UOL Notícias Internacional
 

24/11/2006

Funeral de líder assassinado vira comício

The New York Times
Michael Slackman

em Beirute, Líbano
Centenas de milhares de pessoas foram à Praça dos Mártires no Líbano na quinta-feira (23/11), transformando a missa fúnebre do ministro assassinado Pierre Gemayel em um comício político expondo ódios e divisões que paralisaram o Estado e ameaçam alimentar um ciclo de violência crescente.

Shawn Baldwin/The New York Times 
O sentimento dos que acompanharam o funeral de Gemayel era de raiva, mais que de luto

Desde cedo levas de pessoas chegavam à praça, cantando lemas e maldizendo o presidente da Síria, Bashar Assad, maldizendo o líder da Hezbollah, Hassan Nasrallah e maldizendo o líder cristão general Michel Aoun, que aliou seu partido à Hezbollah.

Era um ambiente de raiva, mais do que de luto - enquanto o caixão coberto pela bandeira de Gemayel era levado em procissão de sua casa na aldeia de Bikfaya para a Igreja de St. George no centro de Beirute, a 32 km de distância. "Nasrallah", gritava um pequeno grupo de jovens, "os sunitas vão cavar seu túmulo!"

Gemayel, que veio de uma das famílias cristãs mais proeminentes e ativistas do Líbano, foi morto em uma emboscada na terça-feira enquanto passava de carro pelo bairro cristão nos limites de Beirute. Ele tinha 34 anos, era casado e pai de dois filhos pequenos. Seu avô de mesmo nome, Pierre Gemayel, fundou o Partido Phalange, organização militante religiosa nacionalista que foi alinhada a Israel; seu pai, Amin, foi presidente do Líbano nos anos 80.

Ele foi o quinto político anti-Sírio assassinado desde a morte do ex-primeiro-ministro Rafik Hariri, em fevereiro de 2005, e seus partidários imediatamente culparam a Síria e seus aliados no Líbano.

Na praça, um jovem levava um cartaz de Aoun que perguntava "quem dividiu" a unidade cristã. Era mais do que Fadey Ghazehli, 21, podia agüentar. Aproximou-se, pegou o cartaz e cuspiu nele. "Ele cuspiu na linhagem cristã", gritou Ghazehli. "Ele costumava dizer que ia desarmar a Hezbollah. Agora está com a Hezbollah."

A Praça dos Mártires, por um breve momento na história do Líbano, tornou-se símbolo da união nacional, local da chamada Revolução do Cedro. Hariri, líder sunita, tinha sido assassinado um mês antes com uma bomba em seu carro. No dia 14 de março dezenas de milhares de pessoas lotaram praça exigindo que a Síria removesse suas tropas e seu domínio do Líbano.

Sob pressão, e sob suspeita, a Síria retirou-se sim, e uma coalizão liderada pelo filho de Hariri, Saad, assumiu o nome de 14 de março em homenagem ao dia. Ela conseguiu a maioria nas eleições parlamentares e assumiu o controle do governo.

Agora, a Praça dos Mártires é novamente um símbolo de morte, do destino do Líbano como campo de batalha de influências estrangeiras e, mais preocupante para o Estado, de divisões entre seu povo. Uma das características mais proeminentes da praça é a tenda branca esvoaçante onde fica a tumba de Hariri. Cobrindo a fachada de vidro e aço de um prédio próximo, do jornal Na Nahar, há um retrato enorme de Gebran Tueni, editor do jornal e membro do parlamento, morto em dezembro último.

Na quinta-feira, havia um novo retrato pendurado na praça -do jovem Gemayel. Um banner de três andares, com seu rosto redondo, traços suaves e seu tufo de cabelo grosso preto, estava pendurado no alto de um guindaste. Também havia banners culpando a Síria e seus aliados pela morte. Um deles dizia: "Enfia sua guerra civil." "Líbano pela vida", dizia outro. Outro transformava o nome de Aoun em um expletivo.

No dia anterior, milhares de pessoas visitaram a família e o caixão em Bikfaya. A aldeia é símbolo das divisões que desafiam a unidade libanesa. Na entrada, há uma estátua ao estilo soviético de Pierre Gemayel, fundador do Partido Phalange e avô do ministro assassinado. Durante a guerra civil, a Phalange armou a maior milícia, lutou para expulsar os palestinos do Líbano e foi injuriada pelos muçulmanos.

O caixão de Gemayel, coberto com a bandeira da Phalange, foi primeiramente levado aos escritórios do partido em Beirute. Depois foi levado ao local da tumba de Hariri e à Igreja de St. George para a missa funérea. O enterro será em Bikfaya.

Tudo foi programado com detalhe, politicamente sintonizado, com um grau de competência que vem da prática, depois de tantos assassinatos. Havia broches do rosto do morto. Lenços com a imagem de Hariri. Muitas bandeiras.

A tumba de Hariri, desde sua morte, tornou-se ponto de comícios de seu filho, Saad, e seus aliados políticos. Deborah Weinberg

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