UOL Notícias Internacional
 

06/12/2006

Candidata no exterior, ou inocente no exterior?

The New York Times
Elaine Sciolino

em Paris
O Oriente Médio pode ser um lugar perigoso para uma debutante diplomática.

Então talvez fosse inevitável que Ségolène Royal, a candidata socialista nas eleições presidenciais de abril, tropeçaria quando se aventurasse na região em sua primeira viagem ao exterior desde que foi escolhida como a candidata de seu partido, há duas semanas.

A viagem de cinco dias ao Líbano, Jordânia, territórios palestinos e Israel tinha a intenção de combater críticos, mesmo dentro de seu próprio partido, que alegam que ela não tem experiência em política exterior. Em vez disso, Royal provocou uma nova onda de críticas da direita francesa, que diz que ela tem muito a evoluir para provar suas credenciais em relações exteriores.

Mas Royal também pareceu ganhar apoio da liderança israelense, que ignorou seus erros e concentrou-se em seu abraço forte. Ela expôs uma posição de firme defensora de Israel, apoiando seu direito de construir uma barreira de segurança na Cisjordânia e opondo-se a qualquer programa nuclear, mesmo que pacífico, no Irã.

Em certo sentido, ela parece estar tentando estabelecer sua independência da política exterior da esquerda francesa, que tende a favor dos árabes, uma estratégia que pode sair-se mal com seus defensores mais fervorosos.

Ela também parece estar querendo passar uma imagem de ainda mais pró-israelense do que o ministro do Interior Nicolas Sarkozy. Este deve ser nomeado candidato pelo partido governante, União para um Movimento Popular e prometeu promover os interesses de segurança de Israel e deter as ambições nucleares do Irã caso seja eleito presidente.

"Vocês têm à sua frente a única figura política francesa que claramente tomou uma posição contra o acesso do Irã ao poder nuclear civil", disse Royal aos repórteres na segunda-feira, em uma conferência com a imprensa em Jerusalém. "Esta será minha posição se eu for eleita presidente da República."

Essa posição, que ela primeiramente expressou em um debate antes das primárias, é ainda mais rígida do que a do governo Bush, que aceita a construção do primeiro reator nuclear do Irã pela Rússia. Nem mesmo Israel pede uma interrupção da construção em Bushehr, um porto no Sul.

Na terça-feira (5/12), o ministro de relações exteriores francês, Philippe Douste-Blzay, acusou Royal de contradizer uma política oficial francesa no Irã e minar o Tratado de Não Proliferação Nuclear, que permite aos signatários, como o Irã, desenvolverem energia nuclear para propósitos pacíficos.

"Questionar o direito do Irã de obter energia nuclear civil, e eu estresso civil, como fez Royal, é o mesmo que questionar o Tratado de Não Proliferação Nuclear, que foi assinado por quase todos os países do mundo", disse Douste-Blazy em uma conferência com a imprensa.

Quanto à construção de uma barreira de segurança por Israel, Royal caracterizou seu traçado como "problemático", mas apoiou o projeto.
"Quando isso é necessário por segurança, sem dúvida a construção é sem dúvida justificada", disse ela.

Ela também pareceu aprender no caminho. Quando embarcou, disse que era muito importante "falar com todo mundo". Quando chegou a Israel, entretanto, declarou que não deveria haver contato com o Hamas, partido governante palestino.

Ela pediu o fim dos vôos de caças de guerra israelenses sobre as posições francesas no Sul do Líbano. Quando chegou a Israel, disse que os que ainda estão sendo conduzidos são justificados.

Apesar de sua falta de experiência de política exterior, Royal é confiante. Em Beirute na sexta-feira, ofereceu-se para fazer o papel de "facilitadora" para resolver a crise no Líbano. E na conferência com a imprensa em Jerusalém na segunda-feira, que seguiu uma reunião de 45 minutos com o primeiro-ministro Ehud Olmert, anunciou: "A forma como fui recebida foi excepcional."

Apesar de vangloriar-se, não conseguiu despistar suas gafes no início da visita, quando se reuniu com parlamentares libaneses, entre eles Ali Ammar, membro da Hezbollah, patrocinada pelo Irã, pró-Siria.

"O nazismo que derramou nosso sangue e usurpou nossa independência e nossa soberania, não é menos malévolo do que a ocupação nazista na França", Ammar teria dito a Royal. Ele também atacou a "demência ilimitada do governo americano" e chamou Israel de "entidade sionista".

Royal respondeu que concordava "com muitas coisas que o senhor disse, especialmente sua análise dos EUA". Ela defendeu Israel, chamando-o não de "entidade", mas de um Estado soberano que tinha o direito à segurança. Ela não comentou a referência nazista.

Questionada por jornalistas sobre sua crítica dos EUA, ela esclareceu dizendo que significava uma crítica à política americana no Iraque, não às "políticas mais amplas dos EUA".

Perguntada no dia seguinte sobre a observação nazista, ela disse que não tinha ouvido e que era um problema de interpretação. "Se essa comparação tivesse sido feita, nós teríamos saído da sala", disse ela.
Suas atitudes deram ampla munição à direita francesa.

François Fillon, assessor político de Sarkozy, criticou Royal por reunir-se com um representante da Hezbollah. A ministra de defesa, Michele Alliont-Marie, que talvez desafie Sarkozy na nomeação da direita, sugeriu que Royal estava colocando as tropas francesas e moradores no Líbano em perigo.

Na segunda-feira, o próprio Sarkozy entrou na questão. "Royal gerou uma séria controvérsia, e não tenho certeza de que valia a pena", disse ele.
"A situação lá já está extremamente complicada. Então é necessário agir com grande moderação, com grande sentido de responsabilidade, de talento."

Royal recusou-se a aceitar críticas. "Eu não cometi um passo em falso, nem uma gafe", disse ela, acrescentando que "ninguém" a impedirá de "continuar a falar com representantes democraticamente eleitos." É cedo demais para saber se a estréia de Royal no Oriente Médio significa "audácia ou tolice", escreveu no Le Monde Daniel Vernet, especialista em relações exteriores.

A questão mais importante é como os eleitores julgarão seu desempenho.
"Ela queria mostrar que tem a coragem, a iniciativa e a estatura para começar suas excursões no exterior com a mais difícil", disse François Heisbourg, diretor da Fundação de Pesquisa Estratégica em Paris. "Qual resultado isso terá com o eleitorado é desconhecido neste ponto. Sua falta de experiência realmente é aparente." Deborah Weinberg

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