UOL Notícias Internacional
 

25/11/2006

Quando se trata dos benefícios do vinho à saúde, a indústria americana está amarrada

The New York Times
Lawrence M. Fisher

em Napa, Califórnia
A indústria do vinho certamente adorou as recentes revelações de que um composto no vinho tinto melhora a saúde e a resistência de camundongos de laboratório. Então por que não está se manifestando a respeito?

Porque não pode. A indústria há muito está algemada por leis estaduais e federais que desencorajam a propaganda dos benefícios do vinho, com algumas destas restrições datando da revogação da Proibição em 1933.

"Sim, nós todos gostaríamos de explorar isto e faremos o que pudermos, mas estamos muito restritos", disse Michael Mondavi, fundador e presidente da Folio Fine Wine Partners, uma produtora e importadora de vinhos daqui.

Como uma indústria que é regulada de perto pelo Alcohol and Tobacco Tax and Trade Bureau, disse Mondavi, "é contra a lei qualquer produtor de bebida alcoólica fazer qualquer alegação de benefícios à saúde, independente dos fatos ou veracidade".

"Até que a lei seja mudada de alguma forma para que possamos falar dos aspectos positivos que são comprovados", disse Mondovi, o filho mais velho do famoso produtor de vinho Robert Mondavi, "nós temos que ficar sentados sobre nossas mãos e aguardar que outros divulguem a história".

Um camundongo comum de laboratório normalmente correrá 1 quilômetro em uma roda de corrida antes de desmaiar de exaustão, mas os camundongos que receberam resveratrol, um componente menor do vinho tinto e outros alimentos, conseguem correr o dobro, segundo uma pesquisa altamente divulgada, anunciada na semana passada por Johan Auwerx e colegas do Instituto de Genética e Biologia Molecular e Celular em Illkirch, França.

Os camundongos que receberam resveratrol também apresentaram músculos energizados e um batimento cardíaco reduzido, como em atletas treinados, e conseguiram viver mais mesmo consumindo uma dieta pobre.

A notícia foi a melhor publicidade gratuita que a indústria do vinho recebeu desde o final de 1991, quando Morley Safer ergueu uma taça de vinho tinto e disse aos espectadores do programa "60 Minutes", da rede "CBS", que os franceses tinham menos problemas cardíacos que os americanos apesar de uma dieta mais rica em gordura.

O chamado "paradoxo francês" provocou uma alta na venda dos vinhos tintos que nunca recuou, em parte superando a preferência americana pelos brancos, que são considerados mais agradáveis aos novos bebedores de vinho.

Nos Estados Unidos, a participação de mercado do vinho tinto cresceu para quase 42% em 2005, em comparação a meros 17% em 1991, segundo dados compilados pela ACNielsen.

E o vinho em geral recebeu um novo empurrão com a publicação em 2004 de "Mulheres Francesas Não Engordam", de Mireille Guiliano, a executiva-chefe da Clicquot Inc., produtora do champanhe Veuve Clicquot, que sugeriu que o consumo de vinho, tinto ou branco, poderia contribuir para uma forma esbelta.

É claro, diferente de Guiliano e Safer, que falavam sobre pessoas beberem uma taça ou duas por dia, a mais recente pesquisa se apóia em dados envolvendo camundongos que receberam uma droga em dosagem equivalente a beber centenas de copos de vinhos. Mas analistas da indústria disseram que a distinção provavelmente passará despercebida para a maioria dos consumidores, que ouvirão principalmente o reforço de uma mensagem, já familiar, de que o vinho tinto faz bem para a saúde.

"A população que está envelhecendo lerá isto e pensará: 'Talvez eu devesse beber mais vinho tinto do que outra coisa'", disse Jon Fredrickson, um analista da indústria de vinho para a Gomberg, Fredrickson & Associates, uma empresa de consultoria em San Francisco. "Eu prevejo um crescimento real no último trimestre do ano."

Fredrickson disse que o consumo de vinho também se beneficiou com o filme "Sideways - Entre Umas e Outras" de 2004, e com a decisão da Suprema Corte, no ano passado, que permitiu às vinícolas venderem diretamente aos consumidores além das divisas estaduais. No filme, o amor do personagem principal por pinot noir ajudou a provocar um aumento de 70% nas vendas desta variedade em 2005, enquanto seu desdém pelo merlot provavelmente contribuiu para a queda no interesse deste vinho tinto.

Em 1991, alguns produtores de vinho agressivos buscaram anunciar os benefícios do vinho à saúde, mas foram rapidamente reprimidos pelo Birô de Álcool, Tabaco e Armas de Fogo (Batf), que na época regulamentava o setor no nível federal. Mas a entidade setorial, a Wine Institute, orientou contra a promoção do vinho como bebida saudável.

Mondavi, que na época estava envolvido na direção dos negócios da família, a Robert Mondavi Corp., foi um dos que se irritaram com as restrições. "Nós nos desligamos do Wine Institute porque queríamos dizer que o vinho faz bem e é bom para você", disse ele.

"Nós colocamos um rótulo na parte de trás dizendo que o vinho faz bem à saúde e é recomendado na Bíblia", acrescentou. "O Batf nos enviou uma carta de embargo e nos fez mudar o rótulo, apesar de nossa ida a Washington para mostrar-lhes a evidência científica e ler as passagens da Bíblia."

O Wine Institute ainda orienta seus membros a não promoverem o vinho como bom para a saúde e atualmente há poucos rebeldes. Isto se deve em parte ao medo de processos legais, em parte devido à grande consolidação que transferiu a propriedade de muitas vinícolas das famílias fundadoras para conglomerados corporativos.

Aos 93 anos, Robert Mondavi pode ser um testamento vivo do efeito de longevidade do vinho, mas a vinícola que leva seu nome agora é de propriedade da Constellation Brands, uma empresa de capital aberto de Fairport, Nova York.

E a Constellation está menos inclinada a lutar contra moinhos de vento que Mondavi e sua família produtora de vinhos. "A quantidade desta substância que você teria que ingerir é tão grande que talvez seja impossível beber tanto vinho tinto", disse Michael Martin, vice-presidente de comunicações corporativas da Constellation.

Thomas Matthews, editor executivo da revista "Wine Spectator", disse não estar ciente de nenhum vinho explorando explicitamente os recentes estudos, apesar da Bodega Catena Zapata, uma vinícola argentina, ter publicado relatórios mostrando que seus vinhos possuem uma maior concentração de resveratrol que uma seleção de vinhos tintos da França, Espanha, Itália, Chile e Austrália.

"O paradoxo francês apontou para os efeitos positivos de seres humanos beberem quantidades moderadas de vinho, mas estes estudos do resveratrol se tratam de um composto isolado ministrado a animais de laboratório em altas concentrações", disse Matthews. "Eu acho que é muito pouco sobre o que se apoiar."

Qualquer impacto das publicações mais recentes a respeito do resveratrol ainda não apareceu nos números de vendas, disse Danny Brager, um analista da indústria de vinho da ACNielsen. "É muito cedo", ele disse. "Nós temos uma atualização de nossos dados chegando ao final de novembro e estou tão curioso quanto você." George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,95
    3,157
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h28

    -1,26
    74.443,48
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host