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07/12/2006

Oscar, com carnificina e mutilações

The New York Times
David Carr
A luta pelo Oscar freqüentemente é sangrenta, cheia de tramas, cambalhotas e facadas estratégicas pelas costas, metaforicamente falando. Mas neste ano as mutilações estão aparecendo nos próprios filmes. Talvez os membros da academia passem a desejar usar luvas cirúrgicas de tão sangrentos que foram os filmes deste ano.

Pode-se dizer que a única violência de "Dreamgirls", um dos favoritos da temporada, está em uma recusa tórrida de Jennifer Hudson, e em "The Queen", outro forte candidato, na morte de Diana, princesa de Gales.
Entretanto, muitos outros entre os mencionados incluem temas abertamente violentos que são executados com candura visual de fazer cair o queixo.

Os candidatos aos prêmios começaram com estréia assassina desta temporada com "Os Infiltrados", filme no qual um número de personagens interpretados por atores de grandes nomes foram destroçados enquanto fluidos corporais se espalhavam por toda parte. A contagem de órgãos e corpos continua crescendo com o final da temporada. O filme de guerra de Clint Eastwood, "A Conquista da Honra", tem cenas horríveis de guerra na praia e mais soldados explodidos em pedaços que se vê desde "O Resgate do Soldado Ryan", inclusive uma cabeça sem corpo. Seu filme irmão, "Cartas de Iwo Jima" apresenta uma seqüência longa sobre as conseqüências de suicídios seqüenciais por granada - Eastwood usou a mesma batalha para gravar um filme em japonês.

Não são só a guerra e o crime testam as sensibilidades. Um filme de mensagem como "Diamante de Sangue" não apenas se refere a crianças amputadas, mas mostra o processo. E "O Último Rei da Escócia" apresenta a carne humana vista como um corte de boi. Depois, a série de cenas sangrentas se torna um rio em "Apocalypto", que tem vários corações empalados parecendo um churrasco humano.

Não que tudo isso não tenha significado. "A violência pode ser um corolário da gravidade e da seriedade" da situação, disse Robert Rosen, diretor da Escola de Teatro, Filme e Televisão da Ucla. "Há cada vez mais uma coreografia de violência, uma forma de torná-la estética, que a torna mais aceitável e digna de reconhecimento. De certa forma, a violência gráfica em filmes se tornou uma expressão da violência que sempre existe no mundo real."

Em parte a disputa pelo Oscar deste ano simplesmente reflete uma tendência longa, mas constante na direção de violência mais aberta nos filmes que ainda conseguem classificação livre. A Associação de Cinema dos EUA, que dá as classificações, não retornou pedidos de comentários.
A melhoria na tecnologia e efeitos especiais trouxe verossimilhança a cenas horríveis, enquanto o gênero de horror, com "Jogos Mortais" e "Hostel", elevou o limite (ou diminuiu, dependendo da perspectiva) sobre o que pode ser mostrado. Da mesma forma, a cultura de jogos que tem um público comum com a indústria de cinema, usa a mutilação como assunto durável.

Ao mesmo tempo, um novo nível de derramamento de sangue agora pode ser acessado em casa via cabo, com "Deadwood", "Dexter" e "The Sopranos". Além da permissão cultural, as forças de comércio também estão em funcionamento: a violência espantosa em um filme é uma rota segura para a propaganda de boca a boca entre o público.

Talvez as decapitações mais reais estejam na Web para todos verem. Além disso, o noticiário está cheio de relatos de tortura, guerras com americanos mortos e conflitos civis sangrentos em outros lugares. Talvez o limite tenha mudado no dia em que todos viram as torres cheias de civis desmoronarem na televisão no dia 11 de setembro de 2001. Os filmes, que demoram anos na produção, refletem a mudança nos valores muito tempo depois de terem sido abraçados pela cultura.

"Esses são tempos sangrentos e sérios", disse David Thomson, historiador e autor de "The Whole Equation", entre outros livros. "Há crueldades por aí no mundo real -corpos pendurados, Daniel Pearl sendo assassinado- e acho que é por isso que a tortura entrou em nosso entretenimento de forma séria. Há uma verdade a ela que o público parece estar apreciando."

Os convidados de longos e fraques na noite de premiação deste ano provavelmente serão reconhecidos por personagens mergulhados em sangue. E, dependendo de como se saírem, isso pode significar um padrão muito deferente para o Oscar do que a última temporada. A disputa de melhor filme anterior estava cheia de filmes pequenos que podem ter lidado em questões potencialmente mortais: terrorismo ("Munique"), jornalismo ("Capote" e "Boa Noite, Boa Sorte"), homofobia ("O Segredo de Brokeback Mountain") e racismo ("Crash", que venceu). Mas além dos assassinatos em "Munique", a violência na maior parte subentendida. Neste ano, os membros da academia que votam com as entranhas vão ver muitas delas nas telas.

A história recente do Oscar indica que filmes violentos não têm dificuldades em serem nomeados e até vencerem, desde que os diretores lhes dêem um pouco de história junto com o sangue. "Gladiador", filme no qual Russell Crow usa uma espada como um tipo de sushi-man humano, foi melhor filme de 2001; "Coração Valente", outro épico de Mel Gibson, venceu em 1996. Verdade, "Shakespeare Apaixonado" venceu "O Restage do Soltado Ryan" em 1999, mas quando chegou a escolha entre um assassino em série e "A Bela e a Fera", em 1992, "O Silêncio dos Inocentes" venceu.

Então os 6.000 membros da Academia - que freqüentemente parecem não ter bom humor, e comédias raramente saem-se bem em tempos de Oscar- enfrentarão o macabro, apesar da sabedoria convencional dizer que a preocupação com padrões da indústria e a postura de muitos votantes colocam os filmes violentos em desvantagem. Mas o fato permanece que a academia, dominada por membros dos sindicatos, não foge de um filme quando as coisas ficam feias.

"Não acho que a violência seja realmente uma questão", disse Cynthia Swartz, experiente em campanhas de Oscar e sócia da 42West, firma de relações públicas que representa muitos concorrentes. "A academia tem um histórico de saudar filmes com violência, desde 'Coração Valente' até 'Pulp Fiction', e isso talvez seja porque tem proporcionadamente mais homens do que mulheres."

Terry George, que dirigiu "Hotel Ruanda", filme que recebeu três nomeações em 2005, lutou muito e com sucesso para ter classificação 13 anos, apesar de o filme lidar com eventos horríveis, porque ele queria o maior público possível. Com isso em mente, o diretor usou efeitos sonoros em vez de visuais para mostrar corpos sendo atropelados.

"O genocídio é uma história que precisa ser contada, mas precisa ser contada de uma forma que os adolescentes possam ver", disse ele. "No final, acho que a academia reage à própria história e se a violência serve à história."

John Davis, que produziu "Predator", "Coragem Sob Fogo" e "A Firma", concordou, dizendo que a academia e o público poderiam tolerar coisas horríveis em um filme, se fossem apropriadas no contexto. "É importante que a violência não me empurre para longe de um filme", disse ele. "Se houver uma forma eficaz de contar a história, então acho que faz muito sentido de fato mostrar o que aconteceu." Deborah Weinberg

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