UOL Notícias Internacional
 

08/12/2006

Se Fidel Castro tivesse um talk show, ele poderia soar assim

The New York Times
Andy Newman*

em Miami
No extremo direito do dial de rádio AM, uma transmissão de um universo paralelo surge em meio à estática: propagandas da agência de turismo estatal de Cuba; reportagem sobre a parada de aniversário de Fidel Castro, em Havana, no último fim de semana, completa com uma avaliação admirada dos tanques da era soviética; trechos de discursos de qualquer irmão de Fidel que esteja dirigindo o país.

John Loomis/The New York Times 
Francisco Aruca, um ex-prisioneiro político cubano que se transformou em admirador de Fidel

Não é um esforço de interferência de sinal transmitido da costa cubana como uma espécie de Radio Marti inversa. Não é, compadre, uma piada de algum tipo.

É Francisco Aruca, um ex-prisioneiro político cubano que se transformou em admirador de Fidel, falando de uma pequena estação de rádio na zona norte industrial de Miami ou, com mais freqüência atualmente, do conforto do escritório de sua casa no exuberante subúrbio de Pinecrest.

Por 15 anos, Aruca, fundador da primeira empresa americana a fazer vôos fretados para Cuba, também tem feito apologia no ar de um homem que a grande maioria dos cubano-americanos em Miami considera um ditador assassino e desprezível.

Ao fazê-lo, Aruca se dirige a uma minúscula comunidade de esquerdistas cubano-americanos que suportaram anos de desprezo público, ameaças e, no passado não muito distante, violência.

"Eu ouço todo dia; é a única forma de você se manter razoavelmente informado na República de Banana de Miami", disse Eddie Levy, presidente da Liga de Defesa Cubano-Americana, um grupo de direitos civis. "Eu o considero um herói. A gente vem e vai, mas Aruca está lá todo dia."

As legiões de críticos do programa desdenham "Ayer en Miami (Yesterday in Miami)" como um infomercial glorificado de sua empresa, a Marazul Tours, que depende de boas relações com o governo cubano e se beneficiaria enormemente da suspensão das restrições de viagem a Cuba, uma das muitas causas de Aruca. Aruca compra seu horário, uma hora matinal nos dias úteis, na estação WOCN-AM (1450).

Independente de qual seja seu meio de apoio, a própria persistência do programa o tornou uma espécie de instituição, não importa o quanto ridicularizado. Apesar de ninguém saber quantos dos 700 mil cubanos do condado de Miami-Dade realmente ouvem o programa, Aruca continua sendo um alvo perene na rádio popular de língua espanhola, o meio dominante do discurso político cubano-americano aqui. Uma canção popular atualmente tem um personagem imitando Fidel Castro trocando a farda habitual por um "agasalho Adidas que Aruca me comprou no Dolphin Mall", onde grande parte de Miami faz suas compras.

Durante o segmento de telefonemas do programa de Aruca na segunda-feira, todas as quatro linhas telefônicas ficaram constantemente ocupadas. Do outro lado havia tantos inimigos quanto fãs, que é como Aruca, 66 anos, diz gostar.

"Eu realmente acredito que o que estou fazendo é útil para os cubanos em Cuba, para a comunidade cubana-americana em Miami, que é útil nos Estados Unidos, que mantêm relações erradas com Cuba", disse Aruca, um homem alegre, de formato quadrado, com um rosto de um buldogue bonzinho. "E dada a mediocridade e a falta de liberdade de expressão e diversidade que há em Miami, eu descobri que fazer algo que sempre gostei, que é conversar, pode ser útil."

Aruca, nascido a 96 km a oeste de Havana, era estudante de uma escola jesuíta quando Castro tomou o poder em 1959, e se tornou parte da contra-revolução logo depois. Ele disse que organizou greves estudantis contra a repressão do governo à liberdade de expressão e foi prontamente preso e sentenciado a 30 anos de prisão. Ele escapou poucas semanas depois.

Aruca repensou suas políticas depois que freqüentou a Universidade de Georgetown, onde se formou em economia. "Eu estava em Washington durante a Guerra do Vietnã e o movimento dos direitos civis, e percebi que o anticomunismo não era razão suficiente para ir à guerra", ele disse. Ele atualmente se identifica como um "socialista cristão, não um marxista", apesar de dizer que considera Castro um "gênio político".

Aruca abriu a Marazul Tours em 1979, logo depois que o governo americano começou a permitir visitas a parentes em Cuba. Quando ele abriu um escritório em Miami em 1986, ele disse, suas vidraças eram constantemente quebradas. Seu escritório já foi atacado com uma bomba incendiária, e um relatório da Human Rights Watch sobre a intimidação da direita no sul da Flórida apontou Aruca como uma das principais vítimas.

Joe Garcia, o ex-diretor executivo da Fundação Nacional Cubano-Americana, a principal voz da comunidade de exilados cubanos, disse que Aruca é acima de tudo "um homem que faz negócios com um regime odioso". Quanto às suas opiniões no ar, Garcia disse: "Ele fala as coisas como diz que as vê e se beneficia da forma como as vê".

A empresa de Aruca e algumas poucas outras agências de turismo são as únicas patrocinadoras do programa além da agência de turismo cubana. Ele disse que a maioria dos empresários não ousa fazer propaganda em seu programa por medo de boicote.

Um segmento na segunda-feira foi uma reportagem que Aruca gravou após a parada de aniversário em Havana, à qual o homenageado doente não compareceu.
"Alguém sentado ao meu lado disse que a infantaria cubana não deveria ser capaz de marchar", disse Aruca na gravação. "Parece-me que está marchando muito bem."

Após colocar no ar (e elogiar) um trecho do discurso do irmão de Fidel, Raul Castro, durante a parada, convidando os Estados Unidos a iniciarem discussões diplomáticas, Aruca abriu os telefones.

"Fidel lhe deu os tênis, os tênis que ele usou lá?", perguntou um homem. "Se você quer brincar, vá a outros programas", disse Aruca, cortando a ligação. "Além disso, Fidel não sabe que número eu calço."

*Terry Aguayo contribuiu com reportagem para este artigo George El Khouri Andolfato

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