UOL Notícias Internacional
 

16/12/2006

Hamas e Fatah entram em choque enquanto tensão cresce

The New York Times
Greg Myre

Em Jerusalém
O Hamas, a facção palestina do governo, acusou na sexta-feira seu rival, o Fatah, de tentar assassinar o primeiro-ministro palestino Ismail Haniya, uma acusação que aumentou as tensões entre os dois grupos, que entraram novamente em choque nas ruas na sexta-feira.

O Fatah negou a acusação, que aumentou o peso do confronto cada vez mais amargo. O Hamas, um movimento radical islâmico que é considerado um grupo terrorista por Israel e pelo Ocidente, comanda o governo palestino, enquanto o Fatah, uma facção secular, detém a presidência e controla algumas divisões das forças de segurança.

O Hamas promoveu comícios tanto na Faixa de Gaza quanto na Cisjordânia na sexta-feira, para marcar o 19º aniversário de sua fundação, e seus simpatizantes entraram em choque com forças de segurança palestinas do lado de fora de uma mesquita em Ramallah, na Cisjordânia. Mais de 30 palestinos ficaram feridos. Os confrontos de sexta-feira ocorreram às vésperas de um grande pronunciamento do presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, que deverá apresentar no sábado planos para colocar um fim a meses de impasse político entre o Hamas e o Fatah. Abbas, que é do Fatah, ainda não revelou seus planos, mas em tal clima volátil, ele pode estar mais inclinado a buscar opções que visem reduzir as tensões.

Os eventos de sexta-feira foram basicamente uma extensão de um estranho episódio de quinta-feira, quando Israel impediu temporariamente Haniya de voltar à Faixa de Gaza após uma viagem pelo Oriente Médio. Israel disse que ele carregava dezenas de milhões em dinheiro em sua bagagem, e que o dinheiro poderia ser usado para financiar ataques terroristas, apesar de Israel não ter apresentado provas que corroborassem tais alegações. Enquanto Haniya se aproximava da passagem de Rafah, na fronteira entre Gaza e o Egito, Israel ordenou que a passagem fosse fechada.

O impasse de sete horas que se seguiu rapidamente se tornou uma batalha interna palestina. Homens armados do Hamas invadiram o terminal de fronteira no lado palestino em Rafah, em apoio a Haniya, que estava preso no lado egípcio.

Os homens armados do Hamas primeiro entraram em choque com as forças de segurança palestinas na passagem, que são leais a Abbas. Posteriormente, eles enfrentaram as forças de segurança egípcias do outro lado da fronteira.

Haniya no final foi autorizado a entrar em Gaza, após deixar o dinheiro para trás com funcionários do Hamas que ficaram no Egito. Mas enquanto Haniya deixava a área da fronteira, sua comitiva foi alvo de disparos. Um guarda-costas foi morto, e um dos filhos de Haniya e um de seus conselheiros políticos foram feridos.

"Que guerra você está lançando, Mahmoud Abbas, primeiro contra Deus, e então contra o Hamas", disse o líder do Hamas, Khalil al Hayya, enquanto se dirigia a dezenas de milhares de simpatizantes reunidos em um estádio esportivo na Cidade de Gaza.

Em uma coletiva de imprensa na Cidade de Gaza, o Hamas afirmou que Muhammad Dahlan, um poderoso membro do Parlamento pelo Fatah e um ex-chefe de segurança em Gaza, estava por trás do ataques contra Haniya.

"Muhammad Dahlan tem responsabilidade direta pela tentativa de assassinato, que visava o primeiro-ministro", disse Ismail Radwan, um porta-voz do Hamas.

Dahlan tem um relacionamento extremamente tenso com o Hamas. Ele foi responsável por repressões contra o grupo quando o Fatah comandava a Autoridade Palestina e ele era o encarregado da segurança preventiva em Gaza. Dahlan é de Gaza, a fortaleza do Hamas, mas ele atualmente passa grande parte de seu tempo na Cisjordânia, onde rejeitou a acusação.

"As alegações do Hamas são apenas uma forma de mascarar seus fracassos para com o povo palestino", disse Dahlan. "O governo do Hamas é plenamente responsável pelos eventos de ontem."

Na Cidade de Gaza, homens armados do Hamas travaram uma breve batalha na sexta-feira contra as forças de segurança aliadas do Fatah, em uma área próxima da casa que Dahlan tem na cidade. Nenhum ferido foi relatado.

Em seu discurso no comício do Hamas na Cidade de Gaza, Haniya descreveu a troca de tiros do dia anterior. "Quando meu comboio começou a se mover, houve disparos vindos de todos os lados", ele disse. "Os jovens formaram um escudo humano ao meu redor. Então este mártir caiu bem ao meu lado", uma referência ao seu guarda-costas morto.

Haniya disse que seu governo tem os nomes dos envolvidos no atentado, mas não os divulgou, assim como não acusou o Fatah ou qualquer outro grupo nominalmente.

"Nós daremos estes nomes ao ministro do Interior e aplicaremos a lei", disse Haniya.

Em seus comentários, Haniya disse que desde sua fundação em 1987, as realizações do Hamas incluem dois levantes contra Israel e a retirada dos soldados e colonos israelenses da Faixa de Gaza.

Apesar de também ter citado os sucessos políticos do Hamas nas eleições parlamentares e para o comando do governo, ele sugeriu que estes eram menos importantes.

"Nós ingressamos neste movimento para nos tornarmos mártires, não ministros", disse Haniya.

A violência de sexta-feira se concentrou em Ramallah, onde simpatizantes do Hamas tentaram marchar até o centro da cidade após as orações do meio-dia em uma das mesquitas principais.

Mas agentes de segurança aliados do Fatah usaram bastões para bater e afastar os manifestantes. As forças de segurança também dispararam para o ar, enquanto os simpatizantes do Hamas atiravam pedras e garrafas. Vários ficaram feridos a bala.

As tensões entre o Hamas e o Fatah e outras disputas internas palestinas vêm crescendo há meses; elas começaram a ferver nesta semana, com vários ataques mortais.

Nos últimos anos, as facções palestinas têm se enfrentado periodicamente, mas sempre pararam antes de chegar a um confronto total. Mas a violência e retórica acalorada nos últimos dias têm aumentado o temor de tal confronto, ou mesmo de uma guerra civil palestina.

Enquanto isso, Abbas enfrenta a tarefa difícil de tentar resolver o impasse político em um momento de violência interna quase diária.

Após meses de negociações entre o Hamas e o Fatah visando a formação de um governo de "unidade nacional", Abbas disse recentemente que as negociações chegaram a um beco sem saída.

Assessores de Abbas disseram que o presidente está considerando uma série de opções. Mas a Lei Básica Palestina, que serve como uma Constituição, não diz exatamente como tais crises políticas podem ser resolvidas.

Abbas pode convocar um referendo sobre se os palestinos devem realizar novas eleições presidenciais e parlamentares.

O presidente não tem poder para desfazer o atual governo do Hamas, mas um novo governo precisaria de aprovação do Parlamento, que é dominado pelo Hamas.

Abbas pode tentar pedir novas eleições parlamentares, mas o Hamas diz que ele não tem poder para isto e que tal medida inflamaria ainda mais as tensões.

Hayya, o líder do Hamas que falou no comício na Cidade de Gaza, disse que sua facção não aceitará nem um referendo e nem novas eleições. O Hamas obteve uma maioria parlamentar nas eleições em janeiro, e o Parlamento tem quatro anos de mandato até as próximas eleições marcadas. George El Khouri Andolfato

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