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01/12/2006

Governo francês se desfaz de propriedades históricas

The New York Times
Craig S. Smith

em Paris
À venda: história, com vista.

A França está vendendo dezenas de propriedades históricas em Paris e nas províncias, usando a receita para mudar os burocratas do governo para propriedades menos caras e ajudar a pagar a dívida nacional. Até o momento ela já se desfez de dezenas de chateaux, villas e "hotels particuliers", as mansões de pedra da idade de ouro de Paris.

Ed Alcock/The New York Times 
No 7º Arrondissement, um antigo hotel ocupado pelo Ministério da Cultura está degradado

Estrangeiros, fundos de pensão e firmas de investimento são os maiores compradores até o momento. Apesar de todo o orgulho gaulês, os franceses parecem contentes por outros as estarem tirando das mãos dos contribuintes. "Todas as localizações são ótimas, são todos imóveis belos", disse Eric E. Sasson, chefe europeu de imóveis do Carlyle Group, um grupo global de investimento que comprou várias propriedades.

Em breve à venda: o Hotel Majestic, antes um imenso hotel de luxo no centro de Paris que Hitler tomou como sede de seu governo militar na França ocupada. O Ministério das Relações Exteriores da França ocupou o prédio após a guerra e o usou para diplomacia: o Acordo de Paz de Paris que acabou com a Guerra do Vietnã foi assinado em seu salão de baile com candelabros.

A França está sobrecarregada com seu patrimônio opulento. O Estado tem mais castelos, mansões e prédios monumentais do que sabe o que fazer com eles, e mal consegue arcar com os custos para mantê-los. O país já gasta entre 2 bilhões e 3 bilhões de euros (US$ 2,65 milhões a US$ 4 bilhões) por ano para manter suas propriedades.

O Estado já transferiu algumas propriedades para os governos provinciais, juntamente com a dor de cabeça de mantê-las. O trabalho em centenas de outras propriedades foi suspenso por falta de fundos.

A França não é a única. Por toda a Europa, países estão lutando para manter a arquitetura romana, medieval, renascentista, iluminista, da belle époque e art déco deixada por seus antepassados.

O Reino Unido emprega 18,7% da receita de sua loteria nacional para manter os antigos prédios do país. O governo italiano criou um fundo imobiliário listado na bolsa para manter seu patrimônio e atualmente aluga os prédios.

Como são meros usuários, não proprietários, os ministérios individuais tinham pouco incentivo em gastar em reformas periódicas. Quando os orçamentos são apertados, a manutenção dos prédios é cortada. O resultado é interiores gastos e fachadas caindo aos pedaços.

A gótica Torre Saint-Jacques no 4º Arrondissement de Paris está coberta de andaimes e telas de proteção há anos, em parte aguardando dinheiro para conclusão de sua reforma. Outros prédios recebem manutenção na parte externa mas estão arruinados por dentro. "Há castelos no Loire que estão praticamente em ruínas", disse Jean-Louis Dumont, um membro socialista do Parlamento.

Tão grave é a crise que, em setembro, o primeiro-ministro da França, Dominique de Villepin, prometeu 70 milhões de euros (US$ 92 milhões) por ano em fundos de emergência para ajudar a cobrir as obras mais críticas de manutenção do patrimônio histórico.

Enquanto isso, o governo embarcou em um programa para vender parte dos prédios usados pelos seus ministérios. Segundo um estudo de 2006 do governo, o Estado possui mais de US$ 50 bilhões em propriedades, sem incluir os prédios considerados inestimáveis, como Notre Dame. Cerca de US$ 20 bilhões em propriedades do Estado são usados como repartições do governo. O Ministério das Finanças reconhece que sua avaliação das propriedades pode estar "ligeiramente abaixo do valor de mercado".

Ele já vendeu prédios no valor de mais de US$ 1,6 bilhão, incluindo mais de US$ 800 milhões no ano passado. Daniel Dubost, o funcionário do Ministério das Finanças que está supervisionando as vendas dos imóveis, espera que o programa continue no atual ritmo por anos. "No final nós chegaremos a um ritmo mais normal", disse em seu escritório no prédio moderno e austero do Ministério no pouco valorizado 12º Arrondissement, nos limites de Paris. "Mas não estamos prontos para deter o ritmo de pelo menos 500 milhões de euros por ano."

Grande parte do dinheiro das vendas reverte ao ministério que antes tinha o controle do imóvel, mas 15% do valor arrecadado vai para o Estado para ajudar no pagamento da dívida nacional da França. Alguns críticos dizem que o governo não oferece informação suficiente nem anuncia o bastante para obter o melhor preço.

E nem todos estão contentes com as vendas. O Institut Montaigne, um centro de estudos francês, criticou o programa no ano passado em um relatório, que disse que o Estado estava vendendo "ao capricho do mercado, sem uma visão de médio ou longo prazo da administração de seu patrimônio".

Políticos da oposição temem a forma como o dinheiro arrecadado será gasto. "São jóias de família que, assim que são vendidas, não há mais volta", alertou Dumont. "Nós temos que ser rigorosos em nos certificarmos que o dinheiro apurado seja usado de forma eficaz."

O Estado vendeu 10 hotel particuliers parisienses, as mansões do século 18 e 19 que antes pertenciam à aristocracia francesa, nos últimos dois anos -um ritmo veloz incomum para propriedades que normalmente são vendidas no máximo uma ou duas por ano.

Apenas poucas propriedades foram vendidas para indivíduos. O bilionário francês Vincent Bollore pagou 10 milhões de euros por uma casa com vista para o Bois de Boulogne que antes pertencia à aristocrática família Noailles. Algumas poucas villas na Cote d'Azur deverão ser vendidas para bilionários russos.

Mas os maiores compradores são empresas de investimento e fundos de pensão estrangeiros, em busca de investimentos sólidos de longo prazo ou talvez algum ganho de capital de curto prazo. Muitos investidores compram apenas com uma vaga idéia de como usarão a propriedade e o Ministério das Finanças diz que o governo não se importa. "Eles não têm o direito de destruí-las, pintá-las de vermelho ou construir uma torre no jardim", disse um funcionário do Ministério, que não pode ser identificado devido às regras do Ministério. "Mas podem usá-las como bordel desde que respeitem as leis de zoneamento."

Assim que um prédio é vendido, o ministério envolvido tem três anos para se mudar, período durante o qual deve pagar aluguel ao novo proprietário. A equipe de Dubost escolhe as propriedades para vender que são valiosas demais para justificar seu uso atual ou que são incompatíveis com sua função.

Um dos maiores exemplos, ele disse, é a Direção de Música, Dança, Teatro e Espetáculos do Ministério da Cultura, que ocupa um hotel particulier esplêndido no 7º Arrondissement. A mansão, registrada como um monumento histórico, é uma das sete propriedades que o Parlamento tentou fazer com que o Ministério da Cultura abrisse mão. Ela foi construída em 1770 e foi de propriedade de uma aristocrata húngara, Marie Leopoldine Palffy, conhecida por seu título de Princesa Kinsky. Ela foi amante do poderoso ministro do Exterior de Luís 15, o duque de Choiseul, que viveu na mansão até a morte dela em 1794 - um ano após sua jovem amiga Maria Antonieta ter perdido a cabeça na guilhotina.

A propriedade passou por várias mãos de prestígio depois disso até ser
comprada por um banqueiro, Louis Louis-Dreyfus (tio-bisavô da atriz Julia Louis-Dreyfus, da antiga série "Seinfeld").

Juntamente com muitas propriedades dos judeus, o Hotel Kinsky, como passou a ser chamado, foi tomado pelos alemães durante a Segunda Guerra Mundial. O Estado francês se tornou seu proprietário depois da guerra e o escritor André Malraux assumiu o controle do prédio quando se tornou ministro da Cultura nos anos 60.

O burocrata ministerial encarregado do prédio ocupa um gabinete imenso no térreo, com um grande piano e portas francesas dando abertura para um terraço e gramado que termina em uma fonte e árvores. O retrato da Princesa Kinsky ainda pode ser visto em um rico afresco que adorna o teto do gabinete.

Mas grande parte do prédio está degradada. Um carpete industrial vermelho e sujo cobre o saguão e os corredores. Os burocratas não estão contentes em deixar seu lar ilustre. "Por 15 dias você tem mandado advogados, arquitetos e emires sauditas", esbravejou um homem em terno preto no saguão da mansão quando um funcionário do Ministério das Finanças chegou acompanhado de um repórter. "Basta."

Há rumores de que o comprador é um membro da família real saudita. George El Khouri Andolfato

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