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20/11/2006

Brigando com Miles Davis e os seus demônios

The New York Times
Pat H. Broeske,
em Los Angeles
Quinze anos após a sua morte, Miles Davis experimenta uma espécie de turnê de retorno. Uma nova companha de marketing, capitalizando aquilo que seria o seu 80º aniversário no início deste ano, vem apresentando Davis, o trumpetista, líder de orquestra e lenda do jazz como "o ícone original do cool (gíria em inglês que quer dizer "legal")". A sua música vem sendo relançada e (é claro) remixada. E, de forma condizente com um gigante da música, a história da sua vida - que há muito tempo se esquiva dos roteiros de Hollywood - parece estar finalmente rumando para o cinema.

Arquivo/The New York Times 
Trompetista Miles Davis completaria 80 anos






















Após o lançamento de "Ray" e "Walk the Line", biografias musicais que fizeram sucesso nas últimas temporadas de premiações, os cineastas fizeram fila para apresentarem retratos cinematográficos de Marvin Gaye, Charley Pride, Janis Joplin e Bob Dylan. Agora, com dois projetos potencialmente concorrentes, é a vez de Miles Davis.

O poeta e escritor Quincy Troupe, que foi colaborador, amigo e protegido de Davis, fez uma adaptação em vídeo da sua memória de 2000, "Miles and Me" ("Miles e Eu").

"A história é a respeito de uma amizade - uma amizade dificilmente conquistada - entre dois homens negros, ambos artistas", explicou Troupe. "Usando aquela amizade como gancho, o filme explorará a vida de Miles."

O produtor Rudy Langlais disse que o financiamento independente para "Miles and Me" está sendo feito pela Patriot Pictures e a Beacon Pictures, e que existem negociações entre atores e cineastas. "Estaremos trabalhando nisso no ano que vem", previu Langlais, cujos trabalhos incluem "The Hurricane", filme sobre o polêmico caso criminal envolvendo o boxeador Hurricane Carter, e filmes para a televisão sobre os assassinatos de crianças em Atlanta e o líder de gangue Stanley Tookie Williams.

"Quincy enxergou a substância que há por trás do verniz de Miles", explicou Langlais. "Vocês verão um filme que aborda a vida interior de Miles Davis. A nossa meta é expor as verdades sobre Miles - os seus medos, terrores e demônios."

Nesse ínterim uma filme biográfico "autorizado" está sendo produzido pelos representantes de Davis, se consistem de alguns (mas não todos) dos seus filhos, de um sobrinho músico e de um cunhado. Don Cheadle tem sido mencionado em artigos da mídia como um possível astro encarregado de interpretar Davis, embora um representante do ator tenha se recusado a tecer comentários sobre isso. Esse projeto - do qual Troupe, que colaborou com Davis na sua autobiografia de 1989, era anteriormente o consultor - já teve vários produtores e roteiristas que chegaram e partiram.

Davis demonstrou ser um tópico difícil, em parte porque a sua carreira se desenrolou por quase meio século, envolvendo diversos estilos musicais, e tendo sido marcada por uma lista algo incongruente de sucessos. A curta lista inclui Charlie Parquer, John Coltrane, Cannonball Adderley, Bill Evans, Sonny Rollins, Thelonius Monk, Gil Evans, Quincy Jones e Herbie Hancock, bem como Jimi Hendrix e Prince.

O cenário do jazz também se revelou problemático para os cineastas, cujas abordagens foram com freqüência inacuradas. Alguns se debruçaram sobre o lado sombrio dos vícios (como Clint Eastwood fez com "Bird", ou Bertrand Tavernier com "Round Midnight"). Outros se ligaram no clima (como Spike Lee, com "Mo' Better Blues"), às vezes em detrimento da narrativa.

Mas o fator mais difícil pode muito bem ter sido o próprio Davis. O "Príncipe das Trevas", conforme ele se tornou conhecido, falou tanto sobre raça e preconceito que alguns dos seus conhecidos acabaram acreditando que quem nutria preconceitos raciais era ele (embora, como Troupe observou, Davis jamais se negou a trabalhar com músicos brancos. E ele teve romances com várias mulheres brancas). Davis muitas vezes se apresentava de costas voltadas para a platéia, e para os fãs que ousavam se aproximar dele.

Famoso por gostar de automóveis de linhas arrojadas e de mulheres sensuais, Davis levou uma vida pessoal caótica, que incluiu o vício em heroína e cocaína, a cafetinagem e os abusos conjugais. "Eu de fato tive que muitas vezes correr para salvar a minha vida", lembrou em uma entrevista por telefone a ex-mulher do artista, Frances Davis. Ex-dançarina da Broadway, ela disse que a sua própria carreira desmoronou depois que abandonou o musical de sucesso "West Side Story" porque Davis lhe disse que "uma mulher precisa ficar com o seu marido". Agora Frances afirma que qualquer versão cinematográfica precisa ser fidedigna no que diz respeito tanto ao talento quanto aos acessos de cólera de Miles Davis. "É preciso que se aborde integralmente o seu gênio, assim como as suas limitações", disse ela.

Um filme sobre Davis, no qual Wesley Snipes seria o astro principal, foi tentado pela primeira vez pelo ex-diretor-executivo da CBS Records, Walter Yetnikoff, que encorajou Davis a gravar o seu famoso álbum de jazz-rock "Bitches Brew" em 1970. Yetnikoff adquiriu os direitos sobre o legado musical de Davis, assim como sobre a sua autobiografia. "Mas eu não sabia nada sobre certas coisas", disse Yetnikoff em uma entrevista. "Por exemplo, eu não tinha idéia de como fazer um filme".

Quando ele abriu mão desses direitos, o produtor Marvin Worth ("Lenny", "Malcolm X") apresentou o projeto à Columbia Pictures. Mas esse plano estancou após a morte de Worth, em 1998.

Dois anos depois, Troupe publicou o seu próprio livro sobre Davis, e os direitos sobre a obra foram adquiridos por Langlais. Tanto para o produtor quanto para o escritor, o projeto representa o capítulo final de uma jornada que teve início mais de duas décadas atrás, quando Langlais, que à época era o editor-executivo da revista "Spin", determinou que Troup entrevistasse Davis.

Em 1954 Troupe tinha 14 anos de idade, e foi naquele ano que ele conheceu Davis em um clube de jazz no centro de Saint Louis (Troupe é de Saint Louis; Davis é o nativo mais famoso da zona leste de Saint Louis). No final dos anos 70 os dois homens tiveram novamente um encontro breve, intermediado por um amigo mútuo, quando ambos moravam na região de Upper West Side de Manhattan.

Troupe recebeu a pauta da "Spin" em 1985, e foi até a casa de Davis "com um pequeno gravador nas mãos". O encontro começou meio mal, quando Davis perguntou: "Como é que o seu cabelo ficou desse jeito?", e começou a brincar com uma das tranças rastafári de Troupe. O escritor deu um tapa na mão de Davis. "Eu lhe disse que estava lá para fazer a entrevista, e não para ter o meu espaço individual invadido", conta ele. "E Miles pareceu bem chocado." Davis praguejou bastante, mas depois se acalmou e perguntou a Troupe o que este queria saber.

"E eu passei dez horas com ele", conta Troupe. "Então, voltei no dia seguinte e fiquei por lá durante mais dez horas. Eu disse a minha mulher que algo de interessante estava ocorrendo". Troupe acabou redigindo uma matéria de 45 páginas, que a "Spin"publicou em duas partes bem longas. No ano seguinte Troupe recebeu uma ligação de um representante da Simon & Schuster: Miles Davis queria que ele trabalhasse na sua autobiografia, o que solidificou um relacionamento que duraria até a morte de Davis, em 1991, aos 65 anos.

Atualmente Troupe percebe que a imagem iracunda freqüentemente associada a Davis na verdade mascarava uma alma gentil. "Miles Davis não era aquele monstro que todos pintaram", garante Troupe. "Ele era um cara muito tímido que criou um personagem, uma espécie de personagem hostil, de forma a manter as pessoas distanciadas dele."

Troupe descreveu Davis com freqüência como sendo um "negro não reconstruído", orgulhoso e que não se desculpava. "Miles não desejava sorrir. Ele não seria um Louis Armstrong", diz Troupe. "E quanto a Miles ser racista, a última mulher com quem ele ficou era judia."

A mulher era Jo Gelbard, uma artista que ensinou Davis a pintar. Mais tarde eles fizeram trabalhos em conjunto (acrílicos e mídia mista) e se tornaram amantes. Ao morrer, ele estava nos braços dela. Mais tarde os seus herdeiros tentaram se apoderar dos quadros que os dois pintaram juntos. Após sete anos de disputa judicial, ela acabou vencendo. O relacionamento de Gelbard com Davis é o assunto de um livro que ela atualmente está vendendo na Internet.

"A alma de Miles era bem maior do que aquilo que foi descrito em outros livros", disse Gelbard em uma entrevista por telefone de Nova York. Ela está apreensiva quanto ao filme de Hollywood. "Se eles não encontrarem o verdadeiro brilho de Davis, o filme será apenas mais uma porcaria sobre negros drogados da noite do Harlem."

"Sim, ele era complexo", afirmou Gelbard. "E eu não nego que era violento". Mas ela acrescentou: "Havia perdão e discernimento na sua alma. É hora de dizer que ele era um gênio e agradecer pela sua música".

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