UOL Notícias Internacional
 

03/12/2006

A multifacetada causa do dia de Hollywood

The New York Times
Marc Santora
Em 1938, um memorando enviado para Harry Oppenheimer, cuja família fundou o cartel do diamante De Beers, traçava uma audaciosa estratégia de propaganda: "O cinema raramente inclui cenas mostrando a escolha ou compra de um anel de noivado para uma garota. É nosso plano contatar roteiristas e diretores e arranjar a inclusão de tais cenas".

Desde então, de Marilyn Monroe a J.Lo, a indústria do diamante tem usado o brilho da celebridades para vender seus produtos, uma campanha de marketing astuta que ajudou a criar um negócio de luxo no valor de mais de US$ 60 bilhões por ano.

Diamantes são amor. Diamantes são os melhores amigos de uma garota.
Diamantes são eternos.

Diamantes, é claro, são muito mais que isto. São um grande negócio. Eles não são raros. E têm sido usados para financiar algumas das guerras mais brutais das últimas duas décadas.

São estes diamantes em particular -conhecidos como diamantes de conflito- que se tornaram a preocupação da moda entre as figuras do entretenimento, com astros de Leonardo DiCaprio e Kanye West a Raekwon, do grupo de hip-hop Wu-Tang Clan, falando sobre a necessidade de vigilância do consumidor.

Da mesma forma que o poder da indústria do entretenimento foi explorado para criar um desejo, agora ele se volta para o alto custo de tal desejo.

Na próxima semana, o filme "Diamante de Sangue" (Blood Diamond) da Warner Brothers estreará nos cinemas americanos. Estrelado por DiCaprio, Jennifer Connelly e Djimon Hounsou, a história tem como fundo o caos e a carnificina da guerra civil em Serra Leoa, um país do oeste africano, de 1991 a 2002. Foi uma guerra travada pelo controle da considerável indústria de diamante do país e paga com a exportação ilegal de seus produtos.

Serra Leoa também serve de fundo para "Bling: A Planet Rock", um
documentário do canal VH1 que será exibido em fevereiro, no qual astros de hip-hop são vistos visitando Serra Leoa e falando sobre o assunto. Outro documentário, "Blood Diamonds", que será exibido no History Channel em 23 de dezembro, enxerga a história dos diamantes de conflito, novamente destacando o oeste da África.

Finalmente, os Sierra Leone's Refugee All-Stars, uma banda formada por
músicos que fugiram do conflito, acabou de lançar seu primeiro álbum e está fazendo sua primeira turnê pelos Estados Unidos, incluindo uma aparição no programa de Oprah Winfrey.

A indústria do diamante, ciente do poder de criação de imagem de Hollywood, está atenta. Por meio de organizações como o Conselho Mundial de Diamantes e o Centro de Informação de Diamantes, as maiores empresas de comércio de diamantes do mundo deram início a uma campanha multimilionária para compensar qualquer publicidade negativa.

A indústria alistou alguns poderosos aliados, recebendo ajuda de uma
autoridade com grande moral como Nelson Mandela, cuja África do Sul é uma das maiores produtoras de diamantes do mundo. Ele enviou uma carta a Alan F. Horn, o presidente da Warner Brothers, e ao diretor Edward Zwick, dizendo que seria "profundamente lamentável" se "Diamante de Sangue" levasse a "desestabilização dos países africanos produtores de diamante".

Sally Morrison, uma porta-voz do Centro de Informação de Diamantes, disse que no que se refere a este filme, a indústria teme "que a história não esteja situada em um contexto histórico".

A campanha teve início em setembro, como um esforço para "educar tanto os consumidores quanto o comércio sobre a importância das questões ligadas ao diamante", segundo o Conselho Mundial de Diamantes. Além de colocar anúncios de página inteira em 10 grandes jornais, a indústria do diamante criou um site na Internet, diamondfacts.org. Entre outras coisas, a indústria destaca que segundo um acordo de 2003 chamado Processo Kimberly, as grandes empresas de comércio de diamantes se comprometeram a assegurar que todos os diamantes que entram no mercado sejam monitorados e verificados.

Além disso, disse Morrison, as empresas de comércio de diamantes também
contataram várias pessoas em Hollywood, de assessores de imprensa a
estilistas, para ajudá-las a entender as questões envolvidas e o trabalho que tem sido feito para eliminar os diamantes de conflito do mercado. E ela notou que elas têm trabalhado com celebridades para mostrar como a mineração de diamantes pode ajudar as economias locais na África. O empresário Russell Simmons, que iniciou sua própria linha de jóias com diamantes incrustados há dois anos, está atualmente em uma viagem organizada pela indústria à África do Sul e Botsuana para ver como a mineração pode ter um impacto positivo. Uma viagem semelhante foi organizada para a atriz Ashley Judd em fevereiro passado.

A atenção do mundo do entretenimento aos diamantes de conflito, e em Serra Leoa em particular, é em parte deliberada e em parte coincidente. Mas sem dúvida o projeto que está atraindo mais atenção é o filme de Leonardo DiCaprio.

Alex Yearsley, cujo trabalho com a organização sem fins lucrativos de
direitos humanos Global Witness foi o primeiro a destacar a questão há mais de uma década, disse que ao longo dos anos 90, quando os piores abusos e atrocidades estavam ocorrendo, era difícil chamar a atenção das pessoas. "A indústria do diamante tem um enorme papel na geopolítica da região", disse Yearsley.

Mesmo a guerra em Serra Leoa, notória por sua brutalidade e desmembramento sistemático das pessoas por soldados rebeldes, só obteve atenção mundial quando a capital, Freetown, caiu em 1999. Quando a guerra atingiu seu clímax, Zwick, o diretor de "Diamante de Sangue", disse que um roteiro circulava em Hollywood envolvendo uma caçada a um diamante, mas era "na linha de um filme de Indiana Jones".

Quando Zwick e seus colegas iniciavam a pesquisa do assunto mais
profundamente, ele disse, eles ficaram horrorizados com o que descobriram. "É como uma pedra atirada no lago", ele disse. "As ondas começam a se espalhar à medida que avançam." Ele disse que decidiu "contar muitas das verdades" sobre a guerra por meio de um filme de ficção, e trouxe Yearsley e outros especialistas no comércio de diamantes e na guerra como consultores. Mas Zwick disse que foi apenas quando DiCaprio concordou em estrelar que eles receberam sinal verde para um filme de grande orçamento.

Vários projetos tiveram início após o final da guerra em Serra Leoa,
incluindo o especial do canal VH1. Seu trailer mostra imagens explícitas do conflito -crianças com membros decepados, um morto no chão com o coração arrancado- sobrepostas a cantores e rappers ocidentais exibindo ostentosamente diamantes. (No ano passado, Kanye West lançou o single "Diamonds Are Forever", mas o regravou como "Diamonds From Sierra Leone" após tomar conhecimento dos danos causados pelo comércio de diamante.)

Mas o documentário, que foi feito em parceria com o Projeto das Nações
Unidas para o Desenvolvimento, não se restringe ao passado. Em vez disso, segundo sua diretora, Raquel Cepeda, a meta é ajudar países como Serra Leoa a obter mais lucros a partir de seus recursos naturais.

"Eu fui bem-sucedida em conseguir fazer com que um rapper falasse sobre
diamantes livres de conflito", disse Cepeda em uma entrevista. "Nós queremos transformar consciência social em algo bacana quando estiverem comprando seus diamantes."

Para isto, ela organizou uma excursão a Serra Leoa com o astro Tego Calderon de reggeaton; Raekwon, do Wu-Tang Clan; e o rapper Paul Wall, um designer de diamantes para dentes, moda entre alguns astros de rap. (O rapper Nas também se envolveu na questão, contribuindo para a trilha sonora de "Diamante de Sangue".)

Enquanto o documentário da VH1 se concentra no futuro, o do History Channel, "Blood Diamonds", examina o papel histórico dos diamantes no financiamento de guerras no oeste da África e em Angola. Como todos os envolvidos nos vários projetos, Bill Brummel, o produtor executivo do filme, disse que sua meta não é fazer as pessoas boicotarem diamantes, mas torná-las cientes do "alto custo humano" dos diamantes de conflito.

Tal custo tem sido particularmente alto em Serra Leoa, onde muitas pessoas deslocadas ainda temem voltar para suas casas, o que os Refugee All-Stars estão tentando encorajá-las a fazer. A música contagiantemente esperançosa do grupo e as poderosas letras pessoais chamaram a atenção de Joe Perry do Aerosmith, depois que ele assistiu a um documentário em 2002 sobre a banda. Seu interesse ajudou a trazer os músicos para os Estados Unidos, onde abriram para o Aerosmith.

"Eu acredito que a compra ilegal de diamantes causa problemas, o motivo de Serra Leoa ter sido destruída", disse Reuben Koroma, o vocalista principal dos All-Stars e organizador, em uma entrevista. "Mas se os diamantes forem comprados legalmente, e os lucros forem usados para o benefício do país, eu acho que Serra Leoa ficará bem." Parte do problema, em Serra Leoa em particular, é que muito pouco do lucro reverte para a população. O governo recebe oficialmente uma comissão de 3% sobre as pedras brutas, mas como os diamantes vendidos por US$ 5 mil nos Estados Unidos geralmente vêm de uma pedra bruta no valor de cerca de US$ 500, tal comissão equivale a cerca de US$ 15.

Com toda a atenção em Serra Leoa e nos piores aspectos do comércio de
diamantes, representantes da indústria abordaram recentemente o presidente de Serra Leoa, Ahmad Tejan Kabbah, e lhe pediram para que falasse sobre os benefícios do comércio de diamantes. Ele se queixou de quão pouco seu país se beneficia das pedras e se recusou a cooperar, segundo o Serviço Serraleonês de Radiodifusão.

Rosalind Kainyah, a diretora de assuntos públicos nos Estados Unidos do
Grupo De Beers, o líder mundial no comércio de diamantes, disse que o setor está concentrado no futuro e dando poder aos africanos, apesar de que, "olhando para trás", ela reconheceu que "poderia ter ocorrido um esforço anterior para uma solução" do problema dos diamantes de conflito.

O intenso esforço de lobby ilustra quão desajeitado é o momento para uma indústria que cultivou tão cuidadosamente sua imagem em Hollywood. Como Edward Jay Epstein notou em seu livro de 1982, "The Rise and Fall of Diamonds", a agência de publicidade da De Beers, N.W.Ayer, se gabava em um relatório de 1940 ao seu cliente de que em "uma longa série de conferências com diretores da Paramount, somadas aos seus próprios esforços", ela teve "sucesso em mudar o título de um filme de 'Diamonds Are Dangerous' (diamantes são perigosos) para 'Adventures in Diamonds' (aventuras em diamantes)".

O relatório também destacou que a agência conseguiu o acréscimo de uma cena no filme "Com Qual dos Dois?" (Skylark), mostrando Claudette Colbert escolhendo um bracelete de diamante, e que em outro filme, "Que Sabe Você do Amor?" (That Uncertain Feeling), Merle Oberon usava uma jóia de diamantes no valor de US$ 40 mil.

Em 1948, um redator da Ayer criou o slogan "Um diamante é para sempre". E quando Marilyn Monroe interpretou "Diamonds Are a Girl's Best Friend" em "Os Homens Preferem as Loiras" cinco anos depois, a imagem popular do diamante como item de luxo supremo estava estabelecida.

Agora, tantos anos depois, o mundo do entretenimento está virando a mesa, tentando acentuar os custos escondidos por trás da imagem cintilante ao mesmo tempo em que faz o público reconhecer que, como colocou Zwick, "toda vez que você usa seu cartão de crédito, você está endossando a forma como uma corporação obtêm um recurso em algum lugar". George El Khouri Andolfato

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