupada".

Ele disse acreditar que a maioria dos apoiadores do Hamas poderia aceitar as exigências para a retomada dos auxílios , caso isso não fosse declarado diretamente pelos líderes do Hamas e se, de fato, o dinheiro voltasse a fluir. "Somente o núcleo duro do Hamas, que não é tão significativo assim em termos numéricos, resiste fortemente ao reconhecimento de Israel", disse ele.

*Taghreed El-Khodary contribui da Faixa de Gaza para esta matéria. Danilo Fonseca

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