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05/12/2006

Reeleição com grande margem de votos pode permitir que Chávez consolide seu poder

The New York Times
Simon Romero

em Caracas, Venezuela
Se o presidente Hugo Chávez governa como um autocrata, como acusam seus críticos aqui e em Washington, então ele o faz com plena permissão de uma maioria substancial do povo venezuelano, como mostrou a eleição de domingo.

Mantido no poder para um terceiro mandato, Chávez parece intencionado em assumir o manto de Fidel Castro como principal flagelo latino-americano dos Estados Unidos. Ele também não esconde sua intenção de consolidar ainda mais seu poder por meio de mudanças legais e de pessoal.

Ele falou sobre o desejo de unir seus simpatizantes em um único partido político e alterar a legislação para permitir que permaneça no poder indefinidamente ou até 2021.

Obter apoio para tais medidas pode não ser difícil em um país onde seus aliados já controlam o Legislativo e o Judiciário, assim como os governos estaduais exceto em dois Estados, e onde as forças armadas, a companhia estatal de petróleo e outras burocracias e instituições foram sistematicamente lotadas com simpatizantes de Chávez e despojadas de oponentes.

Agora, enfrentando uma oposição anêmica que não conseguiu vencer em nenhum dos 23 Estados da Venezuela ou Caracas, Chávez deve acirrar seu controle, primeiro e principalmente sobre seus próprios simpatizantes, em um esforço para prevenir o surgimento de desafios ao seu comando.

"Uma prioridade para Chávez no momento e o que ele chama de 'revolução dentro da revolução'", disse Steve Ellner, um cientista político da Universidad de Oriente, no leste da Venezuela. "Isto significa um processo para purgar aqueles associados à corrupção e excesso de burocracia. Em janeiro, nós veremos algumas cabeças serem cortadas."

Os principais jornais da Venezuela, o "El Nacional" e "El Universal", publicaram na segunda-feira mapas em suas páginas mostrando todo o país pintado de vermelho, a cor da campanha de Chávez, como um reflexo de sua vitória convincente.

Vermelho, na verdade, coloriu não apenas as roupas e propagandas da campanha de Chávez. Rafael Ramírez, o ministro da energia, descreveu a companhia estatal de petróleo como "vermelha, realmente vermelha", em comentários registrados em vídeo nos quais disse aos funcionários que não teriam lugar na empresa caso não apoiassem o governo.

As palavras de Ramírez, que Chávez prontamente adotou como um de seus slogans, aponta para um refrão assustador "conosco ou contra nós" na sociedade venezuelana que vai além da estatal de petróleo, atingindo instituições como escolas públicas e museus.

Tal polarização agora poderá piorar, uma perspectiva que claramente preocupa os líderes da oposição política enquanto se reagrupam após sua derrota. "Chávez não é um ditador", disse Teodoro Petkoff, o editor do jornal "TalCual" e um importante consultor de Manuel Rosales, o oponente derrotado do presidente, em uma entrevista. "Mas também não é nenhum Thomas Jefferson."

A realidade da democracia da Venezuela é de fato bem mais cheia de nuances, como é o "socialismo do século 21" de Chávez em um país exportador de petróleo que experimenta um boom de consumo.

A própria campanha de Rosales ilustrou tal complexidade. Rosales, o governador do Estado de Zulia, ascendeu da obscuridade para liderar um movimento que obteve quase 40% dos votos em todo o país. Grande parte da mídia estabelecida na capital, Caracas, claramente o apoiava, apesar de uma cobertura relativamente restrita em comparação à sua antiga oposição a Chávez.

Além da Venezuela, a ascensão de Chávez à proeminência internacional na América Latina e além tem muito a ver com sua supremacia na Venezuela.

Com seu novo mandato e o lento declínio de seu herói, Fidel Castro, que estava doente demais para participar das comemorações de seu próprio 80º aniversário em Havana, no último fim de semana, Chávez pode de fato consolidar seu lugar como o novo porta-bandeira da esquerda na América Latina, onde candidatos esquerdistas venceram eleições presidenciais nas últimas cinco semanas: no Brasil, Equador, Nicarágua e Venezuela.

Tal esquerda é na verdade variada, e Chávez não é necessariamente sua figura mais representativa. Mas ele é o que mais se destaca, especialmente quando se trata de atacar o presidente Bush.

A posição proeminente continuará a depender, é claro, do preço do petróleo, o commodity volátil no centro da economia venezuelana. Seus preços poderão permanecer altos enquanto a guerra no Iraque se arrasta e os mercados olham nervosamente para o Oriente Médio. Enquanto isso, paradoxalmente, os Estados Unidos continuam sendo os maiores compradores do petróleo venezuelano e têm ajudado a financiar as ambições de Chávez.

"Chávez está se tornando mais forte como uma conseqüência involuntária da guerra e globalização", disse Kenneth Maxwell, um professor de história latino-americana na Universidade de Harvard.

Apesar do laço comercial estreito da Venezuela com os Estados Unidos, os obstáculos para melhora das relações agora podem se tornar maiores.

Washington continua desconfiado das relações calorosas da Venezuela com Cuba, Irã e Síria. Os governos Bush e Chávez têm visões diferentes da integração do continente, com os Estados Unidos querendo expandir sua integração com base no modelo de acordos de comércio como o Nafta e a Venezuela promovendo primeiro a latino-americana, depois uma maior integração com as economias da América do Norte.

"As chances de melhora são mínimas para o restante do governo Bush", disse Daniel Hellinger, um cientista político e um especialista em Venezuela na Universidade Webster, em Saint Louis. "Há mais envolvido aqui do que uma animosidade pessoal entre Bush e Chávez." George El Khouri Andolfato

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