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19/11/2006

O caminho da China para a modernidade, espelhado em um rio em apuros

The New York Times
Jim Yardley
Em Dolka, China
Nos dois lagos glaciais que dão origem ao rio Amarelo, um nômade tibetano chamado Tsende se encontra na margem do rio e arregaça as calças. Ele diz que um dragão mora nos lagos, um deus da chuva. Duas décadas de seca o convenceram de que o dragão está furioso.

Tsende entra descalço no rio, um ponto humano em uma altitude de quase 4.600 metros, engolido pelo vazio dos pastagens da província de Qinghai. Ele está carregando cinco anéis de prata. Um nômade do outro lado tem 20 ovelhas. Eles acertaram um negócio.

Ruth Fremson/The New York Times 
Rio Amarelo, na China, corre o risco de ficar seco com crescimento da população


















Ele atravessará um campo cuja relva antes chegava aos seus joelhos, mas agora mal alcança seu tornozelo. Centenas de nômades, estimulados pelo governo, venderam seus rebanhos e deixaram as terras ao redor dos lagos. Outros como Tsende fincaram um mastro de oração budista em uma encosta e rezaram ao dragão. Ao ser informado que alguns cientistas apresentaram outra explicação para o tempo -a mudança climática- Tsende não se impressiona.

"O resultado é o mesmo", ele disse dando de ombros.

Ciência ou superstição, o resultado é o mesmo: a nascente do Rio Amarelo, uma fonte de água para 140 milhões de pessoas em um país de cerca de 1,3 bilhão, está em crise, com os cientistas alertando que as geleiras e sistemas de água subterrâneos que alimentam o rio estão gravemente ameaçados. Para o restante da China, onde a economia evoluiu além da troca de anéis por ovelhas, é o mais recente fardo para um rio saturado com poluição e drenado até secar por fábricas, cidades crescentes e agricultura -com ainda mais crescimento planejado.

Por séculos, o rio Amarelo simbolizou a grandeza e as lamentações da antiga civilização chinesa, com imperadores igualando o controle do rio e de suas inundações catastróficas ao controle do país. Agora, o rio é um símbolo muito diferente -do estado calamitoso dos recursos limitados da China em um momento em que o elevado crescimento econômico do país exige mais de tudo.

"O rio Amarelo flui através de todas estas áreas densamente povoadas do norte da China", disse Liu Shiyin, um cientista da Academia Chinesa de Ciências. "Sem água no norte da China, as pessoas não têm como sobreviver. E o crescimento econômico que está ocorrendo não poderá continuar." O dinâmico motor econômico da China, ainda funcionando em níveis recordes, está em uma encruzilhada difícil. A poluição é disseminada e uma onda nacional de construção, manchada pela corrupção, está ameaçando superaquecer a economia. Os líderes da China, preocupados com o crescimento descontrolado, estão tentando enfatizar o "desenvolvimento sustentável", mesmo enquanto persistem questões sobre se os membros rasos do partido serão capazes de executar prioridades como o controle da poluição e a economia de energia.

O rio Amarelo, que serpenteia por regiões tocadas apenas de forma intermitente pelo boom do país, oferece uma excursão pelas pressões e contradições enfrentadas pela China e pelos esforços do governo para tratá-las. O percurso sinuoso de 5.464 quilômetros do rio, dos pastos de Qinghai ao Mar de Bohai, parece abranger não apenas milhares de quilômetros, mas milhares de anos -de nômades como Tsende dormindo em tendas feitas de pele animal a indivíduos urbanos como Peng Guihang, uma dona de casa que mora um novo arranha-céu na cidade de Zhengzhou.

No caminho, no antigo oásis irrigado na minúscula região de Ningxia, agricultores plantam arroz no deserto e tratam o Rio Amarelo como um poço sem fundo. Em uma área alienígena, cheia de pedriscos ao longo do rio, na Mongólia Interna, uma enorme região industrial surgiu em um período de apenas dois anos, expelindo tanta poluição que um lojista cercado por fábricas zomba das promessas do governo de limpar a China.

Mais espantoso, as cidades às margens do rio como Yinchuan, Luoyang e Zhengzhou -locais dos quais poucos americanos ouviram falar- estão correndo para se tornarem os próximos centros urbanos regionais da China, com booms de construção quase alucinantes. Yinchuan, uma capital ancestral, modesta, está construindo um bairro inteiro para um vasto complexo do governo e está acrescentando 2 milhões de metros quadrados de construção por ano até 2011. Luoyang, antes capital da dinastia Zhou, construiu um aglomerado de estádios esportivos futuristas que parecem uma armada pousada de espaçonaves metálicas extraterrestres.

De uma margem do rio à outra, e mais outra, uma cadeia evolucionária desponta: nômade passa a agricultor, fazenda passa a fábrica e fábrica passa a cidade. É um tipo de mudança que outros países experimentaram ao longo de séculos. Na China, está tudo acontecendo ao mesmo tempo.

O rio Amarelo, assim, é como um caminho para o futuro. Segui-lo equivale a assistir a luta da China para chegar lá.

Mudança climática e seca
É julho, estação das monções a 4.500 metros.

Está chuviscando. Dois dias antes choveu. Os nômades esperam que o dragão não esteja mais zangado. Tsende está bebendo uma xícara de chá de manteiga de iaque dentro de uma tenda com vista para a água azul frígida do Lago Gyaring. Nômades como Tsende são descendentes de famílias de etnia tibetana que vivem aqui há gerações, de quando a região fazia parte do Tibete, não da China. Mesmo agora, muitos nômades não falam mais que poucas palavras de chinês.

No ano passado, uma autoridade local fez uma oferta a Tsende: vender seus iaques e ovelhas e se mudar para uma cidade. Sua família receberia de graça uma casa de blocos de concreto e uma renda anual de 8 mil yuans, ou cerca de US$ 1 mil. Funcionários locais, respondendo a um edital de Pequim visando reduzir as áreas de pasto, ofereceram o mesmo acordo para cada nômade ao redor do lago.

"Eles querem proteger os campos de pasto", disse Tsende, que assim como muitos de etnia tibetana tem apenas um nome. "Eles querem transferir todos os nômades para cidades, mas alguns nômades são contra." Ele acrescentou: "Eu não acho que pastagem em excesso seja o problema."

O Lago Gyaring e seu gêmeo, o Lago Ngoring, são considerados a nascente do Rio Amarelo. Os cientistas começaram a estudar a região após uma seca nos anos 80. Os campos estavam se transformando em deserto, provocando o temor de que a fonte do rio poderia estar ameaçada. No final, a pastagem em excesso foi considerada a raiz do problema e os governos locais começaram a remover os nômades da região.

Mais recentemente, cientistas chineses que examinaram a região concluíram que as pressões dos rebanhos são apenas parte de um problema muito maior. Liu, o hidrólogo da Academia Chinesa de Ciências, e outros cientistas descobriram que o complicado sistema de águas que alimenta os lagos estava em crise. Os níveis das águas subterrâneas estavam caindo e as cadeias de lagos menores estavam diminuindo ou secando. As temperaturas do ar estavam aumentando lentamente, enquanto o antigo padrão de duas estações de chuva por ano foi reduzido a uma.

"Nós descobrimos que o problema é muito maior e é causado pela mudança climática global", disse Liu, que também é professor do Instituto de Engenharia e Meio Ambiente das Regiões Frias e Áridas.

Os pesquisadores descobriram que as geleiras que alimentam o rio encolheram 17% em 30 anos. No início deste ano, a agência de notícias oficial Nova China informou que as geleiras de todo o platô Qinghai-Tibete, que inclui a região da nascente do Rio Amarelo, estão atualmente derretendo a uma taxa de 7% ao ano devido ao aquecimento global. O relatório também disse que as temperaturas médias do Tibete subiram mais de um 1ºC desde os anos 80, segundo o birô nacional de meteorologia da China. Na nascente do Rio Amarelo, Liu disse que a combinação de menos chuva e temperaturas mais altas derreteu a camada de superfície do gelo permanente e afetou os canais de água subterrâneos. A umidade está sendo absorvida mais profundamente no solo mais quente e menos água está fluindo para o Rio Amarelo.

A tendência de aquecimento literalmente moveu o solo. Alguns trechos da rodovia 214, a estrada provincial de duas pistas, agora ondulam suavemente devido ao derretimento do gelo permanente. A ferrovia Qinghai-Tibete, a maravilha tecnológica que recentemente foi inaugurada como a estrada de ferro mais elevada do mundo, já informou problemas nos trilhos devido à superfície mais quente do solo. Mudança climática soa tão estranho para um nômade quanto um deus dragão para um cientista. Mas os nômades são testemunhas dos sintomas. Na cadeia de lagos conhecida como Mar de Estrelas, um nômade com jaqueta de camuflagem descreveu um recuo das margens em mais de 20 metros ao longo da última década. Outros nômades, incluindo Tsende, notaram o aumento constante das temperaturas.

"A temperatura aumenta todo ano", disse Tsende. "Está muito mais quente agora durante todas as quatro estações do que há 20 anos. Às vezes no inverno, a superfície do lago nem mesmo congela."

A China só perde para os Estados Unidos em emissões de dióxido de carbono, que os cientistas consideram o ingrediente principal do aquecimento global, apesar de ser difícil explicar isto a um nômade que nunca viu uma fábrica. Em vez disso, os nômades se recordam dos garimpeiros e pescadores chineses que chegaram nos anos 80.

A mineração deixou enormes cicatrizes nos campos. Os pescadores chegavam em mulas, depois em carros, abrindo buracos da superfície congelada dos lagos e inserindo redes neles. Mais ou menos na mesma época, a seca chegou. Os nômades consideram os lagos sagrados e evitam a pesca. Eles dizem que o homem santo budista local, ou lama encarnado, alertou que o dragão nos lagos estava irritado com a perturbação da ordem natural. A seca durou 20 anos.

"Nosso Lama Encarnado nos disse que quando os chineses han vieram e começaram a explorar ouro e pesca, eles insultaram o espírito do lago", disse Tsende. "Ele nos disse que o ouro sob a terra nos oferecia proteção para os pastos."

Quase metade das cerca de 400 famílias que antes viviam em torno do Lago Gyaring se mudou. Em outras regiões próximas a tendência é a mesma, com milhares de nômades partindo -apesar de não todos. No topo de uma colina ao lado do Lago Gyaring, nômades construíram uma torre onde as pessoas rezam ao dragão da chuva. Mineração e pesca estão proibidas. Tsende espera que o dragão esteja satisfeito; é cedo demais para dizer se a seca está acabando, mas neste ano as chuvas melhoraram. Ele não tem planos de partir e conseguiu comprar o mais recente símbolo de status dos nômades, uma moto.

"Eu acho que quanto mais quente melhor", ele disse sobre a elevação das temperaturas. "Assim haverá mais relva."

Liu, o cientista, está menos otimista. Toda a região nascente do rio, que percorre áreas diferentes de Qinghai, é responsável por aproximadamente 40% do suprimento de água do Rio Amarelo. As precipitações podem variar, ele disse, mas outras tendências climáticas sugerem que a ameaça à nascente do Rio Amarelo não passou.

"Se as tendências que estamos vendo perto da nascente persistirem -a do clima ficar mais quente e seco- o rio continuará secando", ele disse.

Jake Hooker e Lin Yang contribuíram com reportagem para este artigo. George El Khouri Andolfato

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