UOL Notícias Internacional
 

22/11/2006

Ao diminuir o ritmo da sua turnê, Bob Dylan tenta rotas diferentes

The New York Times
Jon Pareles

em Nova York
Será que Bob Dylan anda ouvindo hip-hop? Foi essa a impressão que se teve quando o artista interpretou velhas canções românticas no City Center, na noite da última segunda-feira. Enquanto a sua banda tocava folk-rock, ele cantava "Boots of Spanish Leather" em explosões de staccato de uma nota só, comprimindo sílabas antes das mudanças de toadas. E ele recitou os versos de "Tangled Up in Blue" como se estivesse fazendo um teste de locução, de forma clara e superficial. Esses antigos sucessos foram massacrados.

A apresentação no City Center encerrou a turnê de outono de Bob Dylan. Foi um concerto em uma pequena sala de apresentação, após uma série de shows maiores, mas Dylan não convidou a platéia a se aproximar mais. A sua voz foi geralmente brusca: especialmente devido ao desgaste, mas também por escolha do artista, já que ele demonstrava com freqüência ser capaz de saltar para uma tonalidade mais clara e suave. Ele só se dirigiu à platéia ao apresentar a banda ao final do concerto.

Bob Dylan estava saboreando as versões ao vivo de canções do seu mais recente álbum, "Modern Times" (Columbia), já que não interpreta mais músicas antes que estas sejam lançadas em CD. Dylan modifica as suas canções todas as vezes em que as interpreta, às vezes aplicando abordagens vocais arbitrárias - ele adotou um estilo mais voltado para a percussão durante a maior parte do show -, e outras vezes revelando algumas sugestões de significado. Na noite de segunda-feira, ele abriu o concerto com as novas músicas.

As melodias de "Modern Times" podem ser tão familiares quanto os acordes de blues, ou tão estranhas quanto um sonho febril. Elas são costuras loucas de lamentos de apaixonados e reflexões de velhos excêntricos, de promessas espirituais e ressentimentos arquetípicos. Esses sons têm início com ritmos clássicos de blues. Eles citam poemas antigos (os investigadores da obra de Dylan encontraram trechos de Ovídio e do poeta norte-americano do século 19, Henry Timrod). Assim como muitos blues tradicionais, estes novos de Dylan não dizem respeito a narrativa, mas sim a estilo: cansaço, amargor, ressentimento, grosseria e obstinação. Na segunda-feira à noite, ele cantou mais sobre apocalipses: enchentes, guerras e colapsos políticos - o programa incluiu "Senor (Tales of Yankee Power)" - com um toque de mágoa.

A atual banda de Dylan é mais tosca do que outros grupos que o acompanharam desde que ele interrompeu o seu hiato como compositor na década de 1990. Ela fica melhor quanto interpreta blues conhecidos como "Highway 61 Revisited" e interpreta refrões como fez com "Rollin' and Tumblin" - que foi aprimorada no que diz respeito à guitarra desde que Bob Dylan deu início à turnê - e uma alterada "It's Alright, Ma (I'm Only Bleeding)".

A banda também se meteu com o rock pesado celta, misturando banjos e batidas rítmicas em "High Water" e na nova "Ain't Talkin'". E ela também encontrou um estilo contemplativo: em "Nettie Moore", a balada assimétrica e profundamente solitária de "Modern Times", que gira em torno de uma sombria combinação de baixo e bateria e de notas do órgão elétrico de Dylan, o instrumento que ele tocou durante a turnê. O órgão fez com que "When the Deal Goes Down", uma outra balada de "Modern Times", adquirisse uma conotação quase sarcática.

O concerto foi uma outra noite na vida de uma turnê consistente: alguns sucessos, algumas omissões, alguma exploração e alguns gracejos.
Interpretando músicas antigas, mas explorando outras novas, Dylan se dispôs a viver o presente, sem olhar para trás. "Vocês acham que o meu apogeu passou", cantou ele. "Vamos ver o que tenho aqui".

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