UOL Notícias Internacional
 

14/11/2006

Cresce ameaça de homens-bomba no Afeganistão

The New York Times
Carlotta Gall

Em Peshawar, Paquistão
Forças de segurança afegãs e da Otan prenderam recentemente vários homens como Hafez Daoud Shah, um refugiado afegão desempregado de 21 anos que disse que, em setembro, atravessou a fronteira de volta ao Afeganistão em um táxi, acompanhado de três outros candidatos a homens-bomba.

Todos os casos, disseram autoridades de segurança afegãs, são semelhantes ao de Shah, que repetiu sua história em uma rara entrevista na cadeia para uma jornalista em Cabul, a capital afegã. O rastro da organização, financiamento e recrutamento dos homens-bomba que realizam uma série crescente de ataques suicidas no Afeganistão leva ao Paquistão, eles disseram.

"Todo homem-bomba ou DEI está de uma forma ou outra ligado ao Paquistão", disse um alto oficial de inteligência afegão, se referindo aos dispositivos explosivos improvisados usados como bombas de estrada. "A intenção deles é manter o Afeganistão desestabilizado, nos fazer fracassar, nos manter fragmentados." Ele disse que falaria sobre o assunto se seu nome não fosse citado.

Um alto oficial americano baseado no Afeganistão concordou em grande parte. "A crença é de que o recrutamento, treinamento e fornecimento de equipamento técnico para DEIs em grande parte ocorre fora do Afeganistão", ele disse. Quando fala em DEIs, ele também se refere aos homens-bomba. Ele também não quis que seu nome fosse citado por saber que seus comentários provavelmente ofenderiam os líderes paquistaneses.

A acusação é de fato uma das mais contenciosas feitas por autoridades afegãs e americanas contra a liderança paquistanesa, que freqüentemente nega o problema de infiltração e insiste que as raízes da insurreição do Taleban se encontram no Afeganistão.

A disputa continua dividindo os líderes afegãos e paquistaneses, mesmo enquanto o governo Bush tenta promover uma maior cooperação entre eles no combate ao Taleban, cujas fileiras incharam para até 10 mil combatentes neste ano.

Há um ano, bombas de estrada e ataques suicidas eram ocorrências raras no Afeganistão. Mas se tornaram mais freqüentes e mais mortais. Ocorreram mais de 90 ataques suicidas no Afeganistão neste ano. Em setembro e outubro, quase 100 pessoas foram mortas em tais ataques.

As forças de segurança afegãs disseram que, no mesmo período, capturaram 17 suspeitos de terrorismo, dois deles supostos homens-bomba; as forças da Otan disseram que pegaram 10 pessoas planejando ataques a bomba suicidas nas últimas semanas.

Na semana passada, um oficial de inteligência paquistanês reconheceu pela primeira vez que homens-bomba estavam sendo treinados em Bajaur, uma pequena área tribal pathan ao longo da fronteira. Em uma entrevista dada apenas sob a condição de anonimato, o oficial citou o treinamento como um motivo para um ataque aéreo neste mês contra uma escola religiosa de lá, que matou mais de 80 pessoas.

As prisões de Shah e outros como ele, disseram autoridades afegãs e da Otan, mostram que grupos com a intenção de realizar ataques no Afeganistão continuam operando facilmente dentro do Paquistão.

Shah disse que era um de quatro candidatos a homens-bomba que chegaram a Cabul vindos do Paquistão, em 30 de setembro. Um deles matou 12 pessoas e feriu 40 na entrada de pedestres do Ministério do Interior no mesmo dia.

O ataque foi o primeiro de um homem-bomba visando não tropas estrangeiras, mas sim afegãos, e assustou os habitantes de Cabul. Entre os mortos estavam uma mulher e seu filho.

Segundo o relato de Shah, poderia ter sido bem pior. Shah disse que ele e seus companheiros planejavam explodir a si mesmos em quatro ataques separados na capital. Que o fracasso deles ocorreu em parte devido à sorte e em parte à vigilância das forças de segurança afegãs e da Otan. Mas o plano deles representava uma clara escalada nas ambições dos homens-bomba no Afeganistão.

Usando um barrete de oração preto e barba longa, Shah recontou seu próprio envolvimento na presença de dois oficiais de inteligência afegãos em uma cadeia dirigida pelo Diretório Nacional de Segurança. Os oficiais da inteligência afegã ofereceram Shah porque, diferente dos outros sob custódia que enfrentam acusações semelhantes, sua investigação foi concluída. Ele agora aguarda julgamento.

Shah não demonstrava sinais de medo ou desconforto na frente de seus guardas. Mas após duas semanas de detenção, ele se queixava de cansaço e dores de cabeça devido a uma antiga mas não especificada condição mental, algo que seu pai confirmou em uma entrevista separada, na casa da família em Karachi, uma cidade portuário no sul do Paquistão.

A princípio Shah, que cursou até a sexta série, negou que pretendia ser um homem-bomba, mas disse que veio ao Afeganistão para participar da jihad, ou guerra santa. "Eu pensava apenas em lutar na jihad contra os infiéis", ele disse. "Eu soube que havia combates no Afeganistão e vi nos jornais."

Mas ao final da conversa de uma hora, ele reconheceu que pretendia explodir a si mesmo em Cabul, e disse que se arrependia de suas ações. Ele foi vago sobre o alvo de sua missão suicida. "Eu não sabia onde o faria", ele disse.

Após sua prisão, disse Shah, ele soube que outro membro de seu grupo, ao qual chamou de Abdullah, teve sucesso em realizar um ataque suicida do lado de fora do Ministério do Interior. "Quando fui preso eu ouvi a respeito e achei que devia ser ele", ele disse.

"Eles vieram aqui para se tornarem mártires", ele disse sobre seus três companheiros, todos paquistaneses, aproximadamente da mesma idade e todos também de Karachi.

O próprio Shah é um entre 2,5 milhões de afegãos que vivem como refugiados no Paquistão e que, como concordam autoridades de ambos os lados, freqüentemente gravitam para as fileiras do Taleban e outros grupos militantes islâmicos.

Os candidatos a homens-bomba presos recentemente, disse um oficial de inteligência afegão, saem de dois grupos claros.

Alguns estão ligados a grupos extremistas que foram criados e dirigidos pela inteligência paquistanesa como um braço da política externa em relação aos governos rivais no Afeganistão e Índia. Eles são tecnicamente ilegais e o governo agora diz que os desbaratou.

Outros são aliados de grupos afegãos como o Taleban e o do comandante de milícia renegado Gulbuddin Hekmatyar, também um antigo protegido da inteligência paquistanesa e que agora se aliou ao Taleban, disseram oficiais da Otan e autoridades afegãs.

Como Shah, vários outros candidatos a homens-bomba presos recentemente vieram do Paquistão ou receberam ordens de comandantes baseados lá, eles disseram.

Após o desbaratamento recente de uma célula terrorista de 12 pessoas em Cabul, dois dos homens continuaram recebendo telefonemas de celular enquanto estavam sob custódia, pedindo para que detonassem suas bombas, disse o oficial de inteligência. Os telefonemas vieram de um comandante afegão chamado Pir Farouq, que mora no campo de refugiados afegãos de Shamshatoo, em Peshawar, uma cidade de fronteira, e é aliado estreito de Hekmatyar.

Quando a inteligência afegã, a pedido da Otan, repassou o número do celular de Pir Farouq para os oficiais de inteligência paquistaneses, o informante deles, um membro do círculo interno do comandante, foi rapidamente morto, seu corpo cortado em oito pedaços que foram jogados no campo. Oficiais da Otan descreveram o incidente aos jornalistas.

Outro grupo de homens-bomba foi capturado enquanto planejava ataques contra as forças da Otan no norte do Afeganistão. Tal célula também estava ligada a Hekmatyar, mas organizada por outro de seus comandantes, que vive em Quetta, uma cidade de fronteira paquistanesa, disse o oficial de inteligência.

Shah e seus companheiros estudaram todos na mesma escola religiosa, ou madrassa, em Masjid-e-Noor, uma mesquita em Mansehra Colony, um distrito operário no norte de Karachi. Shah disse que estudou lá por quatro anos, obtendo o título de hafiz, dado àquele que memorizou o Alcorão.

A madrassa era dirigida até recentemente pelo maulvi Abdul Shakoor Khairpuri, que, segundo Shah, era membro de um grupo jihadista proscrito, o Harkat-ul-Mujahedeen. Shah disse que foi o maulvi que os enviou na missão suicida.

O maulvi lhe deu um bilhete endereçado a um homem chamado apenas Umar, que estava esperando por eles quando chegaram a Cabul. Barbado, com 28 ou 29 anos de idade, Umar era um taleban de Kandahar, disse Shah.

O bilhete orientava Umar a dar ao grupo explosivos e que o equivalente a cerca de US$ 1.400 fosse dado às famílias de cada homem-bomba após concluírem sua missão, disse Shah.

Umar lhes entregou um saco de arroz branco. Dentro havia quatro coletes cáqui, com três bolsos costurados em cada lado do peito onde foram colocados os explosivos. "Ele tem fios que ligam ao controle remoto e quando você aperta o botão ele explode", disse Shah.

"Os coletes eram pesados", ele acrescentou. "Havia muitos explosivos."

Shan então começou a procurar por um táxi. Alguém, aparentemente um agente de inteligência, se ofereceu para mostrar-lhe mas acabou o conduzindo a um escritório de inteligência, onde foi preso. Os demais homens-bomba escaparam com seus coletes. Assim como Umar.

O oficial de inteligência afegão confirmou grande parte da história de Shah. Assim como o pai de Shah, Ahmed Shah, entrevistado no mês passado em sua casa, em um prédio arruinado na zona leste de Karachi, apesar de ter dito que não sabia para onde seu filho tinha ido após sair de casa há três semanas. Os buracos e discrepâncias nos relatos de pai e filho pareciam indicar que nenhum estava contando a história toda.

Quando informado sobre o motivo para seu filho estar na cadeia em Cabul, o pai ficou furioso, mas não demonstrou surpresa. "Como uma pessoa pode se sentir quando alguém sai de casa sem se importar com seus filhos -ele tem dois filhos pequenos", ele disse, um menino de 4 anos e uma menina de 2 anos.

"Nós nos cansamos de falar com ele; não era possível falar com ele", disse o pai. "Um filho tão desobediente, que não se importa com ninguém, que não cuida de seus pais, deve ir para o inferno."

O professor de Shah na mesquita local também contradisse o relato de Shah.

O maulvi Khairpuri, entrevistado em sua casa vizinha à mesquita de Noor, negou ser membro do proscrito Harkat-ul-Mujahedeen, como Shah disse. Mas reconheceu ser o secretário local de um partido pró-Taleban, o Jamiat-ul-Ulama-i-Islam.

O maulvi disse que não tinha idéia de que Shah tinha partido para o Afeganistão. Ele negou ter enviado Shah na missão suicida. "Ele não era corajoso o suficiente para fazer algo assim", ele disse com menosprezo. George El Khouri Andolfato

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