UOL Notícias Internacional
 

02/12/2006

Depois da guerra, o Líbano se volta para a arte, perguntando: quem somos nós?

The New York Times
Michael Slackman

em Beirute, Líbano
Os eventos traumáticos da guerra, de sangue derramado e inocência destruída, podem provocar introspecção e, quando as armas são depostas e os corpos enterrados, também podem inspirar a arte.

O Líbano está envolvido com a política sangrenta do pós-guerra, paralisado por um impasse tenso entre rivais políticos e pelo assassinato de um jovem ministro do governo, que ameaça provocar mais violência. Mas depois da guerra da Hezbollah com Israel, Beirute também se ocupou mais com a arte.

Shawn Baldwin/The New York Times 
No Líbano assolado por diversos e constantes conflitos, a guerra vira inspiração para a arte

Houve um impulso na música, vídeo, escultura poesia e teatro. Cada artista buscou examinar as questões levantadas pela guerra de 34 dias e o conseqüente embate político entre líderes libaneses. Cada um estabeleceu uma posição e, de sua forma, perguntou aos libaneses: quem somos nós?

A questão vai ao cerne do que preocupa o Líbano, a sociedade mais pluralista do Oriente Médio, nem sempre confortável em sua pele multi-sectária. "Minha própria identidade foi colocada em risco de muitas formas por esta guerra", disse Ziad Abillama, cuja exploração intelectual da vida toda de uma identidade árabe-cristã infundiu seu trabalho. Abillama gosta de dizer que renasceu em 1991, ano da guerra do Golfo Persa, quando entendeu que, independentemente de seu cristianismo, sua orientação ocidental, sua fluência em francês, seus amigos judeus, ele era árabe e sempre seria visto assim pelo Ocidente. Como ele se sentiu?

Sua peça estava na entrada da galeria Espace SD, e representava o que Abillama sentia sobre si mesmo e, até certo ponto, seu Líbano. Era uma placa de metal com setas apontando em múltiplas direções. Cada uma apontava o caminho para "Arabes", ou árabes em francês.

Quem somos nós? Alguns libaneses insistem que são descendentes dos fenícios, não árabes.

Na exibição da galeria, havia uma instalação de som que harmonizava bombas caindo com um trompete de jazz. Havia uma escultura de pertences pessoais, livros, papéis, retratos, cobertos na poeira pulverizada do que teria sido uma casa. Havia um retrato cor de rosa ao estilo Warhol do líder da Hezbollah, xeque Hassan Nasrallah.

"Independentemente de minhas opiniões políticas, sua voz era a que eu esperava ouvir", escreveu Zena Khalil, que pintou o retrato, chamado "Superstar". "Acho que, ao pintá-lo, talvez eu possa romper com o pop star da mídia e tentar conhecer o ser humano que passou a ter uma presença tão avassaladora em minha vida."

Quase todos aqui dizem que querem um país unido, um propósito único e uma identidade nacional clara. Mas todos os principais atores, líderes de partidos definidos primariamente por comunidades confessionais (cristãos, sunitas, xiitas, drusos), querem um Líbano unido por sua definição do que o Líbano deveria ser.

A lealdade algumas vezes é regional, noutras, ideológica, algumas vezes oportunista, mas sempre divisória. A guerra contra Israel não criou esses sentimentos, mas aprofundou o que já afligia este lugar.

Depois da guerra, as pessoas foram divididas por uma sensação de prejuízo e triunfo. Muitos xiitas irritavam-se quando ouviam alguns líderes cristãos e sunitas reclamarem do custo que carregavam da guerra, quando o dano foi na maior parte restrito às regiões xiitas. Muitos líderes cristãos e sunitas irritaram-se com as alegações de vitória da Hezbollah, quando trechos inteiros da infra-estrutura do país foram devastados.

A guerra também modificou o equilíbrio do poder, ou o que se percebia como equilíbrio de poder, e então se seguiu uma luta, com a Hezbollah sentindo que emergiu mais forte, e a coalizão governante mais fraca. Muitas pessoas sentiram-se apenas anestesiadas. "Quanto mais guerras enfrento, mais minhas lembranças e emoções não mostram interesse", escreveu Rowina Bou Harb, em uma nota ao lado de sua peça na galeria. Bou Harb embrulhou um quadro branco em um pedaço de plástico rasgado.
Ela chamou-a de: "Não sinto mais vontade de falar, quase esqueci o que senti."

A arte pode transcender a política, mas também pode trabalhar perfeitamente como instrumento de política, tomando lados e promovendo causas. Uma das cantoras mais famosas do Líbano, Julia Boutros, adaptou um discurso de Nasrallah em um tributo poderoso chamado "Ahibaii", ou "meus amados".

Ela acompanhou sua música com um vídeo que homenageava os homens da Hezbollah que combateram Israel no Sul. Depois de uma apresentação lotada em Beirute, ela deve se apresentar pela região, sempre promovendo a Hezbollah e um Líbano unido sob sua noção de Líbano.

Em sua apresentação beneficente, milhares de pessoas foram até um fórum aqui, acenaram com a bandeira da Hezbollah e cantaram: "Deus, Nasrallah e os subúrbios", uma referência ao bairro xiita densamente ocupado que foi bombardeado por Israel durante a guerra. Este era o Líbano de Boutros, menos a outra metade que não quer nada com essa metade.

Há também muita raiva. Uma pequena troupe de atores, homens e mulheres em idade universitária, vem fazendo há semanas uma peça chamada "Inaceitável". As mensagens não são sutis: a Organização das Nações Unidas é um instrumento dos Estados Unidos; instituições internacionais são inchadas, inúteis e se concentram em si mesmas; Israel é o inimigo; o governo é fraco; os Estados Unidos são o mal.

Quando a guerra ainda estava em curso, Ritta Baddoura começou a divulgar sua poesia em um blog, como forma de "resistência e um ato de sobrevivência", disse ela. Baddoura gosta de chocar, de tocar em pontos que seus vizinhos preferem deixar quietos. O Líbano, diz ela, é uma terra de negação, de conflitos não resolvidos entre grupos de pessoas que mataram umas as outras durante uma guerra civil de 15 anos, depois preferiram nunca admitir o passado. Líderes das milícias -homens que mandaram matar seus vizinhos e adversários- tornaram-se líderes políticos.

A guerra e sua seqüência deixaram isso claro e inspiraram mais poesia, outra viagem no território proibido da sociedade. Em sua opinião, a dura verdade para este país é que não uma sensação de união. "Precisamos de Israel para ficarmos unidos", disse ela com ar de exaustão. "Não concordamos em nada." Deborah Weinberg

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