UOL Notícias Internacional
 

08/12/2006

Contrabandistas de gasolina encontram formas de driblar o Brasil e a Venezuela

The New York Times
Larry Rohter

em Pacaraima, Brasil
No último posto de gasolina na BR 174, a rodovia esburacada de duas faixas que termina aqui, na fronteira entre o Brasil e a Venezuela, a gasolina custa perto de R$ 2,80 o litro, o preço aproximado por todo o Brasil. Mas na cidade venezuelana vizinha de Santa Elena de Uairen, o preço na bomba é de apenas 9 centavos o litro.

Lalo de Almeida/The New York Times 
Veículo é retido na Venezuela com galões de gasolina que seriam levados para o Brasil

Como esperado, tal enorme disparidade tem gerado um grande aumento do contrabando de gasolina neste canto remoto e pouco povoado da Amazônia. Os governos de ambos os países têm tentado controlar o problema, mas o lucro potencial é tão atraente que toda medida que adotam simplesmente estimula os traficantes de combustível a serem ainda mais inventivos em seus esforços de evasão.

"É uma situação absolutamente maluca e absurda", disse uma autoridade brasileira, falando sob a condição de que nem seu nome nem o de sua agência fossem citados, porque não quer ser visto como criticando publicamente seus superiores em Brasília. "Nós fazemos prisão atrás de prisão e colocamos todo tipo de controle, mas a diferença de preço é tão grande que torna o problema difícil de ser combatido."

Para transportar a gasolina ilegal até Boa Vista, a cidade mais próxima no Brasil de qualquer tamanho, os contrabandistas costumavam usar uma picape Pampa da Ford, com um tanque de combustível duplo, lhe dando uma capacidade total de mais de 190 litros.

Mas as autoridades de ambos os países agora olham com suspeita para qualquer Pampa, de forma que os contrabandistas de combustível começaram a equipar outras marcas de picapes e mesmo carros comuns de passageiros com tanques, tambores de plástico e até mesmo garrafas escondidas atrás dos assentos, acima dos pneus e sob o capô. As autoridades brasileiras apreenderam recentemente uma caminhonete que foi encontrada transportando mais de 760 litros de gasolina.

As autoridades brasileiras e venezuelanas disseram que o contrabando começou no início da década, quando os preços do petróleo começaram a atingir altas recordes. Mas a diferença de preço entre a Venezuela e seu vizinho bem maior ao sul foi ampliada pelas políticas de energia radicalmente diferentes adotadas pelos dois países.

A Venezuela é membro da Opep e uma das principais produtoras e exportadoras de petróleo do mundo, produzindo 2,8 milhões de barris por dia. Isto permitiu ao presidente Hugo Chávez adotar políticas 'petropopulistas' ao ponto de, como um soldado venezuelano protegendo as bombas em Santa Elena disse, "o nosso país deve ser o único no mundo onde um galão de água é mais caro que um galão de gasolina".

O Brasil é uma potência energética emergente, com um programa inovador de produção de álcool combustível a partir da cana-de-açúcar e produção de quase 1,9 milhão de barris de petróleo por dia, o que lhe permitiu atingir a auto-suficiência neste ano. Mas o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ignorando as amplas queixas, manteve a política que permite que os preços da gasolina acompanhem os aumentos no mercado mundial.

Até o início do ano, os brasileiros podiam comprar gasolina em Santa Elena nos mesmos postos que os venezuelanos. As filas eram imensas, às vezes atingindo quase um quilômetro e provocando queixas dos moradores que passavam metade do dia esperando para encher seus tanques.

Além disso, alguns dos 17 mil moradores da cidade, incluindo professores, estavam deixando seus empregos para se tornarem intermediários de gasolina. Assim, o prefeito Manuel de Jesus Vallez decretou um sistema de racionamento que limita os venezuelanos a comprarem entre 40 e 110 litros de gasolina a cada dois dias, dependendo do tamanho de seus veículos.

Em outro esforço para controlar o comércio, um posto de gasolina supervisionado por soldados venezuelanos armados com metralhadoras foi aberto na terra de ninguém entre os dois postos do serviço de alfândega e imigração na fronteira daqui. Se pretendem comprar gasolina, os motoristas brasileiros que seguem para a Venezuela precisam agora obter uma licença da Receita Federal, que lhes autoriza a comprar combustível no posto ao preço de R$ 1 o litro.

Este é quase um terço do preço no Brasil, mas ainda assim dez vezes mais que o preço nos dois postos de gasolina em Santa Elena, que agora têm ordens de não atender brasileiros. Assim, um novo e mais inventivo sistema de contrabando surgiu, no qual intermediários venezuelanos, conhecidos localmente como "talebans", compram gasolina a preço barato, o armazenam clandestinamente e então o revendem aos contrabandistas brasileiros por cerca de R$ 0,80 o litro.

Os dois governos decidiram agir, em parte, devido à região ser rica em ouro e diamantes, grande parte extraída irregularmente. O lado venezuelano da fronteira está militarizado desde meados de 2005, quando Chávez enviou um batalhão de infantaria de selva do Exército para substituir as unidades da Guarda Nacional, que estava lucrando com subornos em troca de fazer vista grossa ao tráfico de pedras preciosas, ouro e gasolina.

No lado brasileiro, os garimpeiros que invadiram a reserva indígena de Raposa-Serra do Sol, ao leste daqui, precisam de grandes quantidades de diesel e gasolina para operar o equipamento que usam para escavar, lavar e peneirar o solo. Com o diesel custando na Venezuela menos de 5 centavos o litro, inevitavelmente parte do combustível chega às mãos dos garimpeiros dispostos a pagar com ouro ou diamantes.

Mas índios irritados com a presença de intrusos em suas terras costumam parar os caminhões e procurar por combustível, confiscando o que encontram. Isto tem aumentado ainda mais a tensão já existente com os garimpeiros e outros agricultores brancos na região.

"Nós reclamamos e reclamamos com a Polícia Federal e com o Exército, que não fazem nada", disse Dejacir Melchior da Silva, o líder de uma aldeia na reserva. "Então para impedir que a gasolina entre e para proteger a integridade de nossas terras, temos que tomar medidas nós mesmos." George El Khouri Andolfato

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