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15/11/2006
Modernidade ou tradição: uma cidade na encruzilhada de dois mundos encontra seu próprio caminho

Matt Gross

"Um milhão de liras", disse o caixa no cyber-café. E, pela milionésima vez desde que cheguei em Istambul, eu reagi com espanto. Como podiam alguns minutos de conexão custar uma soma tão alta? Assim como é que eu poderia me virar com apenas U$ 500 para durar todo o final de semana?

O caixa estava na verdade se referindo, como tantos turcos, à antiga moeda corrente da Turquia em vez da nova, que foi introduzida em 2005 cortando seis zeros da conta de todos.

Yoray Liberman/The New York Times 
A Mesquita Azul, atração turística de Istambul, tem capacidade para receber 10.000 fiéis


A conta no cyber-café (na verdade equivalente a aproximadamente R$ 1,43 pelo câmbio da época) no entanto era mais um sinal de que a Turquia, e especialmente Istambul, são lugares que, nas mais variadas situações, mesmo sem querer, misturam o velho e novo, o leste e o oeste, o secular e o espiritual. Essa mescla de identidades pode até ser um clichê, mas durante um fim de semana no final de junho em Istambul, esse era um clichê que a cidade não me deixava esquecer, nem por um minuto sequer.

Veja, por exemplo, o meu alojamento: o Grande Hotel de Londres, construído em 1892 para acomodar as levas de turistas europeus que chegavam através do trem Expresso Oriente. Nos últimos 114 anos, teve períodos de prosperidade (Hemingway ficou aqui em 1922) e de declínio (quando cadeias como a Hilton chegaram, nos anos cinqüenta). Mas hoje novamente faz jus a seu adjetivo, com espessos tapetes vermelhos, candelabros ornados, uma equipe de funcionários que parece realmente se importar com os convidados e um lobby cheio de antiguidades e com pontos de conexão Wi-Fi que servem aos andares mais baixos do hotel.

Meu quarto bem grande e reformado - fui transferido gratuitamente para um quarto melhor, por conta de um aparelho de ar condicionado defeituoso - era revestido de madeira escura e detalhes dourados. Eu abri as cortinas e encontrei uma ampla varanda debruçada sobre as águas plúmbeas do mar Bósforo e, do outro lado do estreito, dezenas de mesquitas se sobressaindo pelos morros de Uskudar.

E era barato. O preço dos quartos reformados começa a partir de U$ 75 por noite, com 10 por cento de desconto para quem paga em dinheiro (a cobrança normalmente é feita em euros). Ainda melhor (para mim) era o fato de que a Turquia estava atravessando uma crise econômica de verão, que fortalecia o dólar a 1,55 lira (em 1o de novembro valia 1,50).

Mas eu ainda não sabia como correriam as minhas outras despesas, com o alvoroço em torno da entrada da Turquia na União Européia e pela matéria de capa de uma edição da revista Newsweek de 2005 com o tema "Istambul está na moda". Será que eu conseguiria viver como um sultão com 565 novas liras?

Felizmente, eu tive minha própria "vizir pessoal": Elif, amiga de uma mulher que eu havia conhecido na Malásia, que era nada menos que a personificação de Istambul - com tradição e modernidade igualmente distribuídas. Uma mulher energética, hiper-intelectual em seus trinta e poucos anos, Elif é uma muçulmana séria mas que tem saudáveis opiniões a respeito de cerveja e dos homens. É também um turca orgulhosa, obcecada pelas histórias de Jane Austen e pelo cinema asiático.

Saboreando um café da manhã tardio com menemen, ou ovos mexidos com salsicha picante (20,50 liras), na Saray, restaurante e confeitaria à moda antiga, Elif e eu decidimos que eu deveria conhecer o passado de Istambul antes de seu presente. Assim nós pegamos um táxi (7 liras) para atravessar o estuário do Chifre Dourado até a região de Sultanahmet, onde ficam as atrações principais da cidade, e fizemos o que os turistas têm feito em Istambul já há centenas de anos.

Nós começamos pela cisterna de Basilica (100 liras), reservatório subterrâneo de água com colunas de mármore, de 900 metros quadrados e construído no século sexto. A maioria dos turistas faz filas para conhecer a cabeça de Medusa de cabeça para baixo que apóia uma coluna, mas eu preferi me fascinar pela beleza fractal da abóbada em tijolos, e pelos meninos vestidos de reis, com coroas, cetros e tudo mais. Tinham 6 anos, Elif explicou, uma idade em que os meninos turcos costumam ser circuncidados; os trajes eram como um deleite que antecipava o ritual de passagem, marcado para a manhã seguinte.

Em seguida vimos a Mesquita azul do século 17, que vista por fora não parecia tão azul assim, mas cujas paredes no interior são erguidas por uns 20.000 tijolos basicamente azuis. A abóbada se levanta por mais de 40 metros, sustentada por quatro vigas bem espessas.

Essa atração turística é também uma mesquita em pleno funcionamento, com capacidade para receber 10.000 fiéis. Elif disse que nunca rezou por lá, embora as orações sejam fundamentais para ela. "Rezar", entoou com entusiasmo quase pentecostal, "é a melhor coisa no mundo". Em seguida, ela ousou dizer o que passava por ambas as nossas mentes - a mesquita tinha cheiro de pés - e nós saímos dali.

Por toda parte por onde você anda em Istambul, há um café por perto. Assim nós demos um tempo para beber o ayran, uma bebida meio salgada mas refrescante à base de iogurte (6 liras), num jardim cheio de sombras de árvore no café mais próximo. Depois pegamos outro táxi até a Hagia Sophia (10 liras), a grande basílica cristã terminada no 537 DC. e transformada numa mesquita em 1453, quando o sultão otomano Mehmet conquistou Constantinopla. Dentro dela, os elaborados mosaicos da abóbada ficam parcialmente obscurecidos pelos andaimes, mas para mim isso era nenhuma obstrução - a grade densa era um belo elemento intruso, tal como o monolito em "2001: Uma Odisséia no Espaço".

Agora já era tarde avançada, e nós nos demos conta de que não dava mais tempo para explorar o palácio de Topkapi, o museu do império Otomano que já foi a casa dos imperadores. Em vez disso , vagamos pelos corredores em arco do labiríntico grande Bazar, não nos detendo nos quiosques de tapetes mas parando para tomar consistentes café e chá de maçã em Sark Kahvesi (9 liras) - e travar um debate sobre a cultura americana: Será que isso era relevante? Então saímos de novo, em direção ao Mercado das Especiarias, onde eu comprei 100 gramas de pimenta em pó doce e defumada (3 liras).

Os aromas do mercado despertaram meu apetite, e quando disse a Elif que eu queria provar o doner kebab, a melhor opção em termos de comida barata na rua, carne similar ao gyros grego, ela sugeriu que nós tomássemos um táxi até os subúrbios. Mas não havia tantos quiosques de kebab, em cada canto da cidade? Mas lá longe, perto do aeroporto, ela insistiu, havia o Beyti, um templo sagrado da carne; seria uma gastança, mas valeria a pena.

Uma hora (e 27 liras) mais tarde, um táxi nos deixou na grande villa de Beyti, com seus lambris de madeira, que já serviu a vários tipos de hóspede, de Arthur Miller a Serena Williams. Já acompanhados pela irmã de Elif, Ceren, ocupamos uma mesa no terraço e nos dedicamos ao negócio de consumir carne em todas as suas formas - filet mignon, raras costeletas de cordeiro e leves tiras do doner kebab, sem gordura. Uma refeição harmonizada com uma garrafa de Yakut, um confiável vinho tinto turco. No final das contas, nós pagamos 73 liras cada um.

Já na manhã de sábado, Elif e eu mergulhamos fundo na Istambul do presente - isto é, fomos às compras. Eu a encontrei em Nisantasi, um shopping com produtos mais requintados, onde apreciamos vitrais e cerâmica otomana da Pasabahce, versão turca da loja Crate & Barrel.

Um prato com detalhes em rosa incrustado em ouro estava por 110 liras, razoável; já um vaso azul-e-branco por 950, nem tanto. Meu próprio gosto gravitava pela elegante butique Império Otomano, que faz camisetas com vanguardistas imagens de sultões jogando futebol (60 liras) e calções largos com a inscrição "O Grande Turco" sobre a braguilha.

Logo abaixo na mesma rua, nós encontramos outra loja chic de camisetas, a Nukha, cujos projetos gráficos combinam símbolos das religiões e culturas do mundo - a cruz da Igreja Ortodoxa, o kanji japonês, flores de lotus indianas - com elegância o bastante para afastar qualquer vestígio riponga. Eu comprei uma camiseta sem mangas para minha esposa, onde está escrito o lema "Uma Longa Viagem ao Redor do Mundo" (49 liras).

Eu já estava gastando à toa. Para compensar, fomos aonde nada estava à venda: para o museu Moderno de Istambul (7 liras). Este museu, inaugurado há dois anos num antigo armazém, é o primeiro repositório oficial de impressionistas e construtivistas nativos de Istambul, além de abrigar obras de fotógrafos e escultores. Eu adorei as paisagens florestais de Ahmet Ali Pasha e as satíricas cenas de fábrica de Yuksel Arslan. Já a Elif torceu o nariz para os expressionistas abstratos da Turquia, se questionando sobre o que significavam aquelas imagens anti-figurativas.

Esteticamente mais agradável era nossa etapa seguinte, o Kanyon, um shopping futurista que parece um canyon de vidro e aço. Só que, em vez de escalar montanhas íngremes, bem-vestidos cidadãos de Istambul usam escadas rolantes para gastar milhões de liras - novas, não das antigas! - em lojas de cadeias internacionais, como a Cesare Paciotti e a Georg Jensen.

Embora o Kanyon tenha vários restaurantes - Burger King e a cadeia britânica de massas Wagamama, entre outros - nós retornamos para jantar em Beyoglu, o bairro em torno de meu hotel. Beyoglu é um bairro do lado europeu da cidade que já abrigou prósperas minorias cristãs e judaicas, e sua arquitetura tem influência do século 19: estilos Veneziano, Vitoriano, Belas-Artes e Romanesco. Agora, é onde os modernos de Istambul passam seu tempo, andando para cima e para baixo pela Istiklal Caddesi, a principal rua de pedestres, esnobando esplendorosas catedrais e os consulados para freqüentar a Topshop e a loja da Nike.

Os restaurantes de Beyoglu são tão diversos quanto seus habitantes, eles mesmos componentes de toda uma mistura de idades, raças (eu vi tantos olhos azuis quanto marrons) e estilos (aqui um véu, lá um hoodie, casaco com capuz). Há lugar para o novo, como restaurantes mexicanos e pubs irlandeses, e para o tradicional: casas de chá, restaurantes de frutos do mar e tabernas conhecidas como meyhanes.

Nosso destino era uma ruazinha lateral com paralelepípedos na região de Tunel, tão abarrotada de meyhanes que eles chegam a se espalhar pela pista do beco. Refik, o mais freqüentado, milagrosamente ainda tinha uma mesa. Então logo pedimos uma porção de meze - frutos do mar fritos com iogurte e berinjela com pasta vermelha picante. Nós requisitamos também uma garrafa (ou duas) de raki, uma bebida com sabor de anis cuja coloração vai do branco ao pastoso quando se adiciona água.

Beber raki é também um teste turco de resistência - um teste que eu precisava cumprir para ser aprovado. A cada copo que eu bebia, parecia que Elif, nosso garçom e mais todos no restaurante me saudavam, e logo minha mente estava tão pastosa quanto minha bebida, embora não tão nebulosa que me impedisse de apreciar os acompanhamentos tradicionais do raki, como o queijo branco tipo feta e um melão-mel, que atiçava e saciava minha sede na mesma medida (110 liras para três pessoas).

Felizmente, o Grande Hotel de Londres estava a um pulo dali. Eu acordei domingo tendo escapado por pouco de uma ressaca terrível. O rejuvenescimento estava a caminho, no melhor estilo turco - eu precisava de um banho daqueles. A sauna mais antiga de Istambul é a Cemberlitas Hamami, construída em 1584, mas eu apostei que a tal lendária Cagaloglu Hamami estaria menos abarrotada de ocidentais com ressaca.

Eu estava certo: a Cagaloglu, que tem instalações separadas para homens e mulheres, estava quase vazia. Eu requisitei o luxuoso serviço oriental completo (60 liras), e após vestir uma toalha fui conduzido até o hamam por um homem mais velho e atarracado. O interior era vaporosamente belo, com todos os assoalhos de mármore e arcos elegantes, iluminados por feixes da luz solar entrando por frestas da abóbada elevada. Meu assistente massagista me deixou suando numa ante-sala tórrida por 10 minutos, depois me colocando sob a cúpula e me esfregando, esfoliando, enxaguando, friccionando, esticando, usando shampoo, alongando, puxando e de todas as formas manipulando meu corpo despido.

Poderia ter sido mais sexy - se ele fosse menos parecido com o (jogador de futebol americano) Mike Ditka e mais como Maggie Gyllenhaal (ou mesmo com o Jake).

Uma hora mais tarde, eu fui para o vestiário, bebi um copo de suco de laranja fresquinho do pomar e me sentei na cadeira de um barbeiro, que aparou minha barba e primorosamente me escanhoou, enquanto tossia dolorosamente aquela tosse de fumante inveterado. "Allah, Allah!", rogava após cada espasmo.

As gorjetas e a barba mais desenhada custaram-me mais umas 56 liras, mas enquanto eu caminhava a passos largos pela cidade velha, aquele me pareceu um preço pequeno a pagar pelo prazer de me sentir como me sentia, um homem novo, renovado. Total gasto no final de semana: 773 liras (ou aproximadamente U$498,70, equivalente a R$ 1.050,00).

Tradução: Marcelo Godoy

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