UOL Notícias Internacional
 

07/12/2006

Bush terá que mudar o curso caso adote relatório sobre o Iraque

The New York Times
Sheryl Gay Stolberg

em Washington
Em 142 páginas diretas, o relatório do Grupo de Estudo do Iraque faz um apelo veemente por um consenso bipartidário na questão de política externa mais divisiva desta geração. Sem o presidente Bush, isto não pode acontecer.

Os comissários cederam um pouco a Bush, adotando sua meta de um Iraque que possa "se governar sozinho, se sustentar sozinho e se defender sozinho". Mas a conversa do governo de um Iraque como um farol de democracia no Oriente Médio está ausente, assim como qualquer conversa de vitória.

Em vez disso, o relatório confronta o presidente com um poderoso argumento de que sua política no Iraque não está funcionando e que ele deve partir para a desocupação. A adoção do plano do grupo por Bush significaria aceitar a crítica implícita à sua agenda democrática, reverter o curso no Iraque e em todo o Oriente Médio e chegar a um acordo com os democratas no meio do caminho.

Assumindo que ele não esteja pronto para ir tão longe, apesar de alguns sinais recentes de flexibilidade, ele enfrenta a pergunta mais geral sobre se está pronto para abraçar o espírito do relatório -sem contar a surra que seu partido levou nas eleições de meio de mandato há um mês- e produzir uma nova abordagem própria que represente mais do que uma reapresentação de sua atual visão de mundo.

"De certa forma", disse Dennis Ross, um emissário para o Oriente Médio que trabalhou tanto para o presidente Bill Clinton quanto para o primeiro presidente George Bush, "o que temos aqui oferece aos democratas um pretexto pronto para mostrar que 'estamos preparados para sermos bipartidários na questão do Iraque, porque abraçaremos o bipartidário Grupo de Estudo do Iraque - vocês também estão preparados para ser bipartidários?'"

O grupo de estudo, por exemplo, pede pelo envolvimento direto do Irã e da Síria; até o momento, Bush tem se recusado. Apesar da resistência de Bush a um prazo para uma retirada, o relatório diz que todas as brigadas de combate "não necessárias para proteção à força podem sair do Iraque" -notando o uso cuidadoso do condicional- até o primeiro trimestre de 2008.

O relatório também pede aos democratas, pelo menos aqueles que têm pedido por uma rápida retirada das tropas, que demonstrem paciência, alertando que uma retirada rápida levaria a um "vácuo de poder significativo, maior sofrimento humano, desestabilização regional e uma ameaça à economia global" - na prática, levando o Iraque à total anarquia.

Mas a verdadeira meta do Grupo de Estudo do Iraque é Bush. O presidente já buscou atenuar o papel que o relatório terá em seu modo de pensar. O governo tem vários estudos próprios em andamento, e Tony Snow, o secretário de imprensa da Casa Branca, começou dizendo já em outubro que a Casa Branca "não terceirizaria a condução da guerra no Iraque".

Assim, apesar de Bush ter chamado o relatório de "uma oportunidade de nos reunirmos e trabalharmos juntos" após recebê-lo na quarta-feira, não causou surpresa no Capitólio o fato de muitos democratas terem sido mais rápidos em abraçá-lo do que os republicanos. Membros do partido do presidente pareciam estar adotando uma espécie de postura de aguardar para ver, elogiando o relatório por sua seriedade e profundidade enquanto buscavam pistas sobre o que Bush fará.

"Eu estou impressionado com a seriedade com que este grupo chegou a suas conclusões e seu apelo para que o partidarismo que temos visto em relação ao Iraque seja diminuído", disse o senador Mitch McConnell de Kentucky, o futuro líder republicano. Mas McConnell evitou qualquer conversa sobre o que Bush deve fazer: "Eu não vou dar conselho ao presidente".

O presidente passou semanas tentando moldar o clima político no qual receberia o relatório. Ele encomendou um estudo do Pentágono e um estudo próprio da Casa Branca. Ele foi para Amã, Jordânia, na semana passada para se encontrar com o primeiro-ministro do Iraque, Nouri Kamal al Maliki; na segunda-feira, ele recebeu um poderoso líder xiita iraquiano, Abdul Aziz al Hakim, na Casa Branca.

Tais passos visavam dar a Bush a flexibilidade que ele precisa para fazer praticamente o que bem entender. Mas, no encontro com ele no Escritório Oval na manhã de quarta-feira, os comissários fizeram um forte apelo para que desse ao estudo deles um maior peso do que o seu próprio, mesmo que apenas pelo fato de contar com apoio de ambos os lados.

"Este é o único conselho bipartidário que receberá", disse a Bush o co-presidente democrata da comissão, o ex-deputado Lee Hamilton, segundo um relato de Snow. Os comissários disseram depois que o presidente pareceu ter absorvido o apelo.

"Eu não quero colocar muita coisa na boca dele agora", disse Lawrence S. Eagleburger, que foi secretário de Estado no final do mandato de Bush pai, "mas não houve nenhuma discussão. Ele não nos refutou em nada".

Bush já está ajustando a política de formas modestas - implementando, por exemplo, algumas das recomendações feitas a ele no final de outubro pelo seu conselheiro de segurança nacional, Stephen J. Hadley, envolvendo outros líderes iraquianos, como Al Hakim, e enviando o vice-presidente Dick Cheney para conversas com os líderes da Arábia Saudita.

Este não é o único sinal de que o presidente considerará seriamente o relatório. O indicado de Bush para secretário de Defesa, Robert M. Gates, pegou Washington de surpresa na terça-feira, quando disse em suas audiências de confirmação que os Estados Unidos não estão vencendo no Iraque. Pode não ser coincidência o fato de Gates ser um ex-membro do Grupo de Estudo do Iraque.

O relatório ofereceu um pouco para todos e também tirou um pouco de todos. A reação foi mais dura nos extremos do espectro político.

William Kristol, o pensador neoconservador que pressionou pela invasão, atacou as recomendações como uma "rendição disfarçada". O deputado John P. Murtha, democrata da Pensilvânia, cujo pedido de uma retirada imediata provocou uma tempestade no ano passado, se queixou de que a comissão ofereceu uma prescrição "não diferente da política atual".

A verdadeira pergunta agora é se o relatório poderá gerar o que o co-presidente republicano da comissão, o ex-secretário de Estado, James A. Baker, chamou de "tremenda quantidade de vontade política" necessária para levar democratas e republicanos a uma cooperação genuína - e Bush a adotar as prescrições que até o momento tem descartado.

Enquanto estava perante a imprensa na quarta-feira, para revelar o há muito aguardado relatório, Baker, um antigo confidente da família Bush, foi perguntado se o presidente tinha capacidade de dar uma volta de 180 graus, como o relatório parecia pedir. Ele se esquivou da questão, mas posteriormente a respondeu em uma entrevista para Brian Williams da rede "NBC".

"Eu não sei o que o presidente fará", disse Baker. "Mas eu sei disto: eu sei que o presidente está em conflito diante da situação lá. Eu sei que o presidente gostaria de tratar disto de forma bipartidária e de uma forma que conte com o apoio da população americana. Este é um veículo para isto."
Mais
Realpolitik retorna ao Oriente Médio
George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,02
    3,136
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    -0,02
    75.974,18
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host