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23/11/2006

Não é preciso ter pena: ainda há um roqueiro alinhado com seu visual

The New York Times
Guy Trebay

em Atlantic City, EUA
Em uma era de carreiras musicais criadas no espaço virtual democrático do MySpace, onde membros de bandas quentes se vestem como se fossem assistentes de escritório, os dias do rock como espetáculo e do músico de rock como astro de circo estão inquestionavelmente contados.

Mesmo assim, os shows de rock ainda têm um deus em Mick Jagger. Quando os Rolling Stones fizeram esta cidade vibrar na semana passada, na última perna da turnê do Bigger Bang, a apresentação de Jagger foi uma aula no gênero.

Flexível como um menino, Jagger parece desafiar a idade - pelo menos abaixo do quadril. Marcado e enrugado, seu rosto trabalhado pelo tempo trai cada segundo de seus 63 anos, e isso torna ainda mais impressionante quando ele pula e faz pose como um se fosse um envelhecido Peter Pan, curioso e belo.

O show dos Stones se baseia na persona de Jagger e é ele quem inspira os fãs a viajarem grandes distâncias, gastarem o dinheiro do aluguel nos ingressos e seguirem os Stones até os confins do mundo.

A música também os atrai, é claro, mas há poucas apresentações tão cativantes quanto o brio quase vaudevilesco de Jagger, sua apresentação excêntrica e seu estilo dolorosamente singular. "Mick Jagger vive no limite do estilo desde 1966", diz Joe Levy, editor executivo da revista Rolling Stone. "O limite muda, e ele também."

Mesmo uma viagem apressada pelos arquivos da moda deixa claro que toda vez que estilistas tão diferentes quanto Roberto Cavalli e Tommy Hilfiger invocam algum astro de rock emblemático, "ícone" ou "rebelde" do rock, Jagger é o ponto de referência.

Bowie tinha estilo. Bryan Ferry ficava bem de terno. Mas foi Jagger que se enfeitou em uma casaca de Mephistopheles em Altamont; vestiu macacões Ossie Clark até o umbigo; e que apareceu em uma jaqueta neoclássica grega para ler Shelley em um show depois da morte de Brian Jones.

Foi Jagger que exibiu calças bufantes desenhadas por Giorgio Sant'Angelo, "coisas loucas, coisa belas", como disse na semana passada Tony King, coordenador de mídia de Jagger há quatro décadas. "Desde o início, os Stones tinham seu próprio visual", explicou King antes de viajar de Manhattan para Nova Jersey para o show Bigger Bang. "Eles eram muito diferentes dos Beatles, quatro sujeitos usando os mesmos ternos."

Na verdade, os Stones se vestiam identicamente em sua primeira encarnação, com os ternos combinando -uniforme das bandas de rapazes da Invasão Britânica. Provavelmente, o fato de eles terem dispensado o uniforme para se vestirem como brutos ou dândis ou mulheres deve-se mais a Jagger, que a vida toda foi um cabide de roupas. "Foi em 1969, quando os Stones fizerem 'Gimme Shelter', que de repente houve uma necessidade de ter um visual para a turnê", disse King.

Também foi mais ou menos nessa época que Jagger e os membros da banda começaram a usar lápis nos olhos e brincos -visual que inspirou Johnny Depp ao montar o personagem Jack Sparrow, uma homenagem ao Keith Richards como dândi, em seu "Piratas do Caribe", uma caracterização que ajudou a franquia de milhões de dólares de um cartum cinemático sem graça.

Em 1975, quando Karen Durbin escreveu um artigo de capa da Village Voice sobre os Rolling Stones, ela não foi a única a salientar os jogos de gênero que Jagger já estava fazendo por meio das roupas. "Ele era muito, muito andrógeno", disse Durbin, hoje crítica de filme da Elle, e fã tão ávida que alega ter visto os Stones 22 vezes. "Mas ao mesmo tempo ele era um pouco assustador, um pouco duro e indiscutivelmente masculino." As dualidades de Jagger no palco não eram acidentais, disse Durbin. "Era tudo deliberado."

Hoje em dia, é claro, a indefinição sexual é lugar comum no ramo da música. Em algum ponto de suas vidas, todos em uma banda já usaram maquiagem, exceto talvez as mulheres.

E enquanto grupos tão diferentes quanto os Libertines, ou os Scissor Sisters, ou os Strokes ou os Killers ou os Hives ou o My Chemical Romance continuam a prestar homenagens, nem sempre irônicas, ao astro como libertino que virou dândi, o maior movimento no ramo da música é para longe do estilo teatral dos Stones para algo mais neutro, amadorístico e anônimo.

"Nunca nos vestiríamos todos. Não saio muito do meu caminho" para me vestir, disse por telefone na semana passada, Mitch DeRosier, músico da banda indie Born Ruffians, de Portland Oregon, onde o grupo estava em turnê com Hot Chip.

Quase qualquer banda criada na era "emo" diz mais ou menos a mesma coisa: "Gosto dos Rolling Stones e sou enorme fã da sua música. Mas o jeito de pavão sexual não é a imagem que escolho como importante para mim", disse Seth Olinsky, músico da banda indie de Brooklin exuberantemente desalinhada Akron/Family.

Como expressão de estilo, o grunge é citado tão liberalmente atualmente que se tornou marco da moda. No entanto, comparado com o visual atualmente preferido pelas jovens bandas, o grunge tornou-se quase barroco.

Enquanto isso, a apresentação de Jagger também foi refinada, e ele se tornou uma essência do astro de rock: jeans estreitos e jaqueta curta pelo estilista Nicolas Ghesquiere da Balenciaga; camisas justas brilhantes pelo estilista Hedi Slimane de Dior.

"No rock, você não vê mais o pessoal disposto a se arriscar com a moda", diz Dan Peres, editor de Details, revista cuja missão editorial basicamente descente dos experimentos sociais e da alfaiataria de Jagger. "Atualmente, se você tiver uma boa página de MySpace, pode prescindir de apresentações e vender toneladas de discos sem nem ter um selo, então ninguém quer fazer uma declaração de estilo que possa alienar possíveis fãs", diz Peres.

Ninguém quer subir no palco, como Jagger fez cada vez que a banda tocou "Sympathy for the Devil" na turnê do Bigger Bang -que termina neste final de semana em Vancouver- com um casaco e chapéu combinando de Miuccia Prada, feitos inteiramente de penas. Talvez porque ninguém sem sua história poderia vestir um casaco de penas de galo e não parecer uma piada.

"Lá no início, fazíamos a mesma coisa" que as bandas jovens fazem hoje, explicou Jagger em entrevista nesta semana. "Usávamos roupas muito similares às que usávamos fora do palco, porque não tínhamos dinheiro, e esse era o visual."

Foi só no final dos anos 60, quando os Rolling Stones estavam tocando em espaços para 50.000 pessoas, que a banda começou, disse ele, a usar coisas mais "chamativas", disse ele. "Se eu estivesse começando agora, ia me vestir menos, mas ainda ia querer ter uma forma distinta de vestir."

"Não importa se você está começando ou se faz isso há anos", disse Jagger. "Não tem sentido usar um traje tremendo se você vai tocar em uma boate para 500 pessoas. E se você tiver tocando para 50.000, não há sentido em vestir farrapos." Deborah Weinberg

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