UOL Notícias Internacional
 

08/12/2006

Hipócrates encontra Fidel, e até estudantes americanos inscrevem-se

The New York Times
Marc Lacey

em Havana, Cuba
Anatomia faz parte da formação médica em toda parte. Bioquímica também. Mas um curso de história cubana?

Estudantes de uma série de países no hemisfério, inclusive os EUA, estão aprendendo medicina ao estilo cubano na Escola Latino Americana de Ciências Médicas, em uma ampla base naval transformada em faculdade, no subúrbio desta capital. Isso significa espetar cadáveres, olhar em microscópios antigos e discutir a revolução que trouxe Fidel Castro ao poder há 48 anos.

Jose Goitia/The New York Time 
Alunos estudam cadáver na faculdade de medicina que ensina também a história de Cuba

Médicos formados em Cuba devem ser capazes não só de diagnosticar uma úlcera ou tratar de hipertensão, mas também de expor sobre os princípios propostos pelo "comandante". Foi o próprio Castro quem, no final dos anos 90, idealizou este lugar, que dá aos médicos potenciais das Américas não só o ABC da medicina, mas também a filosofia básica por trás do bom atendimento médico para as massas.

O governo cubano oferece bolsa plena para estudantes pobres da região e muitos, incluindo uns 90 americanos, pulam de alegria com a chance de faculdade gratuita, mesmo que venha com um pouco de teoria comunista no meio. "Eles estão realizando os sonhos de nosso comandante", disse o diretor, dr. Juan D. Carrizo Estevez. "Como ele disse, são verdadeiros missionários, verdadeiros apóstolos da saúde."

É o desejo pessoal forte de praticar a medicina que move os alunos, mais do que afinidade por Castro. Os que vêm dos EUA especificamente insistem que querem se tornar médicos, não políticos. Eles fogem da noção de que são instrumentos de propaganda para Cuba, como sugerem os críticos.

"Eles não pedem para ninguém ser político - a escolha é sua", disse Jamar Williams, 27, do Brooklyn, graduado da Universidade Estadual de Nova York em Albany. "Muitos alunos decidem ser políticos. Eles vão aos comícios e lêem livros políticos. Mas você pode ficar na sua."

Ainda assim, as autoridades cubanas gostam de apresentar esta escola como um sinal da compaixão do país e de sua posição no mundo. E os estudantes não podem evitar a simpatia diante do retrato de Castro, chamado pelos EUA de ditador que reprime seu povo.

"No meu país, muitos vêem Fidel Castro como um mau líder", disse Rolando Bonilla, 23, panamenho que está em seu segundo ano do programa de seis anos. "Minha opinião mudou. Agora sei o que ele representa para este país. Identifico-me com ele."

Fátima Flores, 20, do México, simpatizou-se com o governo de Castro desde antes de ser aceita pelo programa. "A medicina não é algo apenas científico. É uma forma de servir ao público. Veja o Che."

Che Guevara era um médico argentino antes de se tornar revolucionário e lutou junto com Castro nas montanhas do leste de Cuba e depois perdeu a vida na Bolívia enquanto espalhava ainda mais a causa.

Tahirah Benyard, 27, estudante de primeiro ano de Newark, Nova Jersey, disse que foi a oferta de Cuba de enviar médicos a Nova Orleans depois do furacão Katrina, rejeitada pelo governo Bush, que a levou a pensar em se formar em medicina na ilha. "Eu vi meu povo morrendo", disse ela. "Não havia ninguém disposto a ajudar. O governo dizia que tudo ia ficar bem."

Ela disse que foi rejeitada por várias faculdades americanas, mas de qualquer forma não poderia arcar com seus altos custos. Como outros alunos americanos, ela foi selecionada para o programa cubano pela organização de Nova York Pastores pela paz, que se opõe ao embarco de Washington contra a ilha.

Benyard espera um dia poder praticar medicina nos bairros pobres de sua cidade. Ainda não se sabe se sua formação, que decididamente é de baixa tecnologia, se compara aos padrões americanos, apesar de Cedric Edwards, primeiro aluno americano a se graduar, no ano passado, ter sido aprovado em seus testes da associação de medicina americana.

Se conseguir, Benyard entrará para o pequeno conjunto de médicos afro-americanos. Apenas cerca de 6% dos médicos são membros dos grupos de minoria, diz a Associação de Colégios de Medicina Americanos. Há muita concentração no resultado, mas não há suficiente compaixão pelos pobres, diz.

"A democracia é um grande princípio", disse Williams, que usa cabelo rastafári puxado para trás. "A idéia de que as pessoas podem falar por si mesmas e governar a si mesmas é um grande conceito. Mas as pessoas devem ser educadas e, para isso, precisam de saúde." A formação que os alunos estão recebendo estende-se para além da sala de aula.
"Aprendi a me tornar minimalista", disse William. "Não preciso necessariamente do meu iPod e de todos meus aparelhos para sobreviver."

Também há muito menos opções de comida. O cardápio pode ser descrito como arroz com feijão e mais arroz com feijão. As condições de vida freqüentemente são mais duras em outros respeitos. O fornecimento de energia elétrica cai freqüentemente. O acesso à Internet é limitado. Papel higiênico e sabão são racionados. Algumas vezes as bicas estão secas.

Depois há a questão de espaço pessoal. "Morar com 18 meninas ensina paciência", disse Benyard, que estava acostumada com seu apartamento de um quarto e descreveu suas atuais condições de vida como acampamento militar.

Outros alunos citam o embargo do governo americano como sua maior frustração. O bloqueio, como chamam o governo cubano e muitos dos alunos americanos, significa nada de encomendas de casa, nenhuma visita de mamãe e papai, e a ameaça de que seu governo poderá penalizá-los por virem até aqui.

No ano passado, Washington determinou que os alunos voltassem para casa, mas a decisão foi revertida após protestos do Black Caucus do Congresso, que apoiou o programa.

Um tópico que não aparece nas aulas é a doença específica que colocou Castro no hospital, forçou-o a ceder o poder ao seu irmão Raul e manteve-o longe do público desde julho. Seu diagnóstico, como tudo em Cuba, é segredo de Estado. Deborah Weinberg

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