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14/12/2006

Diamantes são para nunca?

The New York Times
Mireya Navarro
Em Los Angeles
Mônica Gibson diz que não é particularmente política, mas quando ouviu falar dos conflitos de diamantes em um episódio do "The Oprah Winfrey Show" na semana passada com o elenco e o diretor do novo filme "Blood Diamond" (diamante de sangue), ela olhou para seu anel de noivado e não pensou em amor, mas em guerras e violência.

Seu noivo deu a ela o anel no verão passado, disse ela, e talvez nunca descubra de onde vieram seus 24 diamantes. Mas agora que o casal está procurando as alianças de casamento de diamante, Gibson disse que não vai comprar a não ser que o joalheiro possa garantir não apenas a qualidade da lapidação, clareza e cor, mas também a origem da gema.

"Tantas vezes você se sente impotente nas questões importantes. Vou sentir que pude ajudar alguém em algum lugar", disse Gibson, 36, administradora de uma provedora de telefone em Pittsburgh.

Fregueses como Gibson estão fazendo mais perguntas sobre o símbolo icônico de amor eterno depois que o interesse pela origem dos diamantes foi fomentado por um novo filme de Hollywood que denuncia as práticas da indústria de diamantes e de um contra-ataque de propaganda pela indústria.

Os termos "diamantes de conflito" ou "diamantes de sangue" referem-se a gemas que foram usadas por grupos rebeldes para pagar por guerras que mataram e deslocaram milhões de pessoas na África, fonte de 65% dos diamantes do mundo. A indústria de diamantes alega ter salvaguardas para garantir que a maior parte dos diamantes brutos venha de áreas livres de conflito violento, pelo Processo Kimberley, um sistema de acompanhamento implementado em 2003.

Mas críticos dizem que não há supervisão independente da indústria e que diamantes de conflitos ainda chegam ao mercado. A questão está alcançando as lojas e empresas de noivas na Web, enquanto noticiários, astros de Hollywood e músicas de rap mergulham no assunto.

"Seria exorbitante nós, pelo bem da vaidade, contribuirmos para a destruição de um país. Então eu acho que tentar tornar mais efetivo o sistema de garantias é uma escolha bem clara", disse Jennifer Connelly, sem jóias, no final do mês passado na estréia de "Blood Diamond" em Nova York. O filme conta também com Leonardo DiCaprio e Djimon Hounsou.

Axel Koester/The New York Times 
David e Mary Alice Borello observa vitrine para comprar anel de aniversário, na Califórnia

Mais pessoas estão se sintonizando, disse Carley Roney, editor do theknot.com, sítio da Web de casamentos. "Há uma discussão extensiva acontecendo em nossas salas de conversa", disse ela. "Muitas mulheres estão dizendo: 'Supostamente, esse é um símbolo de todas as coisas boas, e não quero olhar para meu dedo e pensar em mulheres e crianças sendo mortas.' Isso mina todo o significado da aliança."

Não há evidências de que o consumidor esteja fugindo dos diamantes. As vendas de jóias com diamantes nos EUA aumentaram 7% no ano passado, para US$ 33,7 bilhões (em torno de R$ 74 bilhões). Os consumidores americanos são responsáveis por metade dos US$ 60 bilhões (cerca de R$ 132 bilhões) em vendas anuais. Um questionário entre os usuários do theknot.com, na última semana, mostrou que a maioria de entrevistados não conhecia o termo "diamante livre de conflito".

Shane Dunleavy, 23, estava no distrito de joalherias no centro de Los Angeles, na semana passada - quando as compras de alianças para a época das férias estavam em pleno vapor. Dunleavy, acompanhada dos pais, estava procurando um diamante com lapidação de princesa. Ela não tinha ouvido do debate, mas seu pai sim. "É como petróleo, e você ainda compra gasolina", Jim Dunleavy, 57, disse dando de ombros.

Mas outros consumidores estão fazendo pesquisas e reagindo. Alguns joalheiros disseram que as pessoas deixaram claro que querem somente diamantes livres de conflitos e perguntaram de onde vinham as pedras oferecidas.

Abigail Levine, 27, diretora de um programa de uma organização sem fins lucrativos em Columbus, Ohio, disse que ela e seu noivo, quando iam comprar as alianças em setembro último, concordaram que tinham coisa melhor a fazer com o dinheiro do que gastar em um diamante.

"Sabemos que empresas de diamantes comercializaram esse conceito de um anel de noivado de diamante", disse Levine. "Não queríamos cair nessa. É uma enorme manipulação, de fato."

Mas no final, nem Levine conseguiu resistir, e dois pequenos diamantes ladeiam sua safira azul. "Não somos puristas", disse ela. "Nós simplesmente não queríamos apoiar a indústria de diamantes de forma tão grande."

Especialistas em noivado dizem que a preferência por diamantes certamente perdurará, por causa de fatores estéticos e culturais. Mas ao mesmo tempo, muitas noivas estão enfatizando a individualidade e evitando o tradicional, disseram os especialistas. Algumas trocaram o diamante por uma gema colorida, como uma safira rosa ou azul. Outros clientes trocaram os diamantes da África em favor de diamantes do Canadá, pedras antigas ou sintéticas.

Muitos casais de hoje também estão expressando sua consciência social no planejamento de seus casamentos. Pedem, por exemplo, doações para a caridade no lugar de presentes. Esses mesmos casais vão se preocupar com a proveniência de seus diamante, observam os especialistas.

Hoje em dia, "em geral, um número maior de pessoas tem um sentido do mundo a seu redor e de como suas ações afetam esse mundo", disse Millie Martini Bratten, editora da revista Brides. Ela disse que há uma atitude "de não ter um casamento só sobre os noivos".

"Blood Diamond" mostra como as empresas de diamantes ignoraram atrocidades cometidas nos anos 90 por rebeldes em Serra Leoa, que venderam diamantes brutos para comprar armas. O Conselho Mundial de Diamantes, que representa produtores e comerciantes, respondeu com anúncios e uma página na Web, diamondfacts.org. O conselho ressalta que mais de 99% dos diamantes atualmente vêm de fontes livres de conflito e que a renda em grande parte é usada para saúde, educação e outros benefícios em países africanos.

"Você está olhando para uma percentagem muito, muito pequena do fornecimento do mundo, que pode ser considerada de uma zona de conflito", disse Carson Glover, porta-voz do Conselho de Diamantes Mundial. "Os consumidores podem sentir-se muito confiantes em sua compra de diamantes." Mas grupos de direitos humanos internacionais como Anistia Internacional e Global Witness, que divulgaram a questão pela primeira vez em 1998, discordam. Eles dizem que diamantes sujos ainda chegam ao mercado, por causa do contrabando e da fragilidade dos controles de alguns países produtores, e que os consumidores não têm uma forma segura de dizer se um diamante é limpo.

Uma porta-voz da Global Witness observou que os diamantes ainda vêm de áreas de conflito como a Costa do Marfim, e que um relatório recente do Escritório Geral de Contabilidade encontrou problemas na forma como os EUA estavam fiscalizando o sistema de monitoramento. (O site da organização é blooddiamondaction.org).

Tom Zoellner, que pesquisou a indústria para seu livro "The Heartless Stone" (a pedra sem coração), disse que o Processo Kimberley não se preocupa com algumas práticas objetáveis, como o uso de trabalho infantil na Índia, onde a maior parte dos diamantes é polida. Mas ele disse que, como muitos africanos dependem das pedras para viver, um boicote não seria uma boa resposta. A melhor defesa contra diamantes sujos, disse ele, é fazer perguntas.

Grupos de direitos humanos sugerem procurar revendedores que possam mostrar uma garantia de que os diamantes são livres de conflitos.

A maior parte das lojas não tem uma política, segundo uma pesquisa dos grupos de direitos humanos. Algumas joalherias não consideram ser obrigação sua saber a origem das pedras. "Não estou aqui para salvar o mundo. Estou aqui para tornar a vida bela", disse Raymond Moutran, joalheiro há 27 anos no distrito de joalherias de Los Angeles.

"Um sujeito queria saber se o diamante vinha da África e se era de uma área onde as pessoas são torturadas", disse Moutran. "Eu disse: 'Não sei'. Ele não comprou. Não preciso mentir para ganhar a vida."

Outro joalheiro antigo, Russ Varon, do Morgan's Jewelers em Torrance e Palos Verdes, Califórnia, disse que a maior parte dos diamantes das lojas vem de minas africanas e lapidadores em Israel, e que cerca de dois anos atrás as faturas de seus fornecedores começaram a aparecer com um aviso de que são livres de conflito.

Mas Varon admitiu que esse documento não é garantia. "Verdadeiramente não sei a história do que acontece por lá", disse ele.

No domingo, Mary Alice Borello, 53, entrou na Morgan's procurando um presente para seu 25º aniversario de casamento. Ela e seu marido, David, saíram com uma aliança com dois quilates de diamantes. Ela não perguntou sobre conflitos globais.

"A questão é se deveríamos ficar preocupados enquanto consumidores. É de se esperar que os joalheiros só comprem seus diamantes de forma legítima. Isso é o que eu esperaria deles", disse Borello mais tarde. Ela é supervisora de um parque em Redondo Beach, Califórnia.

É preciso mais informação, disse Roney da theknot.com. Mesmo os que não se preocupam com a origem dos diamantes, assumem, incorretamente, que qualquer diamante da África é sujo.

O conhecimento algumas vezes chega de forma engraçada. Lorne Walker e Laurel Greenidge de Seattle, ambos de 26 anos, disseram que ouviram falar sobre o conflito de diamantes em 2004, em uma apresentação cômica de Bill Maher. Greendige, que trabalha para uma editora, pesquisou o assunto e ficou horrorizada com os relatos de diamantes sendo usados para pagar por guerras.

Quando Walker, estudante de medicina, foi comprar as alianças, sabia que seria uma "questão de consciência" para sua noiva, disse. Ele comprou um diamante canadense certificado.

O casamento foi em agosto. "Não queria olhar para meu anel todos os dias e me perguntar se patrocinou a morte de alguém em algum lugar distante ou se foi extraído por um menor de idade que deveria estar na escola", disse Greenidge. "Quando olho para ele, vejo nosso relacionamento e amor e felicidade e o futuro." Deborah Weinberg

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