UOL Notícias Internacional
 

14/12/2006

Visão de Carter do 'apartheid' israelense provoca furor

The New York Times
Julie Bosman
Na noite de terça-feira em Phoenix, após autógrafos e entrevistas para promover seu novo livro, "Palestine Peace Not Apartheid" (Paz Palestina, não Apartheid), o ex-presidente Jimmy Carter realizou uma visita arranjada às pressas: um encontro de uma hora com um grupo de rabinos.

"Nós terminamos com as mãos dadas formando um círculo, em oração", disse Carter em uma entrevista por telefone, em Phoenix, acrescentando que os rabinos pediram o encontro para discutir seu livro.

Foi uma interrupção incomum durante uma turnê de lançamento de um livro controverso, que teve início com algumas poucas queixas no mês passado e cresceu até um furor em grande escala, com Carter sendo perseguido por manifestantes durante autógrafos de livros, criticado em jornais, editoriais e, no normalmente sonolento programa "Book TV" do C-Span2, sendo chamado de racista e anti-semita por um espectador indignado.

Tal reação foi provocada pelas afirmações de Carter de que lobistas pró-Israel emperraram o debate nos Estados Unidos sobre o conflito entre israelenses e palestinos; os israelenses são culpados de violações de direitos humanos nos territórios palestinos ocupados; e que os editoriais dos jornais americanos raramente apresentam algo a não ser um ponto de vista pró-Israel.

Mas grande parte do ultraje veio pelo seu uso da palavra "apartheid" no título, aparentemente igualando a situação atual dos palestinos à das ex-vítimas da separação racial promovida pelo governo na África do Sul.

Grupos judeus responderam furiosamente, dizendo que as alegações de Carter são perigosas e anti-semitas. Mas Carter tem defendido o livro, dizendo que acredita que há uma comparação válida entre os israelenses e os brancos sul-africanos que oprimiam os negros.

"Obviamente seria um tanto provocativo", disse Carter sobre o título. "Eu poderia ter dito 'Um Novo Caminho para a Paz' ou algo assim."

Mas Carter disse que sentiu que apartheid era a palavra mais pertinente que poderia usar, e olhando para trás não mudaria nada no conteúdo do livro.

Seu livro detalha sua versão da história do conflito entre israelenses e palestinos, começando no século 19. Ele conclui que Israel agora está seguindo um "sistema de apartheid", no qual os israelenses são dominantes e os palestinos são privados de direitos humanos básicos.

O livro foi publicado em 14 de novembro pela Simon & Schuster. Ele está no 7º lugar na lista de best-sellers do "The New York Times" e já vendeu mais de 68 mil exemplares, segundo a Nielsen BookScan, que mede 60% a 70% das vendas de um livro.

Na entrevista, Carter definiu "apartheid" como a "separação forçada de dois povos no mesmo território, com um dos grupos dominando ou controlando o outro". Segundo esta definição, ele disse, os Estados Unidos praticaram uma forma de apartheid durante seus anos "separados mas iguais" de segregação.

A oposição ao livro apareceu principalmente em editoriais de jornal, como no "The Washington Post" e "The Atlanta Journal-Constitution".

Em um ensaio intitulado "Não é Apartheid", Michael Kinsley atacou o livro no "The Washington Post", na terça-feira. "Não está claro o que ele quer dizer ao usar a palavra carregada 'apartheid', já que o livro não faz tentativa de explicá-la, mas a única interpretação razoável é que Carter está comparando Israel ao antigo governo racista branco da África do Sul", escreveu Kinsley.

No "The Jerusalem Post", David A. Harris, o diretor executivo do Comitê Judeu Americano, disse que o livro tem um título "bizarro".

Abraham H. Foxman, o diretor nacional da Liga Antidifamação, disse: "O título visa deslegitimizar Israel, porque se Israel é como a África do Sul, ele não merece ser um Estado democrático. Ele está provocando, é ultrajante e é intolerante".

Nesta semana a Liga Antidifamação começou a veicular anúncios criticando Carter nos principais jornais, incluindo "The New York Times", "The Washington Post", "The Los Angeles Times" e "The Atlanta Journal-Constitution".

Carter também teve que se defender de acusações de que se apropriou indevidamente de material de um livro de Dennis Ross, um ex-enviado ao Oriente Médio que atualmente é analista de política externa para a "Fox News".

E Kenneth W. Stein, um conselheiro de Carter, pediu demissão na semana passada do Centro Carter, após dizer que o livro está "repleto de erros factuais, material copiado não citado, superficialidades, omissões clamorosas e segmentos simplesmente inventados".

Carter rebateu tais acusações, dizendo que nunca leu o livro de Ross, "The Missing Peace". "Eu escrevi cada palavra do livro pessoalmente", ele disse. "Eu não plagiei nada."

O interesse de Carter no conflito no Oriente Médio vem de longa data. Quando venceu o Prêmio Nobel da Paz em 2002, o comitê do prêmio citou seu papel no acordo de Camp David entre Egito e Israel, em 1978.

Na sexta-feira, Carter escreveu em um ensaio no "The Los Angeles Times" que os esforços de lobby do Comitê de Assuntos Públicos Americano-Israelense produziram uma relutância em criticar as políticas do governo israelense. As páginas de editoriais dos principais jornais e revistas americanos, ele continuou, têm evitado o assunto de Israel e dos palestinos.

Um ponto de vista forte pró-palestinos, ele disse, é "inexistente neste país em qualquer grau detectável".

Esta foi a alegação que Foxman disse ter considerado mais ofensiva. "O motivo que ele dá para ter escrito o livro é esta balela vergonhosa e desavergonhada de que os judeus controlam o debate neste país, especialmente quando se trata da mídia", ele disse. "O que torna isto sério é que ele não é apenas mais um erudito, não é apenas mais um analista. Ele é um ex-presidente dos Estados Unidos." George El Khouri Andolfato

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