UOL Notícias Internacional
 

23/12/2006

Rússia se exime em relatório final sobre massacre na escola

The New York Times
C.J. Chivers

Em Moscou
Uma comissão parlamentar apresentou na sexta-feira seu relatório final sobre o pior ato terrorista na história russa moderna -a tomada de uma escola pública em Beslan, em 2004- destacando brevemente os erros cometidos pelas autoridades mas atribuindo a culpa pelas centenas de mortes apenas aos militantes liderados por tchetchenos.

A há muito aguardada conclusão, lida em voz alta pelo líder da comissão durante uma sessão da câmara alta do Parlamento, encerrou mais de dois anos de investigações do incidente que chocou a Rússia e o mundo. Entre os 334 mortos estavam 186 crianças.

O relatório sugeriu um endurecimento da posição do Kremlin em um dos episódios públicos mais dolorosos do governo do presidente Vladimir V. Putin, afastando questões persistentes sobre os eventos e insistindo que as autoridades, apesar dos muitos problemas bem documentados, realizou um trabalho adequado.

O Kremlin prometeu que a comissão especial, repleta de políticos leais a Putin e trabalhando quase que totalmente longe dos olhos do público, estabeleceria os fatos e informaria a verdade.

Mas a apresentação do resumo do relatório em um discurso não satisfez os sobreviventes amargurados e as famílias consternadas, alguns dos quais o rotularam como um encobrimento visando eximir o Kremlin de responsabilidade pela negligência do governo e pelo descaso com a vida dos reféns.

Cópias do relatório integral foram dadas ao Kremlin e aos líderes parlamentares, mas não foram divulgadas para o público ou para a imprensa, tornando quase impossível avaliar as evidências nas quais as conclusões da comissão se basearam.

Mais de 1.100 pessoas foram feitas reféns na Escola Nº 1 em 1º de setembro de 2004, o primeiro dia do ano letivo em Beslan, uma cidade de Ossétia do Norte, no sudoeste da Rússia. Os terroristas foram enviados por Shamil Basayev, o líder fugitivo de um grupo que luta pela independência da Tchetchênia, uma pequena república muçulmana no Cáucaso.

Os seqüestradores exigiam a retirada das forças russas de solo tchetcheno, onde travaram duas guerras contra os separatistas desde 1994.

Em seus comentários ao Parlamento, o presidente da comissão especial, Aleksandr P. Torshin, chamou as exigências dos terroristas de "impossíveis de serem atendidas".

No cerco de três dias à escola, 333 morreram, quase todos após duas explosões no ginásio, onde os reféns eram mantidos, terem provocado uma batalha caótica. Outro refém, entre os centenas de feridos e hospitalizados, morreu posteriormente.

Torshin disse que os terroristas detonaram propositadamente as bombas entre os reféns, iniciando a última batalha para surpresa dos negociadores e comandantes russos.

"Foi estabelecido que um dos membros da gangue, agindo de acordo com o plano previamente elaborado, detonou um artefato explosivo caseiro no ginásio", ele disse.

Tal declaração foi além das descrições anteriores das explosões pelo governo, que diziam que as bombas explodiram de forma inexplicada, talvez por acidente, como muitos reféns disseram logo após o sítio.

A evidência para esta nova afirmação não é clara. Torshin disse no ano passado que sua comissão estava aguardando por evidências e exames dos peritos dos locais das explosões. Ele não fez nenhuma menção de tais materiais na sexta-feira.

Torshin também desprezou como politicamente motivada a teoria, apresentada no ano passado por um membro divergente da comissão, que as explosões tiveram início quando as forças russas dispararam foguetes contra o ginásio.

A evidência para tal teoria é incompleta e não é clara. Torshin sugeriu que ela foi circulada por aqueles que "tentam culpar as autoridades federais de tentarem um ataque, transferindo para elas a responsabilidade pelas explosões".

Seu resumo, lido a partir de várias páginas de texto, ofereceu o único vislumbre público disponível do relatório e do trabalho da comissão.

Após fazer sua apresentação, Torshin disse que a comissão foi encerrada, um fim discreto e sem cerimônia para um projeto antes apresentado como uma forma de responder a uma longa lista de perguntas sobre o cerco.

Muitas destas perguntas continuam assunto de vigoroso debate, incluindo quantos terroristas estiveram envolvidos; se estocaram armas e munição na escola antes do cerco; e se alguns deles escaparam ou foram capturados sem reconhecimento por parte do governo russo.

Dúvidas sobre a atuação do governo também persistem. Elas incluem perguntas sobre a natureza e conteúdo das negociações com os terroristas; por que os bombeiros não estavam preparados para combater o incêndio que consumiu o ginásio; e por que tão poucas ambulâncias estavam disponíveis para transportar os centenas de feridos.

Ella Kesayeva, que lidera o grupo de apoio Voz de Beslan, sugeriu que o relatório foi um sinal de que Putin e seu círculo não estão mais interessados em discutir os detalhes.

"Pessoalmente, nós não esperávamos nada diferente de Torshin", ela disse. Kesayeva perdeu um filho adolescente no cerco.

"Se ele pensa, apesar de toda evidência e testemunho de centenas de reféns", ela acrescentou, "que as estruturas de poder agiram corretamente, esta é sua opinião pessoal e nós, as vítimas, não estamos interessadas nela".

"Quem está por trás de tal relatório? Aqueles que são culpados por esta tragédia", disse Kesayeva.

Em certos pontos, o relatório de Torshin não parece conciliável com os relatos das testemunhas.

Ele disse, por exemplo, que a comissão concluiu que tanques do 58º Exército da Rússia não dispararam contra a escola enquanto reféns estavam no prédio, como disseram testemunhas e sobreviventes. Dois jornalistas do "The New York Times" também testemunharam dois tanques T-72 avançarem na escola naquela tarde; pelo menos um deles disparou várias vezes.

Em uma breve série de pontos perto do final de sua apresentação, Torshin criticou as autoridades.

O posto de comando, ele disse, não estava devidamente treinado. Ele notou que as agências de inteligência não penetraram adequadamente nem reuniram informação oportuna sobre grupos terroristas tchetchenos, o que tornou difícil a prevenção do ataque.

Ele também criticou a polícia local, dizendo que ela ignorou os alertas de ataques terroristas iminentes e não que tinha presença adequada nas estradas ou perto da escola naquele dia.

E Torshin notou que alguns dos terroristas tinham sido presos e indiciados por outros crimes antes da tomada da escola, mas foram inexplicavelmente colocados em liberdade.

Cada uma destas conclusões, apesar de críticas na superfície, eram de muitas formas evidentes e de conhecimento geral. Elas ofereceram pouca luz para o entendimento do evento.

E, em um sinal final de que a comissão toleraria erros claros, Torshin fez uma fria referência atenuada à repetida insistência oficial durante o cerco de que apenas 354 reféns estavam na escola quando, na verdade, o governo sabia que havia mais de 1.100.

"O trabalho de informar a população não foi devidamente organizado", ele disse, descrevendo declarações que as vítimas chamaram de mentiras descaradas. George El Khouri Andolfato

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