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27/11/2006

O método de controle de natalidade da própria natureza

The New York Times
Wendy Paris
Não sei como fiquei tão velha sem ter filhos. Quando eu tinha 28 anos e a minha prima teve o seu primeiro filho, aos 31, pensei: "Certamente não esperarei tanto tempo". Mas, então, a minha vida autônoma e voltada para a minha carreira se estendeu por mais uma década.

Está claro que a fertilidade começa a diminuir aos 27 anos. Mas, atualmente, que mulher está limitada pela natureza? Contamos com um arsenal de microscópios, drogas e pratos Petri que fazem com que a fertilidade se alongue até a menopausa. Eu queria ter filhos um dia, mas estava determinada a não ser uma dessas candidatas a mãe ansiosas, que estão sempre de olho no relógio biológico.

Quando finalmente fiquei grávida, em uma primavera, aos 38 anos, ainda senti que era cedo demais. Eu estava em um relacionamento estável - acabara de ficar noiva. Mas o meu noivo, David, e eu estávamos nos mudando para um novo apartamento e eu estava no semestre de primavera do meu curso de pós-graduação. Eu tinha paredes para pintar, dissertações para escrever e um casamento para planejar.

Duas semanas depois, quando a minha gravidez fracassou, fiquei desapontada, mas não devastada. O problema aconteceu muito no início do processo. Não se tratou do fim de uma personalidade que eu tivesse acalentado durante meses. Não tive tempo de ficar cantarolando minhas músicas favoritas da década de 1980, de forma que o bebê desenvolvesse uma personalidade alegre e um bom senso rítmico.

Fiquei orgulhosa da forma como lidei com a perda e também do meu comportamento tranquilo durante a minha breve experiência com aquela gravidez. Eu não cheguei a solicitar que os vários amigos que fizeram jantar preparassem pratos especiais de grávidas para mim, e tampouco deixei de tingir o cabelo por temer que a tintura pudesse causar anormalidades no feto.

Um grande número de mulheres que conheci agiu como se a gravidez fosse uma doença terrível. Isso me pareceu ser o lado ruim da nossa ciência. A era da gravidez como período de experiência alegre acabou. Em vez disso, essas mulheres avaliavam todas as ações em termos de riscos. "Evite queijo não pasteurizado". "Não coma peixes grandes". "Ingira ácido fólico". "Não tome café".

Esse comportamento obsessivo pareceu ser mais pronunciado entre as mulheres urbanas mais velhas que conheci, profissionais acostumadas a controlar os fatores que conduziram ao seu sucesso pessoal.

"Existem duas formas de "purgar os produtos da concepção" (conforme os médicos se referem à remoção daquilo que está dentro de você): naturalmente, ou com o processo de dilatação e curetagem. Eu tinha pavor de ter que precisar da segunda opção. Mas quando, em vez disso, eu "purguei os produtos" naturalmente, senti uma dor duplicada sentada no chão do banheiro, como se tivesse ingerido um barco de frutos do mar estragados.

Liguei para o meu médico solicitando analgésicos e pedi a David que fosse buscar os remédios. Quando tudo acabou, eu não era capaz de acreditar que se haviam passado apenas algumas semanas. A sensação que tive foi a de que aquele mês de março esteve repleto de emoções e novas informações correspondentes a meses.

As pessoas costumam dizer que não existe um momento perfeito para se dar início a uma família, mas elas estão equivocadas. Para nós, o momento perfeito foi oito meses depois, em novembro. Quando descobri que estava novamente grávida no final do último outono, David e eu ficamos eufóricos. E a minha mãe também.

Eu já tinha planos para o inverno: uma visita a minha mãe na Flórida, seguida de férias de duas semanas com David em Los Angeles. Olhando as coisas em retrospectiva, talvez eu devesse ter ficado em casa, feito as coisas de forma mais tranqüila. Mas passei 20 anos sendo uma pessoa durona e enérgica, combatendo a vontade de ser preguiçosa.

Voei para a Flórida, conforme o planejado, no início de dezembro. Lá, fiz uma ultra-sonografia, que revelou batidas de coração. Com seis semanas de gravidez, dessa vez as coisas estavam funcionando!

Fui almoçar com a minha mãe em um café em Delray Beach para comemorar.
Escolhi uma mesa de madeira, e fiquei olhando as butiques com paredes de estuque ensolaradas do outro lado da rua. Eu seria uma mãe, assim como a minha mãe. Apesar da sua carreira de engenheira, ela afirmava que a maternidade foi a experiência mais significante da sua vida. E o mesmo se passaria comigo, eu acreditava.

Eu era capaz de enxergar a minha vida. Uma vida na qual eu tivesse o controle sobre as coisas. Uma adulta de verdade com responsabilidades por alguém. Eu finalmente teria algo mais no que pensar, além dos meus próprios desejos. David e eu seríamos uma família real, em vez de duas criaturas urbanas comuns. Não ficaríamos mais em bares do East Village que durante anos vinham dando a impressão de serem muito barulhentos e escuros. Era o fim da adolescência prolongada para mim. Eu me sentiria grande, abnegada e inteligente.

"Mamãe, por que este sorvete é azul?"

"Bem, Maxwell, isso tem algo a ver com corantes de alimentos", eu responderia.

E com a Internet, seria ainda mais fácil me sentir como um gênio todos os dias.

De volta a Nova York, David e eu levamos os seus sobrinhos e a sua sobrinha ao Circo Big Apple. "Esta é uma outra vantagem de ter filhos", eu disse para ele. "Você pode ir ao circo sem ter que pegar crianças emprestadas". Depois do circo, a sobrinha foi ao carrossel. E eu também. Era um dia ensolarado, e eu estava feliz.

Indo para casa na minha lambreta, passei acidentalmente sobre um buraco. Com o baque, a lambreta saltou como um pônei selvagem. Fechei os olhos por um segundo, e depois continuei em direção à minha casa.

Tínhamos um vôo marcado para Los Angeles no domingo, dois dias depois. Na manhã do vôo, me sentei na cama às 3h, despertada por aquela sensação sufocante de uma garganta muito seca devido ao clima de inverno.

E por algo mais. Senti como se uma corrente pulsasse por meu corpo, como se a tênue luz verde do monitor de ultra-som tivesse se apagado. Em tal estágio não dá para sentir nada. O tamanho do embrião é menor do que o de uma unha. Não havia nenhuma maneira física de determinar que as batidas de coração haviam cessado. Mas foi isso o que senti. Era como se o pequeno gerador que girava dentro de mim tivesse parado de funcionar.

Às 9h eu sangrava um pouco. Será que ainda deveríamos voar para Los Angeles? Eu não tinha certeza. Um livro de cabeceira dizia que um pouco de sangramento nesse estágio poderia ser normal. David, habitualmente otimista e imperturbável, concordou que deveríamos viajar.

Na segunda-feira, em Los Angeles, liguei para o meu médico, que me aconselhou a marcar uma ultra-sonografia para o final da semana: "Só para checar". Ele não pareceu estar preocupado.

Na terça-feira, o sangramento aumentou, acompanhado de uma dor intensa. Eu estava em Brentwood, almoçando com minha amiga Thea. Depois disso, fui ao supermercado fazer compras para a casa que eu e David alugáramos ali perto. Thea me acompanhou até lá. "Peça aos empacotadores que coloquem as sacolas no seu carro", disse-me ela.

Eu prometi a Thea que faria isso. Mas quando chegou o momento, não deu para cumprir a promessa. O empacotador, com pinta de surfista californiano, com longos cabelos louros e bíceps proeminentes, poderia ter levantado o carrinho de compras inteiro, se eu pedisse.

Mas eu mesmo coloquei as compras no carro, e depois fiquei de pé, sentido o ar perfeito do sul da Califórnia, começando a perceber algo sobre mim.

Talvez eu não fosse ser uma dessas candidatas a mãe controladoras, mas eu tinha obsessão com um outro tipo de controle: não permitir que eu fosse "fraca" ou "carente", mesmo quando necessário. Subitamente, isso não me pareceu ser uma virtude inequívoca. Pelo menos quando grávida. E na minha idade. E no primeiro trimestre. E tendo fracassado uma vez. Talvez tudo estivesse bem com esta gravidez, mas eu não me sentia bem. O meu abdômen inteiro era tomado por dores de intensidade crescente a cada hora.

Na quinta-feira, a ultra-sonografia confirmou aquilo que eu já sabia: os batimentos cardíacos haviam cessado. Desta vez, a perda me atingiu com força. No hospital, a enfermeira me viu enxugar os olhos com as mangas da camisa. "Espere, vou te dar toalhas de papel", disse ela, abrindo uma caixa de papelão cinzenta.

Naquela noite, a dor real teve início. É como a dor do parto. O corpo tem contrações para expelir o que quer que tenha se formado no seu interior. Você coloca para fora um aglomerado com formato de água viva do tamanho de uma castanha, coberto por uma camada de sangue. É como se um alienígena de um filme de terror saísse de dentro de você. Dá vontade de gritar: "Ele está vivo, está vivo!". Mas é claro que não está vivo. E aí reside todo o problema.

Quando David e eu retornamos a Nova York, me inscrevi em uma clínica de fertilidade e dei início àquilo que pareceu ser um ciclo interminável de exames e consultas, determinada a fazer tudo o que fosse possível para ter sucesso.

Uma amiga me disse que pretendia ficar deitada durante toda a próxima gravidez, um tática que a sua tia lhe disse que funcionou no seu caso. Eu gostei do plano. Todos me asseguraram que eu não desalojara o meu feto em desenvolvimento por manter o meu ritmo de vida ativo durante a gravidez, mas eu não estava tão certa quanto a isso. Se fosse minha culpa, eu poderia corrigir o problema. Poderia agir diferentemente da próxima vez e ser bem-sucedida. Ou pelo menos eu queria acreditar nisso.

De repente passei a ter uma nova visão a respeito daquelas neuróticas candidatas a mãe que eu criticara antes. A vigilância obsessiva é uma reação natural à descoberta chocante de que você não está controlando a situação.

Poucos meses atrás, eu estava em uma festa em Manhattan, ouvindo uma amiga inteligente, atraente e mais nova, que falava sobre um relacionamento ardente que não chegava a lugar algum. Ela possui uma boa carreira, que ela coloca acima da família, assim como eu fazia na sua idade.

"Sabe, existe uma rota alternativa. Você poderia se concentrar em encontrar um parceiro de verdade e em formar uma família mais cedo, em vez de esperar", eu sugeri. "É apenas uma idéia. Você não tem que fazer aquilo que todos estão fazendo. Na verdade é muito mais difícil dar início a uma família quando somos mais velhas".

Uma outra amiga me interrompeu: "Conheço várias mulheres que ficaram grávidas aos 38, 40 anos. Acabo de receber um e-mail de uma pessoa que teve um bebê aos 42 anos".

É claro que ela teve o bebê aos 42 anos. Eu também recebi o e-mail. Mas creio que divulgamos exageradamente as histórias de sucesso de mulheres mais velhas, querendo acreditar que as exceções são a norma. Não queremos que haja limites para aquilo que podemos fazer. Não é impossível ter um filho mais tarde, mas com freqüência isso é muito difícil, e "muito difícil" é muito mais difícil do que eu entendia.

Ainda acredito que terei um bebê, mas essa crença não dissipa a onda de desencorajamento que se apodera de mim todos os meses em que não concebo.

Atualmente acredito que o problema é que a concepção se tornou muito científica. O problema, especialmente para aquelas de nós que esperaram demais, é que, mesmo com a nossas ciência e tecnologia, conceber e dar a luz a uma criança ainda é um ato muito natural.

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