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26/11/2006

'Point to Point Navigation': luminar desdenhoso ofusca astros

The New York Times
Janet Maslin
O título de "Point to Point Navigation" (navegação ponto a ponto) de Gore Vidal se refere ao feito perigoso de conduzir um navio sem a ajuda de uma bússola. Também diz algo sobre o percurso em ziguezague da vida ricamente agitada de Vidal. E sugere uma visão de uma viagem marítima na qual figuras célebres dos reinos da arte e da política servem como marcos. Apesar dele gotejar de forma cativante os nomes destes outros luminares, Vidal reserva para si mesmo o papel importante de Estrela do Norte.

Como um livro de memórias (seu segundo, após "Palimpsesto"), "Point to Point Navigation" é tão cheio de rodeios quanto seu título indica. Isto é um elogio: é preciso um narrador hábil para saltar de forma tão divertida entre assuntos aparentemente não relacionados sem perder de vista o destino final de cada caso.

Caso tivesse sido organizado de forma mais rigorosa, este livro teria sofrido grandes lacunas e inconsistências ficariam aparentes. Da forma como está, o imenso charme de Vidal transforma o superficial e indireto em virtudes inesperadas. Como exemplo, entre as muitas fotos incluídas em "Point to Point Navigation" há uma foto lisonjeira (é claro) de Vidal, em seus arrojados 30 e poucos anos, pairando sobre "Claire Luce", como a legenda soletra erroneamente seu primeiro nome. (Era Clare.)

Ambos estão elegantes em trajes de noite e ela olha para cima para ele, extasiada. Mas Luce não é mencionada em qualquer parte do texto do livro. E estão em uma festa em 1961 que Vidal não descreve. O que esta foto está fazendo aqui? O sentido, se é que há um, é que Vidal foi presidente do júri do Festival de Cinema de Veneza quase 30 anos depois. Esta foto foi tirada naquele que foi o estúdio de Robert Browning. "Cada um o citou equivocadamente", disse a legenda. E é isto: uma memória livre, breve, enganadora e divertidamente convoluta. Sua simples irrelevância em relação ao restante do livro é o que a torna tão perfeita.

"Eu observei recentemente a um gravador de passagem que já fui um romancista famoso", escreve Vidal com o típico acanhamento no início do seu livro. "Eu ainda estou aqui, mas a categoria não." Este tom de lamento zombeteiro é o que dá a "Point to Point Navigation" verdadeiro lastro e impede as memórias desgarradas do autor de se afastarem em todas as direções. Apesar do ritmo prolífico da produção de Vidal poder significar que há muito mais por vir, ele compôs este volume em um espírito de despedida. Ele partirá em uma nota de graça eloqüente caso este realmente venha a ser seu último.

"Aqueles de nós cujas carreiras começaram no século 20 agora estão rapidamente fugindo do 21, por um bom motivo", escreve Vidal, que diz estar com a saúde frágil e no mês passado completou seu 81º aniversário. Ele considerou chamar este livro de "Entre Obituários" e, novamente, por um bom motivo.

Suas passagens mais comoventes descrevem a morte de seu amado companheiro por 53 anos, Howard Auster. Vidal inclui uma foto de si mesmo perto do que será seu túmulo compartilhado. Auster está enterrado no Rock Creek Cemetery em Washington, "como estarei no devido tempo", escreve Vidal brejeiramente, "quando eu descansar de minha agenda movimentada".

O espírito de adeus se estende a muitos amigos e colegas perdidos, resumido nos sentimentos que veriam entre afetuosos e felinos de Vidal, de forma que Susan Sontag é lembrada como "a vencedora de muitas rusgas em sua longa campanha contra o esquecimento". Se há um tom cáustico, competitivo, em sua avaliação da obra dela, também há um apreço irônico com o local de descanso final dela em Paris, perto dos de Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre.
"Nada mal para alguém formada em Hollywood High", ele escreve.

Qualquer um com ligações com Roosevelt-Kennedy-Fellini-Earhart-Garbo-Capote-Tennessee Williams (e muitos mais) poderia transformar sua autobiografia em algo razoavelmente glamouroso. Mas Vidal, que não precisa se esforçar para fazer estas referências, consegue tanto explorar como ofuscar a todas. Sua sagacidade, da qual Vidal se gaba tanto quanto outros, é de longe o atributo mais atraente deste livro. E quando se trata de entretenimento contencioso, nenhum alvo está a salvo - certamente não este jornal, pelo qual ele nutre uma aversão cômica, que queima lentamente.

Um dos grandes dons estilísticos de Vidal é sua capacidade de estruturar seus pensamentos da forma como outros fabricam guarda-chuvas. Considere esta lenta abertura sobre "uma dama transatlântica" chamada Alice Pleydell-Bouverie: "Ela era ao final mais inglesa que americana e vivia em uma espécie de solar inglês próximo da vila de Rhinebeck, às margens do Rio Hudson, não distante de seu incessantemente irritável e irritante irmão Vincent Astor, que era dono de grande parte de Nova York". Em um microcosmo, isto ilustra como todo o livro funciona. Vidal começa com pequenas observações que crescem até ascenderem à devida grandiosidade - e grandeza.

Como qualquer homem que pode escrever sobre si mesmo que "ao contrário da lenda, eu nasci de uma mulher mortal, e se Zeus me gerou, não há registro no Cadet Hospital na Academia Militar dos Estados Unidos", Vidal está bem interessado em sua própria lenda. Ele passa a parte menos interessante deste livro fazendo objeções esquivas a críticos e biógrafos, casualmente mencionando que um grande número deles tem dedicado grande interesse à sua vida e obra. Mas se uma acadêmica escreveu que Vidal "explora as congruências entre as críticas do determinismo genético, genital e tecnológico", ele não precisa necessariamente repetir suas palavras.

No final ele é sua própria melhor propaganda, com uma vida digna de observações cortantes e insights combativos e afiados a seu crédito.
Adicione vaidade, arrogância e audácia na mesma escala, e você tem um homem cujo novo livro de memórias e imperdível. Certamente ele seria o primeiro a concordar. George El Khouri Andolfato

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