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13/11/2006

EUA deverão ignorar passado político de Daniel Ortega para lidar com a Nicarágua

The New York Times
Mike Williams

The New York Times
As manchetes dos jornais poderiam ter provocado calafrios nos veteranos da Guerra Fria: Daniel Ortega, aquele que já foi um revolucionário marxista e um inimigo declarado dos Estados Unidos, voltou ao poder na Nicarágua.

Mas a Guerra Fria terminou há quase 20 anos, e o Ortega que comemorou a vitória na eleição nicaraguense da semana passada alega ser um homem mudado, que estaria mais interessado em reformas moderadas do que em uma revolução.

Embora ainda critique aquilo que chama de "capitalismo selvagem", Ortega prometeu cortejar os investidores estrangeiros e buscar o diálogo com aquele que já foi o seu maior inimigo, os Estados Unidos.

Mas a sua vitória ecoa por toda uma região que tem se inclinado progressivamente para a esquerda.

O mais estridente crítico dos Estados Unidos na América Latina —Hugo Chávez, da Venezuela— não perdeu tempo em comentar com prazer a significância da vitória de Ortega.

"A América Latina está deixando de ser —e para sempre— um quintal do imperialismo norte-americano", declarou Chávez. "Ianques, voltem para casa! Gringos, voltem para casa! Esta terra é nossa. Esta é a nossa América!".

Os analistas dizem que embora a vitória de Ortega se constitua em uma nova evidência do desencantamento da América Latina com as reformas neoliberais apoiadas pelos Estados Unidos, não são esperados confrontos drásticos. E eles tampouco acreditam que a Nicarágua se transforme em uma prioridade para a política norte-americana.

"Sou incapaz de visualizar George Bush dissipando o seu capital político esvanecente com tentativas de punir Daniel Ortega", afirma o cientista político Henry "Chip" Carey, da Universidade do Estado da Georgia. "A Nicarágua de hoje está muito longe de ser tão importante quanto era na década de 1980, e creio que Ortega está provavelmente mais brando. Mas isso é algo que atrairá as atenções. Se ele tiver um bom desempenho, poderá demonstrar que governos de esquerda podem fazer um bom trabalho e que cachorros velhos são capazes de aprender truques novos".

É bem possível que o governo Bush, que acaba de ser abalado pelas derrotas nas eleições parlamentares, e que enfrenta grande desaprovação popular devido à guerra no Iraque, mantenha Ortega e o restante da América Latina em uma posição diplomática secundária.

Mas não há dúvida de que o triunfo de Ortega se constitui em mais um dissabor para um presidente norte-americano cuja política externa tem recentemente sofrido derrotas graves em todo o mundo.

O embaixador dos Estados Unidos em Manágua, Paul Trivelli, se reuniu com os oponentes conservadores de Ortega durante a campanha, e advertiu que Ortega "é como um tigre que não perdeu as listras". Ele afirmou ainda que os Estados Unidos poderiam cancelar um auxílio de cerca de US$ 220 milhões à Nicarágua caso Ortega vencesse.

Após a eleição, autoridades do governo norte-americano passaram a dar declarações cautelosas, preferindo aguardar o desenrolar dos acontecimentos.

"Trabalharemos com os seus líderes com base nos compromissos e nas ações que eles adotarem no que se refere ao futuro democrático da Nicarágua", afirmou o porta-voz do Conselho de Segurança da Casa Branca, Gordon Johndroe.

Ortega se depara com uma tarefa nada invejável: a Nicarágua é o segundo país mais pobre do hemisfério (só perde para o Haiti), e 80% dos seus 5 milhões de habitantes vivem com uma renda diária inferior a US$ 2.

O ex-presidente Jimmy Carter, que declarou que a eleição nicaraguense foi livre e justa, após liderar uma equipe internacional de observadores, disse que os líderes mundiais deveriam dar uma chance a Ortega.

"Quando ele expressa publicamente o seu compromisso de honrar os acordos comerciais e as liberdades civis, creio que seria melhor conceder-lhe o benefício da dúvida", disse Carter à imprensa.

Carter também teria conversado com a secretária norte-americana de Estado, Condoleezza Rice, após a eleição, tendo declarado: "Ela me garantiu que, independentemente de quem fosse eleito, os Estados Unidos responderiam de forma positiva e favorável".

Para Ortega, a jornada rumo à redenção política tem sido longa. Ele se tornou uma figura proeminente pela primeira vez há três décadas, quando a Frente Sandinista de Libertação Nacional derrubou o ditador nicaraguense Anastasio Somoza, em 1979.

Em meados da década de 1980, Ortega era o líder não eleito da Nicarágua, envolvido em uma guerra com os guerrilheiros "contras", apoiados pelos Estados Unidos. Aquele foi um dos clássicos conflitos indiretos da Guerra Fria, e Oliver North e outras autoridades do governo Reagan forneceram dinheiro e armas para os contras na tentativa de derrubar um governo marxista localizado no quintal dos Estados Unidos.

A guerra provocou a morte de 30 mil nicaraguenses, e desencadeou um escândalo nos Estados Unidos devido a remessas clandestinas de armamentos. Após anos de guerra e de debilitantes sanções econômicas norte-americanas, foram os eleitores nicaraguenses que finalmente decidiram expulsar Ortega do poder, em uma eleição em 1990 que terminou com a vitória da candidata apoiada pelos Estados Unidos, Violeta Chamorro.

Abalados pelas denúncias de corrupção e de roubos quando deixavam o poder, os sandinistas se retraíram, mas jamais desapareceram da política nicaraguense.

Ortega circulou pelo cenário político na década de 1990, tendo sobrevivido a um escândalo sexual e perdido duas vezes nas suas tentativas de voltar à presidência. No decorrer dos anos ele abraçou o catolicismo e alegou estar se distanciando do seu passado revolucionário.

Na campanha recém-encerrada, ele escolheu um ex-inimigo "contra" como companheiro de chapa, costurou alianças com partidos oposicionistas e prometeu respeitar a propriedade privada, os interesses empresariais e os acordos comerciais com os Estados Unidos, caso fosse eleito.

Mas mesmo assim ele obteve menos de 40% dos votos, e teria enfrentado um segundo turno caso os seus aliados não tivessem promovido uma mudança na lei eleitoral, reduzindo a percentagem de votos necessários para uma vitória no primeiro turno.

Ele também foi beneficiado pelo fato de os seus dois principais oponentes conservadores terem se recusado a abrir mão de suas candidaturas, o que cindiu decisivamente os votos da direita.

Robert White, ex-embaixador norte-americano em El Salvador que agora atua no Centro de Política Internacional, uma instituição de pesquisas políticas com sede em Washington, afirma que o verdadeiro teste para Ortega será descobrir se é capaz de conter a corrupção generalizada que tradicionalmente incapacita os governos nicaraguenses.

White minimizou as ameaças do governo Bush de cancelar o auxílios financeiro à Nicarágua.

"A última coisa da qual Bush necessita é uma outra batalha no campo da política externa", disse ele. "Eles agirão de forma fria e correta, e talvez promovam algumas revisões pequenas nos programas de auxílio. Mas, de forma geral, acredito que eles terão que dar início às comunicações com Ortega".

Outros analistas observam que embora Ortega certamente se alie a Chávez, ao enfermo Fidel Castro e a Evo Morales, da Bolívia, os líderes da esquerda linha dura latino-americana, o cenário político da região está longe de ser monolítico. Os líderes do Brasil, do Chile e da Argentina também são de esquerda, mas a postura deles é bem mais moderada.

"Aparente está se formando uma massa crítica de governos latino-americanos esquerdistas", afirmou Carey. "Mas estes não são aqueles velhos tempos de Castro e da União Soviética". Danilo Fonseca

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