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19/12/2006

'Lincoln's Sword': o poeta laureado na Casa Branca

The New York Times
Michiko Kakutani
Em um discurso em louvor a seu ídolo Henry Clay, Abraham Lincoln notou que e eloqüência de Clay "não consistia, como ocorre em muitas dos espécimes raros de eloqüência", de um "arranjo elegante de palavras e sentenças; mas sim de um modo e tom profundamente zeloso e passional, que pode proceder de uma grande sinceridade e de uma ampla convicção, na oratória da justiça e da importância de sua causa". Isto, ele concluiu, é o que permitia a Clay realmente tocar "as cordas da simpatia humana".

Library of Congress/The New York Times 
Livro analisa o papel que a escrita exerceu na presidência de Lincoln nos Estados Unidos

O mesmo, é claro, podia ser dito do próprio Lincoln: talvez o melhor escritor que já tenha ocupado o cargo de presidente e um que usou profundamente sua eloqüência -mais notadamente nos discursos de Gettysburg e da Segunda Posse- para transformar a forma como os americanos pensavam em seu país e seus ideais.

Em seu novo livro, Douglas L. Wilson - co-diretor do Lincoln Studies Center no Knox College, em Galesburg, Illinois, e autor de "Honor's Voice", um estudo sobre o jovem Lincoln aclamado pela crítica - analisa o papel que a escrita exerceu na presidência de Lincoln, se concentrando nas circunstâncias que moldaram documentos em particular e a evolução destes documentos por meio do meticuloso papel de revisão do presidente.

Resmas de palavras já foram dedicadas à escrita de Lincoln, e apesar de "Lincoln's Sword" fornecer alguns pequenos insights luminosos, grande parte dele percorre terreno familiar. O volume tem dívida para com o trabalho de outros eruditos sobre o assunto, como James M. McPherson, Don E. Fehrenbacher e Jacques Barzun, e no assunto dos dois maiores discursos de Lincoln, ele é ofuscado por dois trabalhos anteriores: o seminal livro de 1992, "Lincoln at Gettysburg: The Words That Remade America", de Garry Willis, e o livro de 2002 de Ronald C. White Jr., "Lincoln's Greatest Speech: The Second Inaugural".

As partes mais envolventes deste livro tratam dos hábitos de composição de Lincoln e o papel central que a escrita teve em sua vida. Wilson sugere que, para o presidente, a escrita era uma forma de refúgio, "um local de retiro intelectual do caos e confusão do governo, onde ele podia separar opções conflitantes e ordenar seus pensamentos com palavras".

Ele nota que Lincoln freqüentemente rabiscava idéias em pedaços de papel e que era um revisor hábil de seu próprio trabalho. Ele observa que o apreço de Lincoln pela leitura em voz alta aperfeiçoou sua sensibilidade para o fraseado, cadência e ritmo, e que tinha uma queda por imagens dramáticas e a uso da antítese ("a oposição equilibrada de palavras e frases") que penetrava na mente dos leitores e ouvintes.

Finalmente, ele argumenta que Lincoln -um homem de muitos humores, de brincalhão a melancólico, de filosófico a irreverente- era um escritor de enorme amplitude: alguém igualmente dotado em estilo humorístico e elegíaco, em vernáculo e imperioso, alguém que podia "promover a conciliação tão convincentemente quanto a confrontação". Curiosamente, Wilson não dedica muito tempo à influência que os textos favoritos de Lincoln -incluindo as peças de Shakespeare e a Bíblia- tiveram sobre sua própria obra.

"A verdade é que a escrita de Lincoln, apesar de freqüentemente creditada por sua clareza, não era bem cotada segundo os padrões predominantes de eloqüência, que, como a arquitetura da época, valorizavam o artifício e o ornamento", escreve Wilson. "Como seus contemporâneos Herman Melville, Nathaniel Hawthorne, Walt Whitman, Henry David Thoreau e Emily Dickinson, Lincoln estava na prática forjando um novo instrumento distintamente americano."

"Menos consciente do que alguns destes, talvez, mas não menos diligente, Lincoln estava à sua própria forma aperfeiçoando uma prosa que expressava uma forma singularmente americana de compreender e ordenar experiência. Seu propósito era, é claro, não literário, mas político - encontrar uma forma de chegar a um público americano grande e diverso, e persuadi-lo a apoiar o governo em seus esforços de acabar com a rebelião."

Como muitos biógrafos de Lincoln, Wilson enfatiza sua capacidade de crescimento e a transformação deste político amigável de Illinois no Salvador da União. Ele aponta que a ascensão de Lincoln à Casa Branca foi recebida com muito ceticismo - muitos o consideravam um político inculto e imaturo, despreparado para lidar com uma nação que estava em "risco iminente de dissolução" - e que aqueles que sabiam que Lincoln escrevia seus próprios textos "não estavam favoravelmente impressionados", o considerando outro "exemplo de como um executivo inexperiente desperdiçava seu tempo fazendo o que seria mais bem delegado".

Mas com a publicação (em jornais e panfletos) de uma série de cartas públicas de Lincoln, "começou a haver um maior reconhecimento de que o presidente, apesar de suas idiossincrasias, era um escritor eficaz". O próprio Lincoln "no final percebeu quão eficaz podia ser perante o público em um meio literário", escreve Wilson, e "parece certo que ele começou a ver como isto poderia ter um papel maior" na formação da opinião pública. "Quando ele escreveu o Discurso de Gettysburg, por exemplo, ele tentou colocar a horrível carnificina da Guerra Civil sob uma luz positiva, e ao mesmo tempo fazê-lo de forma a ter implicações construtivas para o futuro".

Com tal discurso sucinto, Lincoln forjaria o que Wilson chama de "expressão galvanizadora e durável" do propósito da guerra, inserindo na consciência da nação um novo entendimento da afirmação de igualdade contida na Declaração da Independência, assim como no Segundo Discurso de Posse, feito pouco antes de seu assassinato, ele produziria um sermão magnânimo sobre o significado daquele conflito destrutivo e sangrento e a estrada para atar as feridas da nação. George El Khouri Andolfato

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