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06/12/2006

Na blogosfera, uma era perdida do jazz é revivida

The New York Times
Nate Chinen
"O jazz meio que morreu", disse o saxofonista Branford Marsalis. "Ele meio que partiu por algum tempo." Ele estava olhando para os anos 70, uma era de incerteza em que alguns músicos de jazz se voltaram para o rock ou funk, e outros mergulharam mais profundamente em uma abstração intelectual. Sua avaliação, feita no último episódio de "Jazz", o influente filme de Ken Burns, parecia um prego definitivo no caixão.

Mas nos últimos seis meses, um vasto contingente de músicos e aficionados tem feito um esforço para mudar a noção predominante, armados com pilhas de discos de vinil, Internet de banda larga e uma convicção compartilhada de que as coisas naquela época estavam realmente longe de moribundas. No caminho, eles provocaram o discurso público mais animado do ano sobre jazz, um debate democrático que culminou no último fim de semana na estréia do behearer.com, um banco de dados interativo dedicado ao período mais conflituoso da música.

O movimento, por assim dizer, tem suas origens em um texto postado pelo trompetista e compositor Dave Douglas, no blog do seu selo, greenleafmusic.com. "Eu estou lendo um novo livro de autoria de Philip Jenkins chamado 'Decade of Nightmares: The End of the Sixties and the Making of Eighties America'", escreveu Douglas no início do verão americano, "e acho que há algumas ligações pertinentes com a história esquiva das últimas quatro décadas da música americana. Estas são as décadas com as quais Ken Burns não conseguiu lidar, e isto pode ajudar a explicar o motivo".

O principal argumento daquele livro é que os anos 70 viram os fracassos e excessos do idealismo dos anos 60 se combinarem com os horrores nacionais como o Vietnã e Watergate, resultando em um conservadorismo paranóide. Em seu blog, Douglas traçou um paralelo. "Há uma satanização de músicos que expandiram as fronteiras, de forma bem-sucedida e importante, naquele período", ele escreveu, "e isto se inseriu na forma como a história é contada e a música é ensinada".

Notando que o "jazz" se tornou uma designação impossivelmente abrangente por volta daquela época, Douglas apresentou uma pergunta retórica: "Há um escritor capaz de assumir o projeto de uma análise não tendenciosa da música desde o final da Guerra do Vietnã?" E usando o marco referencial de Jenkins da renúncia do presidente Richard M. Nixon como sendo o final oficial dos anos 60, ele propôs uma nova história do jazz capaz de reconhecer "uma geração de multiplicidade", a partir de 1974 e se estendendo até o final da Guerra Fria.

A proposta pairou no ar por algum tempo. Então, próximo do final do verão, uma espécie de resposta apareceu em Do the Math, um blog da banda Bad Plus (thebadplus.typepad.com/dothemath). Ethan Iverson, o pianista da banda e principal blogueiro do site, respondeu à pergunta de Douglas não com uma análise não tendenciosa, mas com um catálogo de centenas de álbuns apreciados de sua coleção, completo com anotações casuais, mas articuladas.

Iverson era transparentemente subjetivo ("toda nota é perfeita", ele escreveu sobre "The Golden Number", o LP fora de catálogo de Charlie Haden) e freqüentemente enérgico ("se você não gosta de 'The Calling', eu não posso ajudar você", ele disse sobre uma faixa do álbum "Rejoicing" de Pat Metheny, que também conta com Haden).

"Eu poderia ter feito uma lista mais longa", ele escreveu na conclusão, "mas quantos discos de Paul Bley e Mal Waldron é possível colocar em uma lista sem parecer bobo?" Ao todo, Iverson escreveu quase 5 mil palavras.

Em questão de poucos dias, Do the Math recebeu uma resposta tão imensa que Iverson criou um endereço de e-mail temporário e convocou uma semana para que outros submetessem itens. No final daquela semana, houve não apenas uma enxurrada de e-mails de todas as partes do mundo, mas também um punhado de respostas longas de todos os cantos da nascente blogosfera do jazz.

Darcy James Argue, o líder de uma big band chamada Secret Society, postou sua própria longa lista em secretsociety.typepad.com. Steve Smith, o editor de música clássica da "Time Out New York" e colaborador do "The New York Times", escreveu ainda mais palavras que Iverson em nightafternight.blogs.com, começando pelo endosso erudito de John Carter, um compositor ignorado. Jeff Jackson (nome de blog: Chilly Jay Chill) e Jeff Golick (Prof. Drew LeDrew), donos do destination-out.com, se manifestaram em prol do pianista Muhal Richard Abrams e do saxofonista Marion Brown.

A lista resultante de quase 500 álbuns - compilados por um saxofonista de Boston chamado Pat Donaher em visionsong.blogspot.com - é virtualmente o produto de uma ampla formação aberta de cânone alternativo. Apesar de idiossincrática e avant-garde em temperamento, ele parece admiravelmente não dogmática. Importantes nomes de fusion (Weather Report, Return to Forever, Mahavishnu Orchestra) estão seletivamente representados, assim como esforços acústicos de veteranos como Tommy Flanagan e Joe Henderson. Como a cronologia se estende anos 80 adentro, Wynton e Branford Marsalis também ingressaram na lista.

Dado que Max Roach antes se referia às gravações como "manuais" do jazz, não deve causar surpresa o apelo de Douglas por uma história ter gerado uma discografia. Na verdade, a agitação online evoca levemente um momento formativo na cultura do jazz, quando um punhado de entusiastas se reunia periodicamente no apartamento em New Haven do historiador Marshall Stearns para escutar, e discutir, discos raros de jazz.

Tal roda, sob a bandeira que soava oficial de United Hot Clubs of America, não contava com blogs à sua disposição -isto foi há 70 anos- mas seguia mais ou menos a mesma idéia. Um dos membros do clube, um estudante de Yale chamado George Avakian, transformou seu entusiasmo em uma lendária carreira como produtor de discos; no processo ele teve envolvimento nos primeiros relançamentos de jazz. ("Todo este processo é exatamente o que vivi", disse Avakian na semana passada, quando lhe foi apresentada algumas páginas impressas da recente discussão nos blogs.)

É claro que a blogosfera do jazz não é uma reprodução moderna do United Hot Clubs. Mas os MP3 gratuitos presentes em destination-out.com, geralmente extraídos de LPs fora de catálogo e postados com análises bem-humoradas mas incisivas, servem a um propósito semelhante: "dar a esta música essencial o que lhe é devido e compartilhá-la com as pessoas para que possam ouvi-las por si mesmas", como Jackson escreveu em um recente e-mail.

Behearer.com, batizado segundo um álbum de Dewey Redman e montado nos últimos dois meses por um punhado de voluntários, compartilha tal impulso e abertura. A investida é liderada por um programador, Brett Porter (bgporter.net). No momento, não é muito mais que uma lista com indexação cruzada de discos, começando pelo catálogo de consenso dos blogs. Mas como o site tem a mesma funcionalidade de edição pelo usuário que a Wikipedia, ele tem o potencial de evoluir para uma central de informações. O que é necessário é a participação contínua da comunidade online.

Douglas tem fé em tal comunidade, que tem apoiado a Greenleaf Music desde que foi criada no ano passado. Nesta semana o selo gravará seu quinteto no Jazz Standard; cada set será oferecido para download por US$ 7 em um prazo de 24 horas em musicstem.com. De várias formas, este arranjo lembra a autoconfiança trepidante do avant-garde dos anos 70, mas com melhor tecnologia e um melhor plano de negócios.

Também acentua um ponto sobre a blogosfera de jazz: independente de quão retrospectiva seja a discussão, virtualmente todos os participantes tem algum envolvimento na cena contemporânea. Assim, sua interconectividade tem implicações além do campo da história; é possível até se fazer o argumento Marsalisesco de que ao preservar o passado, os esforços deles ajudam a assegurar o futuro da música. Muitas versões do futuro que se sobrepõem, para ser preciso. George El Khouri Andolfato

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