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12/11/2006

Imigração, uma história de amor

The New York Times
Mireya Navarro
Quando Kenneth Harrell Jr., um ministro das Assembléias de Deus na Carolina do Sul, convidou Gricelda Molina para participar de seu ministério em espanhol em 2000, não demorou muito para perceber que havia encontrado a mulher que esperava havia tempos. Ao telefone e durante passeios românticos eles conversaram sobre seus objetivos, seu comprometimento com Deus e quantos filhos gostariam de ter. Seis meses passaram voando e ele a pediu em casamento.

"Ela é uma mulher bonita com um espírito bonito, muito delicada, muito sincera", disse Harrell. Mas Molina, uma operária de fábrica, era uma imigrante de Honduras que havia entrado duas vezes nos EUA sem documentos, tendo sido deportada uma vez. Harrell, o pastor da Assembléia de Deus do Aeroporto de West Columbia, disse que não estava muito preocupado. "Qualquer coisa que acontecesse, percorreríamos o caminho juntos", ele disse.

Harrell e Molina, ambos de 35 anos, casaram-se em 2001, em uma grande cerimônia com parentes dos dois lados e abençoada por pastores em inglês e espanhol. Mas eles não vivem mais juntos. Não por terem se divorciado, mas porque Gricelda Harrell, hoje mãe de dois filhos e grávida de quatro meses do terceiro, foi deportada. Ela se inscreveu para obter a residência legal, o "green card", tendo seu marido como "patrocinador", disse Harrell, mas foi mandada de volta para Honduras há 20 meses por causa de suas entradas ilegais, e lhe disseram que teria de esperar dez anos para tentar novamente.

"Os ilegais estão passando pela fronteira numa enxurrada", disse Harrell, que visitou sua família cinco vezes. "Nós os conhecemos, nos apaixonamos e nos casamos. E depois o governo destrói nossa família e não se responsabiliza por tê-los deixado entrar."

Apaixonar-se e casar-se nem sempre é fácil, mas uma dificuldade especial pode ocorrer quando um dos parceiros está nos EUA ilegalmente. A incerteza dessa união só foi reforçada pelo debate nacional sobre a imigração ilegal.

Não se sabe se a nova liderança democrata no Congresso ajudará pessoas como os Harrell.

É difícil calcular quantas pessoas se encontram na situação de Kenneth Harrell, mas com o reforço do policiamento nos últimos anos as deportações aumentaram, assim como os temores de perder uma pessoa querida dessa maneira. Houve 168.310 deportações em 2005, contra 108 mil em 2000, segundo autoridades da imigração.

E isso é somente um dos efeitos colaterais do amor entre duas pessoas com posições desiguais na sociedade, dizem os advogados de imigração. Muitos relacionamentos sofrem sob o peso financeiro de contratar advogados para o que podem ser anos de visitas a órgãos do governo, fotografias, registros de impostos e outras evidências de um casamento legítimo em busca da legalização.

E enquanto os casos de imigrantes que fingem o amor para obter a residência são minoritários, segundo as autoridades, alguns casais sentem-se pressionados para se casar antes de estar preparados, esperando que o casamento evite a deportação da pessoa amada.

Raul Godinez, advogado de imigração em Los Angeles, disse: "Eu pergunto às pessoas: 'Quanto você ama essa pessoa? Porque a imigração vai testar seu casamento. Se você não acha que vai ser um casamento forte, é melhor não ir em frente'".

Muitas pessoas talvez ainda acreditem que é fácil obter a legalização através do casamento, por causa de reportagens periódicas sobre casamentos fraudulentos. Em uma investigação de três anos chamada Operação Jogo dos Recém-Casados, agentes da imigração e da alfândega apanharam mais de 40 suspeitos na Califórnia por terem supostamente orquestrado casamentos fraudulentos entre centenas de chineses ou vietnamitas e cidadãos americanos. Mas essa fraude ocorre apenas em uma minoria dos casos, segundo as autoridades federais.

Na realidade, segundo advogados, casar-se com um cidadão americano não dá automaticamente o direito de o cônjuge obter a residência. É somente o primeiro passo em uma longa jornada burocrática. Os advogados notaram que as mudanças na lei nos últimos cinco anos tornaram o caminho da legalização cada vez mais difícil, algo que só vale a pena em caso de verdadeiro amor.

Outras vias incluem o patrocínio de parentes próximos ou de um empregador.

Os Harrell disseram que não tinham idéia de como seria difícil, e ficaram chocados quando o pedido de residência permanente de Gricelda foi recusado, dando-lhes apenas 12 dias para preparar sua partida. Nesse tempo, disse o marido, eles decidiram que as crianças, hoje com 4 e 3 anos, iriam com ela.

Então Harrell tirou passaportes para eles e a igreja fez um serviço de despedida.

"Foi muito traumático", ele disse. "O mundo todo estava desmoronando à nossa volta."

Gricelda e seus filhos vivem com os pais dela em Yoro, no centro-norte de Honduras, e ela disse que o mais velho pergunta constantemente pelo pai,

suplicando: "Vamos para a casa do papai". Ela também teve de superar sua própria expulsão. "Eu sei que ele tem muito trabalho lá", disse por telefone. "Ele precisa de sua mulher."

Mas mesmo nas melhores circunstâncias, quando um imigrante entra no país legalmente, os casais podem ter de reorganizar suas vidas e adiar seus sonhos.

Paola Emery, uma designer de jóias, e seu marido, Randall Emery, um consultor de informática em Filadélfia, disseram que esperaram para ter filhos e comprar uma casa durante os quase quatro anos que o governo levou para completar a verificação do passado de Paola, que tinha entrado no país vinda da Colômbia com um visto de turista e pediu a residência permanente depois que eles se casaram em 2002.

Paola, 27, disse que os advogados avisaram que não era aconselhável ela se arriscar a visitar sua família na Colômbia e depois tentar voltar aos EUA.

Ela disse que esteve ausente de casamentos, doenças e até do seqüestro e resgate de um tio. "Parecia que eu estava na prisão", disse Paola.

Autoridades dos Serviços de Cidadania e Imigração do Departamento de Segurança Interna disseram que as demoras de anos são raras, mas segundo advogados de imigração há clientes que esperam três ou quatro anos pela liberação da Segurança Interna. Paola Emery e seu marido, 34, processaram o departamento por causa dos atrasos e ela finalmente foi liberada em maio passado. Então Randall Emery havia ajudado a formar o grupo de cidadãos Famílias Americanas Unidas, que patrocina parentes próximos junto à imigração e que defende a mudança da lei de imigração para manter as famílias unidas.

As autoridades de imigração dizem que sua função não é impedir o amor ou a imigração. Quase 260 mil cônjuges de cidadãos receberam a residência permanente através do casamento no ano passado, dos 1,1 milhão de pessoas que se tornaram residentes permanentes, segundo o serviço. "O objetivo é dar o benefício às pessoas que estão intituladas", disse Marie T. Sebrechts, porta-voz do órgão no sul da Califórnia. Ela disse que o departamento não comenta casos individuais.

Quando um imigrante legal é patrocinado por um cônjuge americano, ela disse, o "green card" pode ser obtido em até seis meses. Mas se houver complicações como uma entrada ilegal as leis não são tão benevolentes, disse Sebrechts.

Nesses casos o imigrante geralmente deve voltar para seu país de origem e esperar de três a dez anos para pedir a residência, mas às vezes é concedida antes.

Esses obstáculos estão longe da mente dos casais quando se conhecem. E para alguns também a idéia de se questionar se o ser amado está igualmente apaixonado por eles.

Sharyn T. Sooho, uma advogada de divórcios e fundadora do divorcenet.com, um site na web para casais que estão se divorciando, disse que representou americanos que perceberam tarde demais que a pessoa com quem se casaram estava mais interessada na residência do que em viver felizes para sempre.

"Eles se sentiam em conflito, usados e abusados", ela disse. "É um casamento rápido, e de repente a pessoa que era tão bacana vira um pesadelo."

Mas com maior freqüência, segundo Carlina Tapia-Ruano, presidente da Associação Americana de Advogados de Imigração, os casais se casam antes de estar prontos porque "existe o medo de que se não o fizerem alguém seja deportado".

Krystal Rivera, 18, uma estudante colegial de Los Angeles, e seu namorado se encaixam nesse grupo. Rivera está decidida a se casar em abril de 2008, mesmo temendo que isso pressione demais o relacionamento. "Eu nunca quis seguir o ritual hispânico de casar cedo", disse Rivera, nascida em Los Angeles de pais imigrantes mexicanos.

Ela disse que se apaixonou aos 13 anos por um rapaz mexicano que cantava no coro da igreja com ela. "Ele começou a me cutucar e eu disse 'Pare!'", ela lembra. Rivera continuou apaixonada pelo rapaz, hoje com 19 anos, que foi trazido para os EUA ilegalmente por sua mãe quando ele tinha 12. Ele está no colegial e quer ser professor, enquanto ela pretende tornar-se médica.

Mas para que seus planos dêem certo, disse Rivera, ela precisa ajudá-lo a legalizar sua situação. Ela disse que testemunhou a frustração do namorado quando lidava com patrões que não pagavam o valor devido ou lutava para encontrar empregos melhores que o atual, de ajudante de cozinha. Devido à sua situação ilegal, ele não consegue tirar carteira de motorista nem visitar os irmãos que ficaram no México. "Queremos ser normais", disse Rivera.

Os Harrell também decidiram atacar. Depois de meses estudando o que fazer para reunir a família e gastando milhares de dólares com advogados, Kenneth Harrell decidiu deixar sua pequena congregação, vender a casa e ir ao encontro da mulher em Honduras. Ele será missionário de sua igreja por uma fração dos US$ 40 mil anuais que ganha como ministro.

"Finalmente eu disse: sabe de uma coisa? Não quero passar outro Natal longe da minha família", disse Harrell, que pretende partir no final de dezembro.

"Vamos continuar esperando que as leis mudem." Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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