UOL Notícias Internacional
 

09/12/2006

Fileiras cada vez menores de veteranos de Pearl Harbor se agarram às lembranças

The New York Times
Jesse McKinley
em Pearl Harbor, Havaí
Desde aquela manhã terrível há 65 anos, os sobreviventes do ataque a Pearl Harbor são chamados de heróis, VIPs da maior geração, as primeiras testemunhas americanas da última guerra mundial.

Mas cada vez mais, os membros deste grupo exclusivo estão sendo chamados de algo mais: ameaçados de extinção.

Jim Wilson/The New York Times 
Os sobreviventes de Pearl Harbor fizeram última reunião no Havaí, 65 anos após ataque

Com a idade e dores nas juntas retardando até mesmo o mais durão dos antigos marinheiros, fuzileiros e aviadores, o principal grupo nacional de sobreviventes decidiu que a reunião de aniversário deste ano será sua última no Havaí.

"Nós estamos nos tornando tão extintos quanto o pássaro dodô", disse Mal Middlesworth, o presidente da Associação dos Sobreviventes de Pearl Harbor, que tradicionalmente se reúne aqui a cada cinco anos. "Da forma como vai, nossa próxima convenção nacional aqui poderá ser realizada em uma cabine telefônica."

Middlesworth, 83 anos, que assistiu ao ataque do convés do cruzador USS San Francisco, disse que grande parte de seus 4.600 membros sobreviventes simplesmente estão velhos demais para viajar grandes distâncias. "Há muitos em cadeiras de rodas e andadores", ele disse. "E não temos tropas substitutas."

Mas se será o fim, então será um fim memorável. Os organizadores disseram que a platéia na comemoração de quinta-feira no porto - apelidada de "A Última Reunião"- foi uma das maiores em anos, com mais de 3 mil espectadores, o dobro do número esperado, sendo que alguns acamparam bem antes do amanhecer para entrar. Tal número incluiu cerca de 400 sobreviventes, usando quepes navais, faixas de campanha e medalhas.

Muitos sobreviventes trouxeram várias gerações da família. "Muitas das famílias vêm apenas para trazer o avô", disse Middlesworth. "E eles precisam de todos ali para ajudá-los a circular."

Stephen Yorden, 86 anos, fez a viagem da suburbana Filadélfia com suas duas filhas, sua neta e neto. Yorden, que servia como mecânico no destróier USS Dewey quando o ataque começou e que apenas recentemente se aposentou de uma carreira no setor de construção, disse que os motivos para vir neste ano eram simples.

"Eu estou ficando cansado: os ossos já não são como antes", ele disse, explicando que tem sido atrapalhado por uma dor nas costas. "E imaginei que podia gastar algum dinheiro antes que tenha que dá-lo ao Tio Sam."

Acadêmicos e historiadores também estavam presentes na ilha de Oahu nesta semana, como parte de um simpósio de uma semana ligado ao aniversário do ataque surpresa que ocorreu ao amanhecer, no qual 2.338 civis e militares morreram e 21 navios de guerra foram afundados ou destruídos. Os temas e eventos incluíram uma discussão sobre o ponto de vista japonês dos ataques e uma reencenação de uma competição de dança de 6 de dezembro de 1941 (a noite anterior aos ataques), contando com os dois mesmos dançarinos -Pat Thompson e Jack Evans- que venceram naquela noite. Desta vez, a rotina deles foi mais breve, mais lenta, mas inegavelmente mais doce.

Daniel A. Martinez, um historiador do Serviço de Parques Nacionais aqui em Honolulu, fez comparações entre a cerimônia em Pearl Harbor deste ano e um encontro em 1938 em Gettysburg, Pensilvânia, de cerca de 2 mil veteranos da Guerra Civil, que foi considerado o último viva daquele grupo.

"Esta é literalmente uma organização que está enfrentando sua própria mortalidade", disse Martinez. "Isto a torna uma viagem muito difícil não apenas fisicamente, mas emocionalmente."

As lágrimas nos olhos de A.M. Geiger confirmavam isto. Geiger, 85 anos, veio para cá de Buford, Carolina do Sul, com sua filha, Janice, que veio de Tampa, Flórida. Na manhã dos ataques, Geiger estava tomando café quando um projétil japonês atravessou a cozinha do prédio onde ele estava, em Ford Island.

Ele veio à cerimônia deste ano para doar uma bandeira americana que encontrou naquela tarde, e se encheu de lágrimas diante do pensamento de nunca mais retornar à Pearl Harbor. "Não fale sobre isto", disse Geiger, que caminha com uma bengala e usa um marcapasso. "Não resta mais nenhum dos meus amigos."

Emoções à parte, muitos dos antigos marinheiros ainda se mostravam mais durões que tristes. Mel Fisher, 84 anos, um ex-engenheiro no destróier do USS Whitney, que lembrou de ter sido despertado de seu dormitório na manhã dos ataques, estava aqui com quatro gerações de sua família. "Eu estou tentando me livrar deles", ele disse, sorrindo para sua neta de 18 anos, Kate.

Fisher disse que cinco membros de seu grupo local de sobreviventes de Pearl Harbor no norte da Califórnia morreram no ano passado. "Nós almoçávamos uma vez por mês", ele disse. "Se consigo fazer sete deles se levantarem, é um bom dia. Os restaurantes nem querem mais a nossa presença, porque não bebemos mais."

Ainda assim, ele disse que espera ansiosamente encontrar alguns dos antigos colegas de tripulação, apesar de dizer que nem sempre é fácil. "Por algum motivo, eles parecem diferentes", disse Fisher. "O cabelo deles é engraçado e muitos deles mancam."

O encolhimento das fileiras dos sobreviventes de Pearl Harbor, que Middlesworth estimou em cerca de 6 mil -espelha a redução geral do número de veteranos da Segunda Guerra Mundial. Até setembro de 2006, o Departamento de Assuntos de Veteranos disse que cerca de 3,2 milhões de veteranos americanos da Segunda Guerra Mundial ainda estavam vivos. Até 2021 - o 80º aniversário de Pearl Harbour - o departamento projeta que o número de veteranos da Segunda Guerra Mundial terá encolhido para 158 mil.

Middlesworth disse que muitos veteranos apreciaram este aniversário como uma última chance de mostrar às suas família o que suportaram naquele dia. Entre eles o próprio Middlesworth, que era um fuzileiro de 18 anos quando viu aviões japoneses sobrevoando a popa de seu navio, o San Francisco.

"Nós não tínhamos combustível nem munição porque tínhamos chegado para manutenção, e não achei que minha 45 seria de alguma ajuda, de forma que fiquei parado assistindo", lembrou Middlesworth, que atualmente vive em Upland, Califórnia.

"Mas eu vi o Oklahoma virar, e vi o Arizona explodir", ele disse, se referindo a dois navios de guerra destruídos naquele dia. "Eu olhei para cima e vi o oficial no convés cheio de lágrimas no rosto. Mas era demais para minha mente entender."

Middlesworth disse que seu neto lhe perguntou recentemente sobre os ataques, e quando ele começou a falar, seu filho se sentou. "Eu disse: 'O que você está fazendo?' E ele disse: 'Pai, você nunca me contou nada sobre o que viu'."

O grupo de sobreviventes planeja continuar realizando convenções nacionais a cada dois anos, mas manterá os eventos no continente. Isto não impedirá, é claro, que alguns veteranos visitem o Havaí, tanto para recordação como para homenagear os homens que não sobreviveram.

"Você nunca supera: eu estava chorando", disse Haile Jaekel, 82 anos, que serviu no cruzador USS Salt Lake City e perdeu amigos naquele dia. "Mas continuarei vindo aqui até morrer." George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,79
    3,152
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h22

    1,18
    65.148,35
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host