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09/12/2006

No mistério do envenenamento por polônio, uma estranha nota de rodapé italiana

The New York Times
Ian Fisher*

Em Roma
Mario Scaramella disse ter sido envenenado com cinco vezes a dose letal de polônio 210, a substância radioativa que matou o ex-espião russo Alexander V. Litvinenko. "Eu não estou no melhor dos humores", ele disse em uma entrevista para a televisão italiana de seu leito no hospital em Londres, no mês passado.

Então, em 6 de dezembro, ele deixou o hospital com traços insignificantes de envenenamento radioativo, mas fora isto bem.

Parecia uma atuação clássica para Scaramella, 36 anos, que despontou como a mais estranha nota de rodapé no mistério da morte de Litvinenko.

Há alguns poucos fatos certos a seu respeito. Em 1º de novembro, o dia em que acredita-se que Litvinenko foi envenenado, Scaramella e o ex-espião se encontraram em um sushi bar em Londres. E até o momento ele não é considerado um suspeito. Além disso, é difícil conciliar as palavras de Scaramella sobre si mesmo com qualquer que seja a realidade.

Ele alegou ser um professor da Universidade de Nápoles, que disse que nunca ouviu falar dele. Ele foi gravado se gabando de que Silvio Berlusconi, o ex-primeiro-ministro italiano, o estava considerando para um alto posto na ONU. Ele posteriormente reconheceu que nunca se encontrou com Berlusconi.

E assim, uma grande quantidade de reportagens sobre ele e sua carreira aqui - incluindo a tentativa de provar que importantes políticos italianos de centro-esquerda, incluindo o primeiro-ministro Romano Prodi, são espiões russos - invariavelmente incluem adjetivos pouco lisonjeiros. Entre eles: "mentiroso incurável", "aspirante a 007", "fanfarrão", "trapalhão" e "trapaceiro", sem contar "idiota" e "doente mental".

Estas duas últimas descrições vieram de Oleg Gordievski, um ex-alto oficial da KGB que desertou para o Reino Unido em 1985. Gordievski conhece Scaramella há anos. Sua opinião sobre Scaramella é tão baixa que nem mesmo poderia considerá-lo suspeito no envenenamento de Litvinenko, mesmo após este ter levantado tal possibilidade em uma conversa com Gordievski.

"Eu disse: 'Quem envenenou você? Com quem você se encontrou?'" lembrou Gordievski em uma entrevista por telefone do Reino Unido, na sexta-feira. "Ele disse: 'Eu me encontrei com Scaramella. Ele estava muito nervoso. Ele estava muito estranho, mas ele sempre é estranho'."

"Eu disse: 'Sasha, não poderia ser Scaramella porque ele não tem nada a ver com a KGB'", disse Gordievski.

Ele concluiu: "Ele é apenas uma bolha de sabão. Ele não sabe de nada".

Várias tentativas de contatar Scaramella, que ainda está em Londres e supostamente está cooperando com os investigadores, não foram bem-sucedidas.

Ele disse à "CNN" nesta semana que voou urgentemente para Londres para alertar que tinha recebido mensagens de e-mail de uma "fonte" que Litvinenko tinha apresentado a ele, dizendo que ambos estavam "sob atenção especial de pessoas hostis".

A viagem combinava muito com o caráter de Scaramella, que por anos cultivou uma reputação de ser um homem com contatos misteriosos e amigos em altos escalões, com um interesse particular na ligação da Itália com a espionagem russa. Há vários anos, ele escreveu um memorando alegando que, em 1970, um submarino soviético deixou 20 minas nucleares na Baía de Nápoles.

Apesar de sua carreira acadêmica parecer obscura, não há dúvida de sua atividade geral entre 2003 e 2006. Ele trabalhou como consultor da Comissão Mitrokhin, um grupo parlamentar italiano criado pelos políticos de centro-direita para investigar ligações entre a inteligência russa e a Itália. Publicamente, a comissão investigou um grande número de casos, incluindo o seqüestro e assassinato do ex-primeiro-ministro Aldo Moro, em 1978, pelo grupo militante comunista Brigadas Vermelhas, e a tentativa de assassinato contra o papa João Paulo 2º, em 1981.

Mas as transcrições dos telefonemas entre Scaramella e o senador Paolo Guzzanti, o presidente da comissão e um membro do partido Forza Italia de Berlusconi, revelam que grande parte do esforço da comissão era tentar provar antes das eleições deste ano que Prodi foi um agente russo.

O interesse em Prodi parece ter sido o grande elo entre Scaramella e Litvinenko. Tanto Litvinenko quanto Gordievski recontaram em entrevistas o profundo interesse de Scaramella em provar que Prodi foi um agente russo. Os relatos diferem, mas Gordievski disse na sexta-feira que estava presente quando Litvinenko, que se mudou para o Reino Unido em 2000, recontou a membros do Partido da Independência do Reino Unido uma conversa com um general russo solidário sobre para onde ir em caso de deserção.

"Ele disse: 'Eu estava falando com o vice-chefe da KGB, o general tal e tal", lembrou Gordievski. "E ele me disse: 'Se você pretende ir para o Ocidente, não vá para a Itália porque está cheia de nossos agentes'. E ele disse: 'Por exemplo, Prodi é um dos nossos homens'."

As transcrições entre Scaramella e Guzzanti mostram um interesse particular nesta conversa, e Scaramella pressionou repetidas vezes Gordievski e Litvinenko por mais informações. Gordievski disse ter dito a Scaramella que nunca ouviu nada sobre Prodi e o serviço de inteligência russo - mas que Scaramella disse posteriormente, em uma mensagem por e-mail, que Gordievski tinha, na verdade, confirmado o elo.

"Eu quase caí da minha cadeira", ele disse. "Ele escreveu aquilo naquele e-mail estúpido para mim. Eu não escrevi. Ele escreveu aquela aberração mental dele."

Em uma entrevista em 2005 para o "La Repubblica", um jornal italiano, Litvinenko recontou sua viagem para Nápoles em 2004 para depor perante a comissão, levado por Scaramella, sobre a ação da espionagem russa na Itália.

"Eu disse ao Mario que nunca ouvi falar de Prodi", disse Litvinenko ao "La Repubblica".

No final de vários dias de depoimentos, disse Litvinenko, Scaramella colocou na mão dele algum material de escritório de sua empresa e várias centenas de euros.

"Eu me senti humilhado", ele disse ao jornal. "Eu lhe disse que ele tinha se equivocado se pensava que o coronel Litvinenko estava reduzido a vender sua informação."

*Peter Kiefer contribuiu com reportagem para este artigo. George El Khouri Andolfato

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