UOL Notícias Internacional
 

12/12/2006

Pinochet deixa um legado amargo de divisão

The New York Times
Larry Rohter

em Santiago, Chile
Na televisão chilena na tarde de domingo, simpatizantes do general Augusto Pinochet estavam batendo em manifestantes que comemoravam a morte do ex-ditador do país. "Veja isto", se queixou o gerente de uma agência de aluguel de carros em Pucón, uma cidade no sul. "Mesmo agora que está morto, Pinochet continua a perturbar este país."

O Chile parecia mais calmo na segunda-feira, com os poucos admiradores remanescentes do general desfilando ao lado de seu caixão na academia militar daqui e o restante do país retomando suas atividades normais. Mas o momento de sua morte não apenas trouxe à tona muitas das divisões criadas por Pinochet, mas também uma série de problemas legais e políticos não resolvidos.

As vítimas de violações de direitos humanos do general, por exemplo, expressavam frustração com o fato de ter morrido "sem pagar sua enorme dívida com a Justiça" ou mesmo enfrentado julgamento, nas palavras de Lorena Pizarro, diretora do Agrupamento de Familiares de Detidos Desaparecidos.

Perguntas também foram levantadas sobre o que aconteceria agora aos vários casos criminais abertos contra ele e seus subalternos em anos recentes.

"A grande pergunta é se isto dará um impulso a estes processos ou terá o efeito inverso", disse Sebastian Brett, o representante chileno da Human Rights Watch Americas. "Alguns podem ficar tentados a perguntar: 'O velho morreu, então qual o sentido em continuar?' Mas me pergunto se alguns dos oficiais militares que basicamente mantinham um pacto de silêncio começarão a falar como uma forma de reduzir suas perdas, agora que a influência assustadora de Pinochet se foi."

Defensores de direitos humanos querem que estes casos prossigam, mesmo que apenas para minar as alegações mais extravagantes dos defensores de Pinochet e tornar o registro histórico claro.

Fora da academia militar na manhã de segunda-feira, por exemplo, Ivan Moreira, um deputado de direita, dizia a todos que quisessem ouvir que Pinochet não foi um executor brutal, mas "um grande estadista e libertador, o homem que salvou o Chile do marxismo e evitou uma guerra".

Grande parte das acusações de assassinato, seqüestro e tortura contra o general também envolve outros oficiais e assim não caducarão. Além disso, sua esposa e alguns de seus cinco filhos foram indiciados juntamente com ele por fraude e evasão fiscal, acusações derivadas da revelação pelo Senado americano, em 2004, de que ele acumulou clandestinamente uma fortuna ilícita, atualmente estimada em US$ 28 milhões, em contas bancárias no exterior.

Pinochet deixou de ser um participante importante na política chilena muito antes disso, em conseqüência de sua detenção no Reino Unido, em 1998, por violações de direitos humanos. Mas a política aqui continua girando em torno dele e seu legado, e sua morte promete afetar as duas principais alianças políticas do país.

Como um dos maiores vilões da história moderna, ele tem sido uma dádiva para a coalizão de socialistas e democratas cristãos que está no poder desde o fim de sua ditadura, em 1990. Os partidos estavam sempre em choque antes de ele sujeitá-los aos traumas unificadores de assassinato, tortura e exílio, e algumas diferenças entre eles em questões sociais e políticas econômicas têm se intensificado recentemente.

"Será um grande desafio para a coalizão encontrar um ponto em comum e construir uma plataforma para futuras eleições", disse Patricio Navia, um professor de ciência política da Universidade Diego Portales daqui e da Universidade de Nova York.

"Eles se uniram em oposição a Pinochet e na liderança da restauração da democracia", disse Navia, "e agora que Pinochet se foi, o medo de que a antiga política chilena e as velhas divisões possam retornar não deve ser descartado".

Para os dois principais partidos direitistas de oposição, por outro lado, a morte de Pinochet é um alívio e uma oportunidade. Eles eram manchados por sua associação com ele e sua ditadura, seus esforços para atrair os eleitores moderados atrapalhados e suas credenciais democráticas repetidamente questionadas em conseqüência de sua relutância em criticar as violações de direitos humanos dele.

Eles já começaram a se distanciar de tais ligações, como ficou evidente pelas queixas da família Pinochet de que certos líderes partidários não visitaram o general em seus últimos dias. Mas assim que seu funeral tiver terminado e as festas de fim de ano e as férias de verão enterrarem as notícias, a direita estará livre para acelerar o processo de dissociação seletiva.

"Com o desaparecimento de Pinochet, tal peso político agora diminuirá", disse Juan Bustos, um membro socialista do Congresso que é autor de um projeto de lei para cancelar a lei de anistia da era Pinochet, que tem impedido que os violadores de direitos humanos sejam processados. "Assim, há certa vantagem para eles nisto tudo."

A morte do ex-ditador também forçou a presidente Michelle Bachelet a um malabarismo político delicado. A presidente não é apenas uma socialista e uma médica como Salvador Allende, que foi derrubado por Pinochet com apoio de Washington em 11 de setembro de 1973, mas também é uma ex-exilada, prisioneira política e filha de um general que morreu na prisão após ser torturado.

Devido ao seu passado, Bachelet, também uma ex-ministra da Defesa, precisa ser cuidadosa para não tomar medidas que pareçam vingativas ou rancorosas. Ela decidiu que Pinochet não terá o funeral oficial normalmente concedido a um ex-chefe de Estado e não decretou um período de luto oficial, mas permitiu que a bandeira chilena fosse hasteada a meio pau nas instalações militares e autorizou seu ministro da Defesa a ir ao funeral. Um dos filhos do general, Marco Antonio, pediu em uma entrevista de rádio que o governo não enviasse um representante.

No que foi interpretado como um sinal de seu dilema, Bachelet usou um vestido preto para trabalhar na segunda-feira, mas não disse nada específico sobre a morte de Pinochet. Tal silêncio encorajou interpretações opostas: de que estava buscando discretamente evitar ofender os partidários dele, ou que estava expressando condolência pelas milhares de vítimas de seu governo brutal.

"Deve ser difícil para a presidente separar sua resposta subjetiva à figura de Pinochet de seus deveres como chefe de Estado", disse Carlos Peña González, um autor e advogado proeminente. "Sua vida está intimamente ligada à de Pinochet, mas seu papel exige que mantenha sua compostura e nem lamente nem celebre, que reprima e modere seus sentimentos e assim aproveite a oportunidade para relançar o projeto de uma aliança de governo." George El Khouri Andolfato

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