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03/12/2006

Na América do Sul, missões de uma utopia perdida

The New York Times
Larry Rohter
O sol já estava baixo no céu quando cheguei à missão jesuíta do século 17 conhecida como Trinidad, no interior do sul do Paraguai. Era o fim de uma tarde quente de sábado em outubro, e eu atravessava uma praça gramada na direção da igreja principal, disposto a examinar um friso altamente ornamentado, retratando anjos rechonchudos tocando instrumentos musicais. De repente, um concerto de câmara barroco começou a ser tocado em alto-falantes escondidos.

Kevin Moloney/The New York Times 
São Miguel das Missões, no Sul do Brasil

Enquanto parava para escutar, os zeladores da missão me disseram que a música foi composta não por um compositor europeu, mas por índios guaranis que viveram por 150 anos sob tutela jesuíta em missões espalhadas por uma área maior que a Califórnia, no que hoje é o Paraguai, Argentina e Brasil. E com aquilo, um mundo desaparecido instantaneamente ganhou vida.

As missões guaranis são tudo o que resta de uma experiência social utópica dos séculos 17 e 18 -chame de comunismo teocrático por falta de um termo melhor- que fascina pensadores há centenas de anos. Voltaire, Diderot e Montesquieu todos escreveram sobre as missões, elogiando o impulso igualitário por trás delas.

A partir da época em que os jesuítas foram expulsos delas nos anos 1760, as missões começaram a entrar em decadência e até mesmo desaparecer. Em nossa época, ditaduras militares de direita governaram todos os três países até meados dos anos 80, e viam qualquer experiência social radical, mesmo uma do passado baseada no cristianismo, como algo a ser desencorajado.

Graças em parte ao filme de Roland Joffé de 1986, "A Missão", houve um ressurgimento no interesse no movimento nos anos 80. Ainda assim, foi apenas nos últimos anos que o Paraguai, Argentina e Brasil começaram a restaurar e promover como destinos turísticos as missões -que, no seu auge, contavam com mais de 100 mil moradores e produziam não apenas música e livros, mas também utensílios metálicos e alimentos para exportação.

No momento, as 30 missões existentes estão em estágios muito diversos de reparo, como descobri durante uma jornada de uma semana pelo que já foi conhecido como Província Jesuítica de Paraquaria, e a infra-estrutura está longe de ser luxuosa. Eu consegui visitar mais da metade das missões, também conhecidas em espanhol como "reducciones", ou "conversões", em um excursão que terminou em Foz do Iguaçu, onde Paraguai, Brasil e Argentina se encontram e as cenas mais dramáticas de "A Missão" foram filmadas.

Rapidamente, eu aprendi que todas as missões -exceto a última a ser construída, em Santo Angelo, onde atualmente é o Estado do Rio Grande do Sul, no extremo sul do Brasil- foram projetadas de forma idêntica. Uma grande igreja, salas de aula e oficinas dominavam o lado sul de uma praça, onde a vida comunitária ficava centralizada. Os outros três lados eram ocupados por moradias familiares e pelo cabildo, onde o conselho guarani da cidade, liderado pelos caciques, tinha sua sala.

O sentido de visitar o máximo possível de missões não era para poder ver as diferenças de estilo dos vários arquitetos jesuítas -alguns espanhóis, outros italianos ou alemães- e dos artistas e artesãos guaranis que treinaram. Infelizmente, nenhuma missão sobreviveu intacta após a expulsão dos jesuítas, o que significa que para obtenção de um quadro completo de como uma missão se parecia na época, é necessário visitar várias delas.

Por exemplo, a missão em Jesús de Tavarangue, a poucos quilômetros do ponto de partida em Trinidad, é a única em que a torre do sino, com cerca de 50 metros de altura, ainda existe. Em uma tranqüila manhã de domingo, eu subi até o topo e imediatamente entendi que a vista imponente da região que ela oferecia tinha função tanto militar quanto religiosa: não apenas para convocar os fiéis à missa, até três vezes ao dia, mas também para alertar os moradores de quando os bandeirantes, os temidos mercadores de escravos do Brasil que atacavam as missões, estavam se aproximando.

A missão que considerei mais charmosa das sete no Paraguai foi a de San Cosme y San Damián, no extremo sul do país. Uma cidade moderna de mesmo nome, com 3 mil habitantes, cresceu ao redor da praça da missão. Mas em comparação a Encarnación, a maior cidade na região, ela o fez sem destruir ou mesmo invadir a igreja, que ainda é usada para adoração -fora as pichações na parede da frente que diziam: "Irma, eu te amo, Tito".

Dentro da igreja, fui recebido por 21 estátuas de santos dispostos ao longo das paredes laterais, incluindo a imagem religiosa mais peculiar e interessante que vi em qualquer missão. São Miguel Arcanjo matando Satanás é uma visão comum em igrejas latino-americanas, mas esta foi a primeira vez que vi o Diabo retratado como um ser hermafrodita -claramente masculino da cintura para baixo e feminino da cintura para cima.

Infelizmente, duas outras imagens, de Santa Bárbara e de São José, foram roubadas há poucos anos e nunca foram recuperadas. Algumas das estátuas originais ainda são retiradas para procissões na Semana Santa e no dia dos santos padroeiros da cidade, em setembro.

"Aqui nós vivemos diariamente com o passado, muitas vezes sem pensar a respeito", me disse Rolando Barboza Aguilera, o zelador do local. "Há muitos mistérios aqui, muitas perguntas para as quais ainda não temos respostas."

A igreja também é notável por um cadeira do século 17 pintada com flores de maracujá, que foi usada não apenas pelos padres da paróquia, mas também pelo papa João Paulo 2º, quando visitou o Paraguai em 1988. No pátio, eu me deparei com um relógio de sol que ainda funciona bem, o único remanescente do que antes era um observatório astronômico.

"Às vezes passam semanas sem recebermos um único visitante", disse Barboza, com um certo pesar. "O que Trinidad recebe por dia, nós recebemos por mês."

Isto dificilmente causa surpresa, já que o Paraguai é, segundo alguns cálculos, o país mais pobre da América do Sul, e seu interior é extremamente preguiçoso e sonolento. É o tipo de local onde as placas na estrada alertam que "trânsito de gado é proibido" e ninguém dá atenção.

"Olha para eles, andando com toda a preguiça do mundo", disse Cristián Arévalo, meu jovem guia, quando um rebanho atravessou nosso caminho e forçou a parada de nosso carro. "Parece que não leram a placa."

Posteriormente em seu estúdio nos arredores de San Ignacio Guazú, a mais antiga das missões, fundada em 1609, Coqui Ruíz, um pintor paraguaio e folclorista, refletiu sobre o bizarro Satanás que vi. Sua teoria é que devido a palavra guarani para diabo, anã, ser feminina, os jesuítas tiveram que permitir tal retrato sexualmente ambíguo -um dos vários em que, ele disse, valores guaranis conseguiram se perpetuar.

A igreja original em San Ignacio não existe mais. Mas o museu de lá oferece a mais variada amostra da arte guarani da missão, variando de peças de altar a estátuas em múltiplas formas. São Miguel estava presente novamente, mas também estavam São Inácio de Loyola, São Francisco e outros do panteão católico. Eles estavam todos em dimensões maiores que a vida, que visavam torná-los todos mais imponentes aos guaranis, entalhados em cedro com detalhes fabulosos e folheados a ouro.

Eu também descobri um museu bem mantido e um pequeno hotel charmoso com excelente biblioteca, um bom restaurante e um proprietário incomumente informado, cordial e prestativo fora do trajeto normal em Santa María de Fe, uma cidade pacata de menos de 4 mil habitantes a menos de uma hora de carro de San Ignacio. Mas o local mais agradável provou ser São Miguel das Missões, no sul do Brasil.

Se há uma coisa em que os brasileiros são excelentes é em montar um espetáculo -seja o Carnaval ou, como no caso de São Miguel das Missões, o de luz e som realizado toda noite após escurecer. A apresentação de 48 minutos no terreno da missão custa R$ 10 e é em português, é claro. Mas mesmo para aqueles que não falam a língua, os sons de disparos e cascos de cavalo à noite transmitem de forma poderosa o constante medo dos mercadores de escravos que os guaranis e seus protetores jesuítas deviam sentir.

O museu da missão, projetado por Lúcio Costa, um dos arquitetos que criaram Brasília, é outro ponto alto. Há 100 obras de arte em seu interior, geralmente figuras de pedra e madeira bem conservadas, algumas com suas cores originais. Eu fiquei particularmente impressionado com uma sala dedicada a imagens de santas, incluindo uma Santa Soledade com uma expressão tão triste e tocante que me lembrou uma pintura de Modigliani.

Do lado de fora, jovens guaranis espalham bugigangas à venda, de arcos e flechas a tigelas de cerâmica. Quando perguntei, os vendedores disseram ser descendentes de um divisão dos guaranis que nunca entrou nas missões e que atualmente vive em uma aldeia a cerca de 28 quilômetros de distância, cultivando milho, mandioca e batata-doce em cerca de 240 hectares de terras transformadas em reserva nos anos 90.

A aldeia, lar de 220, é chamada Koenju, a palavra guarani para alvorada. Quando cheguei, o chefe, Floriano Romeu Veraxondaro, me disse que forasteiros são bem-vindos desde que telefonem com antecedência para marcar a visita, seja com ele ou com o xamã, Nicanor Benítez; ele me deu seu número de celular para contato: (+ 55 55) 9969-1215.

"Nós ficamos felizes em mostrar e falar a você sobre nossas plantas e árvores, o rio e a floresta, mas as pessoas não podem vir aqui apenas para satisfazer sua curiosidade", disse Romeu em um português com sotaque. "Elas têm que nos ajudar e deixar algo. Não precisa ser muito, mas precisam comprar algo."

O domínio da música clássica ocidental pelos guaranis desapareceu há muito tempo, é claro, e sobrevive apenas em partituras descobertas recentemente na Bolívia. Mas após ouvir Romeu e seu filho Anildo tocarem algumas canções tradicionais guaranis em um violão de cinco cordas e um violino de três cordas, eu acabei comprando um CD gravado pela orquestra e coral da aldeia -que, ele me disse orgulhosamente, deverão se apresentar no Peru e na Itália no próximo ano.

O governo do Rio Grande do Sul também preparou o que chama de Rota das Missões, para encorajar visitas a outras missões e templos próximos, alguns deles modernos, como o em homenagem à Virgem de Czestochowa. Esta parte do Brasil é uma região de campos férteis colonizada por imigrantes alemães, italianos e poloneses há cerca de um século, e é possível percorrer a rota a pé, de bicicleta ou montado a cavalo, em excursões de até uma semana organizadas pelas agências de turismo locais.

Mas foi em Caaró, a cerca de 20 quilômetros de São Miguel, que encontrei a prova mais forte de que a memória das missões continua a influenciar a fé popular na região. Ao lado de uma pequena igreja, um monumento com uma cruz no alto homenageia três padres mortos por nativos aliados dos bandeirantes em 16 de novembro de 1626. Uma das vítimas, Roque González de Santa Cruz, foi canonizado em 1931 e é venerado por toda a região.

Passando este cenotáfio, a cerca de duzentos metros por um caminho chamado Trilha dos Santos Mártires, eu encontrei uma pequena fonte e uma nascente. Todo ano peregrinos do Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai vêm beber ou engarrafar a água, que acreditam ter propriedades milagrosas de cura e dizem ter curado doenças de vários fiéis de São Roque.

Uma lanchonete fica próxima e lá, vendendo sorvete e refrigerantes atrás do balcão, eu encontrei o padre que cuida do santuário, Nelmo Roque ten Kathen. Ele parecia um tanto murcho devido ao forte calor do meio da tarde, mas pediu para que eu tentasse voltar no terceiro domingo de novembro, quando as peregrinações chegavam ao pico.

"O aniversário do martírio é realmente algo para se ver", ele disse. "O número de pessoas que vêm varia de ano a ano, dependendo dos padres da igreja onde São Roque está enterrado permitirem que seu coração seja trazido de Assunção. Alguns anos eles permitem, alguns anos não."

Ficou claro que cada um dos três países tem um relacionamento diferente com seu passado. O guarani é tanto o nome da moeda do Paraguai quanto da língua oficial que divide espaço com o espanhol. Portanto, as missões são centrais para a identidade do país: "ñanaemba'e teete", ou "realmente nossas", como os paraguaios dizem em guarani.

Mas na Argentina, "ruínas", em vez de "missões", é o termo preferido, refletindo precisamente o triste estado das coisas em geral. A província chamada Misiones fica a quase 1.600 quilômetros de Buenos Aires e conta com locais que os argentinos chamam de "selva", uma categorização que me pareceu um tanto exagerada e visa justificar o abandono que encontrei.

No instante em que cheguei a San Ignacio Miní, a mais preservada das missões argentinas, ficou claro que uma experiência muito diferente daquela no Paraguai me aguardava. San Ignacio estava cercada de ônibus de turismo, restaurantes ao ar livre oferecendo pratos baratos e quiosques vendendo souvenires e badulaques supostamente em estilo guarani. Quando estacionei meu carro, supostos guias e guardadores de carro correram na minha direção.

Estava longe de ser um começo auspicioso, mas assim que entrei no terreno da missão em si, a situação melhorou. Uma excelente reprodução da missão como deveria parecer logo após sua fundação, em 1633, se encontrava no centro de um pequeno museu, e fui capaz de me juntar a um grupo de canadenses para uma excursão conduzida por um guia multilíngüe, que alternava facilmente entre espanhol, inglês e francês.

Apesar de exatamente metade das 30 missões estarem em território argentino, apenas San Ignacio passou por uma restauração real, e os dois museus que visitei em Posadas, a capital da província, foram uma decepção em comparação àquelas que vi no Paraguai e no Brasil. Em Candelaria, onde os jesuítas mantinham seu quartel-general provincial, restam apenas poucas paredes à vista do Rio Paraná -e elas estão dentro do terreno de um presídio, que precisa autorizar a visita às ruínas.

Mesmo assim, eu considerei a visita à Missão de Nossa Senhora de Loreto, a cerca de 20 quilômetros de San Ignacio Miní, instrutiva, apesar de forma melancólica. No seu apogeu, no início dos anos 1700, esta foi a maior das missões, com mais de 7 mil moradores, e também foi cenário de uma peregrinação até uma colina próxima chamada Calvário, que atraía até 100 mil fiéis guaranis.

"A primeira tipografia construída em toda a América do Sul foi em Loreto e começou a publicar Bíblias e catecismos em guarani em 1700, 60 anos antes de haver uma tipografia em Buenos Aires", me disse Marcelo Sánchez, o zelador da missão. "Naquela época, Loreto era também a maior produtora de erva mate, que era vendida até no México."

Mas hoje, o local está tomado por árvores e trepadeiras e o clima é de desolação e abandono. Onde antes ficava o cemitério guarani, os colonos que ocuparam a área no final do século 19, com nomes como Nielsen e Sato, construíram um cemitério próprio.

Sem nenhuma outra companhia a não ser a de Sanchez e o som de alguns pássaros para romper o silêncio, eu fui capaz de contemplar quão efêmeras podem ser as realizações da humanidade.

Ele me perguntou: "Este local tem uma energia bizarra, não tem?"

Eu respondi: "Sic transit gloria mundi." George El Khouri Andolfato

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