UOL Notícias Internacional
 

27/11/2006

Desescolarização: sem escola, e a criança escolhe o que aprender

The New York Times
Susan Saulny
Em Chicago
Nos dias de semana, durante aquele que é o horário escolar normal para a maioria dos alunos, as crianças da família Billing fazem o que bem entendem. Em uma tarde recente elas passaram o tempo fazendo algazarra, sem nenhuma disciplina ou aula, na sua residência no bairro de North Side, em Chicago.

Hayden Billings, de quatro anos, colocou uma caixa sobre a cabeça e se divertiu marchando pela casa. A sua irmã, Gaby, de nove, contou histórias sobre mulheres guerreiras medievais, enquanto Sydney, de seis, bebeu chocolate quente e brincou com Dylan, o bebê da família.

Em um ambiente escolar tradicional, tal período de total liberdade seria provavelmente chamado de recreio. Mas para Juli Walter, a mãe das crianças, trata-se de "aprendizado liderado pelas crianças", ou "desescolarização", algo que ela considera como a melhor forma de aprendizado em casa.

Sally Ryan/The New York Times 
Sydney Billings, 7, desenvolve seu próprio aprendizado ou "desescolarização"


"Descobri cedo que quando faço as coisas pelas quais me interesso, aprendo muito mais", explica Walter.

À medida que aumenta nos Estados Unidos o número de crianças que estudam em casa - cerca de 1,1 milhão em todo o país - alguns pais como Walter estão optando por aquilo que talvez se constitua na aplicação mais radical das idéias desse movimento. Elas estão "desescolarizando" os filhos, uma filosofia que pode ser definida em linhas gerais pela rejeição dos fundamentos básicos da educação convencional, incluindo não só as instalações físicas da escola, mas também as aulas, os currículos e os livros escolares.

Na sua encarnação norte-americana moderna, este é um dos mais antigos métodos de ensino domiciliar. Mas ele é também o mais indefinido, sendo um motivo de preocupação crescente para algumas autoridades educacionais e cientistas sociais.

"Para mim não está claro como é que eles farão a transição para um mundo estruturado e atenderão às exigências mais básicas para aprenderem a ler, a redigir e a fazer operações matemáticas", diz Luis Huerta, professor de políticas públicas e educação da Faculdade de Pedagogia da Universidade Colúmbia, cuja pesquisa de âmbito nacional inclui a abordagem da questão do ensino do ambiente doméstico.

Há poucos dados sobre os resultados educacionais da desescolarização, e não se sabe bem se as milhares de crianças desescolarizadas têm desempenho melhor ou pior do que os alunos tradicionais. Não existem sequer dados sobre a quantidade de crianças que estudam em ambiente não escolar, embora muitos especialistas sugiram que esse número está aumentando.

Aqui em Chicago, um grupo denominado Northside Unschoolers (algo como "Desescolarizados de Northside") conta com cem famílias registradas na sua lista online. E existem organizações similares de costa a costa - incluindo a Rede de Desescolarizados da Baía de São Francisco; a Desescolarizados Ilimitada, em Guilford, Connecticut; e a Desescolarizados de Ozarks, que atua em Missouri, Oklahoma e Arkansas - embora seja difícil determinar o número exato de famílias às quais essas instituições prestam serviços.

Os adeptos dizem que a rigidez do ambiente escolar e a educação liderada por professores tendem a limitar a curiosidade natural das crianças, fazendo com que estas ingressem na vida social sem um amor genuíno pelo aprendizado.

"Quando se pensa sobre a questão, chega-se à conclusão de que a maneira como as atividades são feitas na escola dizem respeito preponderantemente ao controle de multidões", diz Karen Tucker, mãe de três filhos, que mora em Siloam Springs, no Estado de Arkansas, e que pertence ao grupo Desescolarizados de Ozsarks. "Nós não imitamos o método da escola, porque rejeitamos a escola".

Sobre a proteção da legislação de educação doméstica, a desescolarização é legal em todos os Estados norte-americanos, embora alguns regulamentem essa atividade mais do que outros. A única exigência em comum é a de que todos os alunos atendam às regras relativas à participação compulsória.

Nos Estados que contam com as regulamentações mais permissivas - vários deles no meio-oeste, incluindo Illinois, Indiana, Kansas, Michigan e Nebraska - a idéia da desescolarização floresceu nos últimos anos, e as famílias formaram comunidades online, grupos de apoio baseados em bairros e redes sociais para as crianças.

Os membros de tais organizações formam uma frente unida contra críticas às vezes ferozes.

"Quando estamos em uma sub-cultura de uma sub-cultura, somos retratados com freqüência como uma família excêntrica, e as pessoas acreditam que aquilo que os especialistas dizem é a verdade única, em vez de perceberem que o ponto de vista alternativo possui algum mérito", diz Tucker.

Walter, uma instrutora de partos naturais, teve que lidar com a tensão de alguns dos seus colegas que adotam a linha didática tradicional.

"Às vezes as pessoas levam a coisa para o lado pessoal, dizendo, por
exemplo: 'Ah, então a escola não é boa para vocês?'", conta ela. "E aí eu respondo: 'Não, não. A questão é que a escola tradicional não funciona para a nossa família'".

Somente 25 Estados norte-americanos contam com exigências de avaliação dos alunos que estudam apenas em casa, de forma que é difícil para os pesquisadores obter uma amostra representativa de alunos para começar a responder às questões mais básicas relativas à desescolarização. E entre os que optam pelo ensino doméstico, os que defendem a desescolarização são os que mais rejeitam a idéia de provas padronizadas.

Tucker permitiu que o filho, Will, 13, fosse submetido a provas, mas ela se recusa a examinar as notas.

"Elas não fazem sentido para ele e muito menos para mim", afirma Tucker. "Se você vincula um número a uma criança, a sua opinião a respeito dessa criança muda, para melhor ou para pior".

As crianças da família Billings não recebem notas. Os finais de semana não são diferentes dos dias de semana, os verões não diferem dos invernos. Elas desenham, lêem ou brincam no quintal, ou então saem com a família para visitar bibliotecas, museus ou ginásios de esporte. Elas participam também de atividades extracurriculares e recebem aulas sobre assuntos com os quais os alunos das escolas comuns estão familiarizados. Mas nenhum deles jamais é visto dentro de uma sala de aula comum.

"Eu realmente não sei do que se trata, porque não vou à escola", diz Sydney, que afirma apreciar a vida como ela é. "Se eu fosse à escola, ficaria lá o dia todo e não teria tempo para estar com a minha mãe e fazer várias atividades divertidas".

Ao contrário daquela comunidade mais tradicional de pais que optou por ensinar os filhos apenas em casa, os desescolarizados tendem a não apresentar uma motivação religiosa. Eles simplesmente não aprovam a educação comum e decidiram reformular as suas vidas de forma a deixar que os filhos explorem os seus mundos, sem a mediação do relacionamento usual entre professor e aluno.

Tucker explica que se Will deseja pegar um livro, não há nenhum problema. Mas ela frisa que tal decisão precisa ser tomada por ele.

"As coisas importantes que precisamos conhecer são importantes por serem úteis", diz Tucker. "Todos nós desejamos levantar e aprender a andar porque esta é uma habilidade útil. Não é preciso que se seja um neurocirurgião para enxergar isso. Qualquer bebê conhece esse fato. Will nunca teve uma lição de leitura, mas ele lê aos sete anos. Eu digo às pessoas que ele demorou sete anos para aprender a ler porque todas as suas experiências nesse período conduziram ao aprendizado da leitura".

Walter diz que grande parte da matemática básica que as suas filhas aprenderam se deveu ao desejo delas de calcular o valor da mesada da qual precisariam para comprar as bonecas que constavam do seu catálogo favorito de brinquedos.

Cada criança recebe uma soma semanal que é depositada diretamente nas suas contas bancárias, e é então que tem início a atividade de soma e multiplicação. Essas aulas se estenderam, de forma casual e não traumática a questões como impostos e taxas de remessa por correio, algo que Walter vê como sendo um outro benefício da desescolarização.

"É algo que tem mais vínculo com o mundo real", diz Walter. "Quantas crianças terminam o segundo grau sem saber como preencher um cheque?".

O Departamento de Educação dos Estados Unidos fez a última pesquisa sobre ensino doméstico em 2003. Aquele estudo não envolveu perguntas sobre a desescolarização. Mas ele revelou que o número de crianças educadas em seus lares disparou, tendo aumentado 29%, chegando a 1,1 milhão, entre 1999 e 2003.

Os especialistas assumem que essa tendência ascendente continuou, e alguns temem que a população em geral não tenha consciência da abordagem flexível desse movimento quanto à aprendizagem.

"À medida que as opções quanto ao ensino aumentam e cresce a educação domiciliar em geral, esse é um daqueles modelos quanto ao qual a população necessita ter consciência já que as pessoas que estão se engajando nessas formas radicais de didática fazem tal coisa legalmente", diz Huerta, da Universidade Columbia. "Caso o público e os elaboradores de políticas não sintam que essa seja uma forma de ensino capaz de formar cidadãos produtivos, a população deverá optar por promover as correções necessárias".

Pat Farenga, escritora e defensora da desescolarização, diz que os temores são infundados.

"Uma crítica que ouço constantemente é a de que as crianças não serão preparadas para o mundo real", diz Farenga. "Isso é ridículo. O que estamos fazendo é exatamente tirá-las da escola e inseri-las no mundo real. Não se trata de isolá-las".

Peter Kowalke, 27, estudou em casa quando criança e se formou em jornalismo com especialização em matemática três anos atrás, pela Escola de Jornalismo Scripps da Universidade de Ohio.

"A gente não estuda tudo, e sem dúvida existem lacunas na formação da maioria dos desescolarizados, mas estudamos a maior parte dos tópicos necessários", diz ele. "E se você descobre que precisa de algo que não estudou, a motivação para aprender esse tópico aumenta".

"Mas o processo pode ser difícil", afirma Kowalke, escritora de artigos de revistas que é casado com uma mulher que teve uma formação desescolarizada (os dois se conheceram quando ele estava filmando um documentário sobre as suas experiências educacionais). "É sempre mais difícil construir o seu próprio caminho sem que alguém te diga o que fazer".

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