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18/12/2006

Los Roques, Venezuela: No Caribe, prazeres intensos sem maiores luxos

The New York Times
Tim Neville
Numa pequena ilha deserta perto da costa da América do Sul, quando era outono na região, um casal americano saltou da proa de um pequeno barco a motor, firmou cadeiras na areia e enterrou duas latas de cerveja bem fundo na areia para mantê-las frias. Estavam sozinhos na ilhota, à exceção de três italianos que estavam longe, emoldurados pelo azul incandescente do céu e do mar.

A ilha que os americanos tinham escolhido para seu dia de isolamento tropical, Cayo Muerto, é uma pequena faixa de areia brilhante, medindo talvez uns 500 passos de comprimento por uns 50 passos de largura. É uma das centenas de ilhas desertas e rochas que salpicam o arquipélago de Los Roques, uma região praticamente desabitada do sul do Caribe que proporciona mordomias ao estilo europeu a partir de uma simples viagem de barco que parece fruto da fantasia de um náufrago.

Todo o atol, a cerca de 130 quilômetros ao norte de Caracas, é um parque nacional venezuelano. Há apenas uma cidade, de 1.600 habitantes, numa das ilhas, situada entre aproximadamente 2.200 quilômetros quadrados de lagoas, de rochedos e das praias mais incrivelmente deslumbrantes que até mesmo um bem viajado americano já viu em toda sua vida. Não há navios de cruzeiro nem grandes hotéis em Los Roques - apenas faixas quase ilimitadas de areia, só areia, cercadas de água tão fantasticamente límpida que os mergulhadores poderão se surpreender por detrás de suas máscaras.

É assim que deve ter sido o Caribe antes da chegada do turismo.

"É disso que gostamos, não é cheio de condomínios nem ruas pavimentadas nem butiques vendendo guloseimas e camisetas", disse Gary Gladwish, um arquiteto de Seattle que no outono venezuelano viajava com sua companheira, Ruth.

"Talvez nós pudéssemos ter encontrado um ambiente natural similar que tivesse um grau ainda menor de desenvolvimento, mas de qualquer forma é agradável lidar com esse aspecto primitivo com pequenos luxos, como o de um restaurante poder entregar o almoço numa ilhota deserta."

Los Roques é praticamente desconhecida dos turistas americanos, especialmente quando comparada com vizinhos bem trabalhados pelo marketing, como Bonaire e Curaçao, ao oeste. Pode ser bem difícil chegar lá. Nenhuma balsa comercial faz a viagem de 11 horas partindo do território venezuelano.

Vôos comerciais em antigos DC-3s e em teco-tecos assustadores aterrissam em uma pista castigada pelo sol em Gran Roque, a única ilha urbana no arquipélago. Depois que chegam em Los Roques, os visitantes podem dormir em cabanas de pescadores reformadas.

Mas esse clima sem maiores luxos é exatamente o que faz de Los Roques um lugar assim tão charmoso, e as recompensas pela viagem tão árdua são incomparáveis.

Primeiro porque os mergulhos são espetaculares em quase todos os cantos do arquipélago. Em locais como La Guaza, uma série de pináculos invertidos que chegam a mais de 40 metros, com corais pulsantes, cardumes de peixes e até mesmo de tartarugas marinhas conspiram para lembrar aos mergulhadores de destinos submarinos asiáticos. Mergulhadores podem descer de máscaras por lagoas de corais perto de Crasqui, uma das ilhas desertas mais procuradas, e observar centenas de milhares de peixes minúsculos formarem túneis que podem ser atravessados pelos nadadores.

Atravessando as ondas, de volta à civilização, Gran Roque pode dar a impressão de ser uma comunidade reclusa, como a do filme "A Praia", só que organizada por adultos com contas bancárias. Há poucos restaurantes, não há boates nem veículos em Los Roques, com exceção do caminhão-pipa de água e um ou dois carros de golfe.

Trilhas por aléias arenosas são margeadas por árvores coccolobas e vão dar em hotéis com rebocos em tons pastéis brilhantes. Pelicanos, pássaros mergulhões e andorinhas-do-mar secam suas asas em barcos que vagueiam por ondas mornas. E para por aí o grau de progresso que provavelmente irá ocorrer em Los Roques. "A lei ambiental não permitirá mais que isso", disse Jesus Duran, superintendente do parque nacional do arquipélago de Los Roques.

Se são poucos os americanos - talvez temerosos por causa da fricção entre os governos venezuelano e americano - os italianos são abundantes, possivelmente formando o maior contingente entre os 60.000 visitantes anuais que Gran Roque recebe. Na verdade, a ilha bem podia ser chamada de Little Italy do Caribe. Os italianos administram a maioria das pousadas em Gran Roque. Os cardápios incluem o risotto e o carpaccio de peixe. Além disso, há uma quadra de bocha logo na saída da cidade. Um pequeno café serve espresso em pequenos copos de isopor.

"É como se fosse uma colônia italiana," disse Jose Antonia Sosa, cozinheiro no Posada Terramar e pescador de lagostas.

Aproximadamente 42 ilhas e umas 300 rochas, muitas com quietas cavernas e lagoas verdes, pontilham as águas translúcidas em torno do arquipélago, fazendo de Los Roques um das áreas tropicais mais belas no hemisfério.

A cada manhã em Gran Roque, multidões visitam o Oscar Shop, um quiosque perto da pista aérea. Lá os turistas alugam barcos para passeios diários até ilhas com nomes ingleses maravilhosamente adulterados como Selesqui (Sailors Cay, ou ilha dos marujos) e Nordisqui (Cay do Nordeste, ou ilha do nordeste). A turma do windsurf e do kiteboard gosta da ilha de Francisqui pelos ventos consistentes e lagoas calmas.

"Quase todos os fãs da pescaria fly-fishing já ouviram falar de Los Roques", disse Reggie Hammond, um guarda florestal no estado de Maine que passou duas semanas em busca da pescaria perfeita em ilhas como a Crasqui. É totalmente viável alugar um barco, encontrar uma ilha não maior do que um quintal suburbano e ficar completamente sozinho.

Os dois americanos e os três italianos compartilharam Cayo Muerto de forma bem amigável. (Os italianos gostavam de tomar banho de sol pelados, mas isso não é assim tão incomum em Los Roques.) Quando os italianos foram dar uma volta, os americanos também foram, para o outro lado, mantendo metade da ilha minúscula de distância entre os dois grupos. Quando um dos americanos - este repórter - caiu de joelhos propondo casamento em meio a uma piscina de águas brilhantes (quem poderia dizer não a uma proposta dessas?), os italianos estavam ocupados demais, se digladiando numa extremidade distante, para ver que a moça topou a proposta. "Aqui parece um sonho", disse um deles mais tarde, num misto capenga de inglês e espanhol.

Que exista uma tal possibilidade de fantasia náufraga, por um dia que seja em pleno Caribe tão desenvolvido, se deve em parte ao pouco tempo de atividades turísticas no arquipélago. Mas os viajantes já vem visitando Los Roques há milhares dos anos. Pescadores pré-colombianos navegavam até o arquipélago e colhiam tantas pérolas que, dizem os dirigentes do parque ambiental, as conchas descartadas provavelmente formaram uma das ilhas daqui, La Pelona.

Em 1589, Diego de Osorio, governador espanhol da província de Venezuela, tomou posse de Los Roques em nome da Coroa. Por séculos as ilhas não tinham nada, a não ser algumas poucas minas de sal, mangues e um farol do século 19 que ainda está de pé. O governo venezuelano declarou a área como um parque nacional em 1972, mas os turistas que permanecem mais do que um dia só começaram a chegar de uns 15 anos para cá, depois que um restaurateur italiano chamado Vincenzo Conticello visitou o arquipélago e voltou encantado com tanto beleza.

"Foi como a luz de um relâmpago, ver aquelas lingüetas arenosas brancas de encontro ao mar cristalino, conhecer os habitantes e ver os pelicanos", Conticello, 47, contou por uma mensagem por e-mail sobre sua primeira visita, no final dos anos oitenta. "Ali começou minha aventura venezuelana."

Na época, disse Conticello, havia somente quatro pousadas funcionando "de maneira rudimentar", administrada pelos locais, atendendo em grande parte aos pescadores e aos trabalhadores da usina de dessalinização da ilha. O serviço aéreo era esporádico e às vezes temerário. Os "roquenos", talvez com um tanto de enfeite, falam de um piloto legendário chamado Jesus Munoz que aterrissou visivelmente bêbado em Caracas sem equipamentos e com uma mulher meio pelada na cabine.

Determinado, em dezembro de 1991 Conticello abriu a Pelicano, uma pousada com 15 quartos que ele divulgou pela mídia italiana. Outros empreendedores, como Elena Battani, uma advogada de Florença, souberam das façanhas de Conticello. Em 1994, ela comprou a choupana de um pescador e a converteu na segunda pousada turística da ilha, a Mediterraneo, um complexo todo em branco com um deck no telhado que se tornou popular entre os pescadores. Depois vieram outras pousadas.

Hoje há quase o dobro de turistas em Los Roques, se comparado com a freqüência em 1995, disse Duran. Há aproximadamente 400 quartos em 64 pousadas, e os italianos administram mais da metade delas. Pela lei, nenhuma pode ter mais que 15 quartos ou ser mais alta do que um andar com um mezzanino. Variam, de lugares como a Dona Magalys, onde por U$ 45 a noite encontra-se um quarto sem janelas mas com café da manhã, até pousadas como a Natura Viva, inaugurada há três anos e o mais novo dos estabelecimentos. Lá, com U$ 247 por pessoa por noite incluindo refeições, um hóspede pode dormir num quarto com ar condicionado de frente para uma praia, e vagar por um elegante átrio decorado com palmeiras. A pousada é linda, mas como todas por aqui pode parecer cara demais por conta do que é oferecido.

O sr. Gladwish, que pagou U$ 400 por noite na pousada Macanao, concorda.
"Pelo preço que nós estamos pagando, eu gostaria que alguém me dissesse, 'Sr. Gladwish, gostaria de uma bebida e de uma pedicure?'" disse. "Eu não quero que as pessoas se esfalfem para me servir, mas a verdade é que cobram como um cinco estrelas mas o que oferecem está mais para serviço três estrelas."

Mas os debates sobre o preço elevado da rusticidade podem subitamente desaparecer numa dessas noites, quando a areia esfria e os garçons servem coquetéis de rum a turistas queimados de sol em almofadas pela praia.

Enquanto os ilhas prateadas se desvanecem no crepúsculo, os planos de comer um peixe macabí bem gordo na grelha, mergulhar por entre nuvens de peixes minúsculos - e até mesmo encontrar uma ilha para pensar nisso tudo- são atividades que terão que esperar até amanhã.

Até lá, somente as luzes dos barcos pesqueiros irão cintilar pelo mar escuro. Marcelo Godoy

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